Tania Fusco escreve sobre o fim da temporada das mulheres cyborgs

Por Tania Fusco, de sua página no Facebook.

 

De hoje.
GERAL

O caso Andressa Urach e o fim da temporada das mulheres cyborgs

 

A vida é a vida. Feita de ciclos. Cada um com suas glórias, seus desgastes, gastos e prazos.

09/12/2014 01:45

 

Cyborg era uma criatura meio humana, meio robô, personagem de um filme do mesmo nome, de 1989, que fez sucesso e virou sinônimo de gente com forma e força produzida e montada em laboratório.

Nesses anos 2000 as criaturas cyborgs são mais infladas e mais bonitas do que o original, mas são também visivelmente montadas em mesas de cirurgia. Andressa Urach, a menina de 27 anos que quase morreu nesses dias, é sinônimo desse modelo.

Primeiro inflaram as mulheres frutas. O tamanho dos seios e do bumbum definia a fruta a ser incorporada ao nome. Foram muitas – melão, melancia, pera, etc. Todas peças de fruteiras de loja – completamente artificiais, de matéria plástica, como se dizia no século passado.

Agora, as frutas caíram em desuso e o plástico tem nomes mais sofisticados – hidrogel, o mais famoso deles, aqualift, metacril ou polimefilmetacrilato, também conhecido como PMMA e primo primeiro do velho e bom plástico, uma bomba relógio.

Andressa Urach usou tudo isso nas coxas. Depois quis tirar com lipoaspiração. Porque nesta temporada o figurino exige modelagem mais fina e leve, sem bomba. O resto da história vem sendo contado on-line, dia a dia. Importante é que ela teve a sorte de sobreviver. Também dia a dia há histórias das que não sobreviveram.

Alimentada pela fatia de mercado que mais cresce nos dias de hoje – a cosmética -, nossa crescente vaidade anda produzindo uma multidão de cyborgs.

As mais jovens artificialmente perfeitas. As mais velhas caricaturas de si mesma – todas bocudas, com aquela pele marfim fininha de muitas cirurgias ou aquele aspecto de balão de festa, sem ruga, marca de idade ou expressão. Efeito de muitos e contínuos botox.

A estilista italiana, Donatella Versace, é exemplo disso. Virou um travesti de si mesma. Tudo levado ao limite máximo para prorrogar a juventude, que, sorry, colegagem, ainda tem mesmo prazo de validade.

Plásticas e cosméticos esticam o drible no tempo até o não-dá-mais. Só até ai. Além disso, é tragicomédia.

Não significa que depois dos 60, só o coque e o tricô são recomendáveis. Há vida – e beleza – depois disso. Exercícios, vida ativa, boa alimentação vão levando corpinhos e cabeças “enta” a dentro, com dignidade.

Mas quem nos dá – ou deveria dar – esse limite de parar com a cyborgagem? O espelho, claro. Ele mesmo, o cruel que entrega – seu pescoço ta um horror; as bolsas nos olhos também, os joelhos idem, seios e bumbuns pedem sutiãs e calcinhas, por assim dizer, mais definidores.

“Normal para idade”, como atestam os exames que nos sondam por dentro, depois dos 50. Significa que ali há ferrugens, mas dentro do previsto. De acordo com o desgaste do material humano. Mas dá pra rodar mais um pouco.

E ai vamos nós, aprendendo, inclusive, a envelhecer ou, jovem, a não pretender a perfeição a custa de inflar-se muito além do recomendado, vizinho do risco de morte.

A vida é a vida. Feita de ciclos. Cada um com suas glórias, seus desgastes, gastos e prazos. Há beleza em quase tudo. Por que não na velhice? Ou na perna mais fina, hein Andressas?

 

PS.: Para todas recomendo o livro, muito bem humorado, “Meu Pescoço é um horror”, da roteirista e jornalista americana Nora Ephron. O livro é de 2007. Mas ainda completamente dentro do prazo de validade.