Pesquisadores da saúde debatem desafios para comunicação contra-hegemônica

Bruno Marinoni, do Observatório do Direito à Comunicação

Acreditando na possibilidade de as manifestações iniciadas em junho de 2013 terem colocado a comunicação em outro patamar na sociedade brasileira, alguns grupos têm se esforçado para refletir sobre o papel desempenhado pelas mídias não ligadas aos conglomerados brasileiros do setor. Nesse sentido, os Projetos “Políticas Públicas de Saúde” e “Saúde, Serviço Social e Movimentos Sociais”, da Faculdade de Serviço Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e o Fórum de Saúde do Rio de Janeiro realizaram, no dia 29 de abril, o seminário “Democratização da Informação, Imprensa alternativa e luta contra-hegemônica: desafios na conjuntura atual”.

A realização do evento articulada com o movimento que luta contra a privatização da saúde demonstra que a pauta da democratização da comunicação têm conseguido extrapolar o círculo do campo profissional e das iniciativas individuais. O interesse se justificaria, conforme o que expressa o material de divulgação do seminário, porque “de forma inédita na história do país, os movimentos de comunicação contra-hegemônicos conseguiram disputar a atenção dos acontecimentos com os grandes meios de comunicação empresariais que foram obrigados a se adequar a uma nova realidade”.

A primeira mesa intitulada “Experiências da luta contra-hegemônica. O papel da imprensa alternativa”, contou com a participação do Núcleo Piratininga de Comunicação (NPC), a Associação Mundial de Rádios Comunitárias (Amarc) e do jornal do Sindicato dos Trabalhadores da Saúde, Trabalho e Previdência Social do Estado Rio de Janeiro (Sindsprev-RJ).

Cláudia Santiago, coordenadora do NPC, criticou a dificuldade que as organizações de esquerda têm para se comunicar com determinados setores da população. “A esquerda é extremamente elitista na sua linguagem”, afirmou. Além disso, destacou a importância de se fazer um “corte de classe” na comunicação, pois a comunicação alternativa não seria necessariamente “contra-hegemônica”.

O jornalista do Sindsprev, Hélcio Duarte, considerou que “a imprensa sindical vem se tornando cada vez mais corporativa e imediatista” e que foi pega despreparada, assim como a grande mídia, quando ocorreram as manifestações em junho de 2013.

O representante da Amarc, Pedro Martins, lembrou que a apropriação do rádio e televisão no Brasil se deu de forma privada, em detrimento do seu caráter de “bem público”. Segundo ele, os sucessivos governos priorizaram atender as demandas comerciais dos empresários resultando em um quadro no qual hoje algumas rádios empresariais sozinhas têm uma potência maior do que a soma de todas as potências das rádios comunitárias outorgadas. Além disso, a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) prometeu intensificar a repressão contra os comunicadores populares até a Copa do Mundo.

Durante a segunda mesa, que debateu “Hegemonia e contra-hegemonia no cenário brasileiro atual: a questão midiática”, Cátia Guimarães, jornalista da Revista Poli (Fiocruz), apresentou o que considera algumas “armadilhas” da imprensa alternativa. Dentre elas, a naturalização do modelo de produção de notícias e a sobrevalorização do papel da informação para a mudança social. Segundo ela, “desde junho está se abrindo uma janela para outra sociedade”.

Doutorando do programa de História Social da Universidade Federal Fluminense (UFF), Hugo Bellucco, destacou que “a imprensa alternativa, para ser contra-hegemônica, precisa ser uma imprensa classista”.

O professor Mauro Iasi, da Escola de Serviço Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), defendeu que “a linha contra-hegemônica foi destruída pelo Estado burguês nos últimos anos em todas as áreas”. Ele lembrou que na década de 80 o Diretório Nacional do PT abriu mão de ter o seu próprio jornal e revista, optando por disputar espaços das instituições burguesas.

O seminário reuniu cerca de 150 pessoas na UERJ.



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