Ebola é muito mais do que uma crise de saúde

Ebola é muito mais do que uma crise de saúde

Por Cláudia Collucci.

 

O primeiro caso suspeito de ebola no Brasil não se confirmou, mas a simples possibilidade de a doença estar entre nós amedrontou todo mundo.

A epidemia que matou mais de 4.000 na África e já fez vítimas na Espanha e nos Estados Unidos é muito mais do que uma crise de saúde. Ela representa um risco à segurança regional e global.

A epidemia é uma ilustração clássica de alertas tantas vezes repetidos quando se fala de doenças infecciosas: elas não conhecem fronteiras e podem ser desestabilizadoras de sociedades, economias e estados.

O ebola também é emblemático por uma outra razão. Os governos só tomam conhecimento das crises de saúde além das suas fronteiras apenas quando sentem a sua própria segurança ameaçada.

Em abril, a organização Médicos Médicos Sem Fronteiras (MSF) já havia alertado para a possível disseminação do vírus. Mas naquele momento a OMS minimizou as alegações, dizendo que o ebola não era nem uma epidemia, nem era “sem precedentes”.

Agora diz que nem a organização nem especialistas em infectologia esperavam uma epidemia dessas proporções.

A verdade é que enquanto só ameaçava a saúde dos africanos ocidentais, ninguém encarava a epidemia como um risco à segurança global.

A África Ocidental tem lidado como muitas crises de saúde ao longo de décadas, incluindo a malária, mortalidade materna e infantil e subnutrição.

Historicamente, Serra Leoa, Libéria e Guiné “moram” na parte inferior de todas as tabelas de classificação de indicadores de saúde e de desenvolvimento. Na Serra Leoa, por exemplo, a expectativa de vida é de 45 anos, 30 a menos do que no Brasil. Lá tem uma das piores taxas de médico por habitante do mundo: 0,03 médicos por 1.000 habitantes. No Brasil, é de 2 médicos para cada 1.000.

Os críticos têm reclamado da lenta resposta da comunidade internacional ao ebola. Têm toda razão. Mas é preciso ir além de 2014 e tirar alguma lição disso tudo.

O ebola não é uma doença especialmente difícil de conter. Mas requer um sistema de saúde efetivo, coisa que esses países e muitos outros ao redor do mundo não conseguiram construir por conta própria. E também não receberam ajuda externa necessária para fazê-lo.

Os problemas a longo prazo do subdesenvolvimento e da desigualdade global que culminaram nessa epidemia raramente são reconhecidos ou abordados.

Sim, precisamos lidar com o surto atual de ebola, mas também é necessário olhar para as suas causas. É preciso, sim, derramar recursos e atenção para combater a epidemia na África. Mas, quando ela estiver contida, não podemos só ficar esperando a próxima crise.

 

Fonte: Folha de São Paulo



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