Aborto: quando nem tudo em nossa vida está para sempre comprometido

Aborto: quando nem tudo em nossa vida está para sempre comprometido

Adriana Delbó

 

“A” fez aborto.

 

Algo terrível para muitas pessoas, ela sabe. Por isso ela quer compartilhar a experiência que teve com o aborto. Para ela foi uma necessidade, um compromisso com ela mesma e para com a vida dela, uma vida muito importante. Ela nunca pode ter filh@s, porque nunca @s quis. Esse foi o motivo para ela ter feito aborto: não quer ter filh@s, então ela não pode ter filh@s!

 

As avaliações alheias, reprodutoras de ideias irrefletidas ou até “bem” argumentadas e que são propagadas para provocar diminuições, nunca a tocaram. “Quem não quer ter filhos, não gosta de criança!”. Mentira! Ela gosta imensamente de criança. A formação profissional dela lhe deu também algumas condições de entender um pouco a respeito de crianças. Todas as vezes que “A” trabalha com elas é maravilhoso, para ela, para as crianças, para as famílias envolvidas. Pelo menos é isso que essas pessoas relatam. Mas gostar de crianças é muito diferente de ter filh@s sem querer – engravidar sem querer, gestar sem querer, parir sem querer, assumir a maternidade, interrompida ou não quando (quando, por exemplo, @s filh@s são deixados para adoção), assumir toda uma vida de ser mãe quando se segue criando @s filh@s que não se queria ter. “Ah, mais você passará a gostar d@s filh@s!”. É mesmo? Será? “A” nunca acreditou em bola de cristal. De certo modo ela já é mãe de tantas pessoas que adotou na vida, de tantas formas. Ela se sente plenamente satisfeita assim.

 

Há muitos aspectos indesejáveis na vida. Mas filh@s fazem parte do que precisa ser desejado. Isso sim é sagrado! Nossos desejos (e não desejos) precisam passar por reflexões, descobertas, elaborações, desconfianças, perseguições… Só não podem ser ignorados, desrespeitados, atropelados pelos desejos/interesses alheios.

 

A avaliação limitada que tenta trazer culpa às mulheres que abortam, tais como: “se não queria, por que engravidou?”, “engravidou, agora assuma!” nunca tocaram “A”. Ela engravidou porque os métodos anticoncepcionais também são falhos. E falharam com ela. “A” sabe que não deve se deixar ser forçada a assumir falhas alheias. Também não assumiria falha de homem que não quis ou não sabe usar camisinha. Não assumiria falha de homens que não se controlam e por isso estupram. Filh@s não devem ser resultados de falhas, mas sim de acertos e desejos. Há inúmeros motivos para gravidez indesejável. E nenhuma gravidez indesejável pode passar a ser desejada à força, por pressão, por limitações da moral consagrada e irrefletida – a moral mais vigente, a que mais tenta nos regular, a mais acessível, que é facilmente propagada desde as instituições mais respeitáveis, até as relações das mais medíocres, espalhadas por todos os cantos. Dos mais religiosos aos mais “atoas”, a possibilidade do aborto costuma ser condenada. Assim, por parte das pessoas que precisam pensar a respeito disso, e pensar-se a partir disso, a possibilidade do aborto é simplesmente abortada.

 

“A” fez aborto de modo seguro: numa clínica, com um médico de confiança. Pessoa muito sensível, com escuta, que explicou a respeito do procedimento, e que ajudou a pensar se era isso mesmo que ela queria. Um médico dos mais humanos que ela já conheceu. Na época, ela recorreu a essa forma de abortar porque ainda não sabia que podia ser seguro abortar usando medicamentos apropriados para isso, sem necessitar de tanto dinheiro – quando tais medicamentos são adquiridos através de fontes confiáveis, é claro. Na época ela fez empréstimos para conseguir o dinheiro necessário para o aborto. Um valor que para ela era inacessível, por mais compreensível que possa ser, considerando toda a equipe e equipamentos necessários para aquele procedimento. “A” ficou endividada por um tempo. Mas conseguiu fazer o que precisava fazer.

 

Muito tempo já se passou. Mais de 9 anos. “A” esta muito bem, obrigada. Nenhuma sequela física – sequer foi perceptível nos exames ginecológicos que ela fez nesses anos todos. Nenhuma sequela emocional – afinal, ela fez o que queria e, portanto, o que precisava fazer.

 

São muitas desinformações a respeito do aborto. E isso é proposital. São muitas más avaliações a respeito do aborto e de quem aborta. Essa é uma postura a ser refletida, indagada, enfrentada. Por que tantas limitações morais para algo que deve ir além de uma moral útil apenas para um determinado tipo de sociedade? O silêncio sobre o aborto aborta a vida de muitas mulheres, porque as mulheres que não querem ter filh@s, e são forçadas (de modo explicito ou velado) a tê-l@s, se abortam. Mas o que é a vida de uma mulher, não é mesmo? Há muito tempo a vida das mulheres é tratada como algo menor. A discussão sobre o aborto passa por isso. Acima de tudo está qualquer outra vida (até mesmo a vida de uma célula fecundada na qual é incutida uma ideia de vida como muito mais importante do que a vida da mulher). A vida da mulher deve servir sempre à outra vida! Eis uma ideia tão aceita tanto quanto insustentável, do ponto de vista das mulheres. Mas o que é a vida das mulheres, não é mesmo?  A ideia de que o aborto não pode ser possível, pensado, discutido, legalizado, porque, afinal, “há uma vida em questão que é mais importante do que é a vida da mulher” é ainda vitoriosa, a despeito das vidas que essa mesma ideia desrespeita e diminui. Muitas vezes uma ideia é maior do que muitas vidas! Nesse caso, essa ideia faz parte de um ensinamento muito importante para aqueles que precisam se apossar daquilo que somente a mulher pode gerar. Eis o perigo: a mulher e o que somente a mulher pode gerar! É tanto medo desse poder das mulheres, que todos foram se intrometendo neste assunto. Foi tanta intromissão que inverteram poderes: ensinaram que elas devem ter filh@s. Mas não é assim! As mulheres podem também decidir que não colocarão uma pessoa no mundo! É muito poder! Não são à toa tantos assassinatos de mulheres, tanta perseguição às mulheres e tantos moralismos (científicos, inclusive) limitadores de mulheres. Podemos esvaziar o mundo, se quisermos! Podemos dosar qual será o índice populacional. Podemos interferir fortemente na formação d@s filh@s próprios e alheios para a construção de um outro tipo de mundo. São muitos poderes! E, por isso, muito medo das mulheres e, por decorrência, muita covardia disfarçada também de ideias das mais diversas estirpes.

 

Também pelo poder que sabe que tem, pelo poder sobre o tipo de vida que quer se esforçar para ter, “A” fez aborto e não se arrepende.

 

Adriana Delbó, professora de Filosofia da UFG (Universidade Federal de Goiás). 



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