Sem meias palavras: quando sair do confinamento?

Sem meias palavras: quando sair do confinamento?

por Heleno Correia, pesquisador colaborador da Universidade de Brasília (UnB) e diretor executivo do CEBES

Os pequenos comerciantes, os chefes de lojas de grandes cadeias comerciais de marcas de aluguel (“Franchising”), os vendedores de distribuição e representantes comerciais, e, por último, os vendedores ambulantes, PREFEREM matar o povo do que brigar com o Governo. Preferem exigir que possam continuar vendendo e não vão contra o ministro da economia, o presidente da República, o presidente do Banco Central do Brasil.

Esses grupos NÃO VÃO EXIGIR BÔNUS do Banco Central, ou do Tesouro Nacional para pagar seus dias parados. Os países da Europa fizeram isso há mais de um mês. Pagaram suas empresas comerciais e prestadores de serviço para que pudessem ficar parados com lucros cessantes e pagando seus trabalhadores sem demitir. Os “empresários” brasileiros estão ao lado do vírus e ao lado da morte. Estão contra o povo. Não vão mover uma palha para defender a vida nem para defender o SUS. A FIESP (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) é um exemplo. Vai apoiar demissões e não vai exigir nada do Governo. Para eles é hora de sair do confinamento hoje mesmo. É hora de começar a contagiar mais gente e enterrar muito mais nos cemitérios. Portanto, não dá para ouvir na Globo, na BAND, na Record, no SBT e ler nos jornais que ainda são impressos que é hora de VOLTAR. Isso não é um caso de amor. É um caso de traição, de ódio, de covardia, e também de incompetência.

Os trabalhadores assalariados de indústrias e serviços não essenciais vão se queixar para quem? O Bispo não pode fechar indústria e comércio para defender a vida. O Judiciário e o Ministério Público estão divididos entre continuar favorecendo as grandes corporações financeiras e exportadores de commodities e continuar perseguindo e condenando sem provas ou – a minoria – para favorecer a democracia e o interesse do acesso à justiça para os pobres.

Os trabalhadores NÃO TÊM para quem apelar. Continuam com ameaças de cortes de telefone celular que hoje é indispensável à manutenção da sobrevivência. Continuam com contas a pagar – luz, água, eletricidade, aluguéis, juros bancários, cartão de crédito – tudo sem receber salários. O governo não decretou moratória de pagamentos de serviços familiares e de pequenas empresas.

Os militares tiveram aumento dos soldos. Não vão reclamar. Os funcionários públicos federais esperam que o ministro da economia mande esvaziar suas geladeiras. Não adianta esperar dos secretários municipais e estaduais de saúde, dos governadores e prefeitos de fora do Nordeste que salvem os trabalhadores. Os prefeitos e secretários municipais de Saúde NÃO VÃO FAZER NADA. Não fizeram quando deviam e agora disputam quem não vai fazer alguma coisa.

Onde estão os sanitaristas e epidemiologistas que misterforatemer começou a retirar dos órgãos de saúde do planejamento e da gestão do SUS? Voltaram a seus cargos de origem onde esperam lutando e trabalhando fazer algo para diminuir a chance de adoecimento e morte dos usuários do SUS.

Onde estão os sanitaristas que aderiram ao golpe de estado de 2016 no governo federal? Foram todos substituídos por militares incompetentes que NÃO VÃO FAZER NADA. Não farão por que não sabem, não têm competência, não têm a intenção de fazer nada. Estão lá para apoiar um aprofundamento do estado autoritário que os beneficia com salários extra e aumentos.

Restam os critérios epidemiológicos técnicos objetivos que deveriam ser seguidos por qualquer governo que cuidasse da vida e da saúde do povo em primeiro lugar, DEPOIS de pagar os bônus de empresas para não demitir e depois de transferir renda para os microempreendedores individuais sem a mentira de exigir documentos que eles não têm, e depois de decretar a moratória do pagamento de serviços como água, luz e telefone.

Copiamos aqui das listas internacionais de epidemiologia, saúde pública e política sanitária internacional os critérios para “sair do confinamento”.

Critério Primeiro:

As mortes por COVID-19 devem cair para zero em cada região de interesse, considerando a mesma condição em municípios vizinhos. Município nenhum sai do confinamento para aterrorizar os vizinhos. O critério não é testar laboratorialmente todos os mortos. O critério é CLÍNICO-EPIDEMIOLÓGICO. Testes não feitos ou mal feitos escondem os mortos. Na Pandemia, morte por Síndrome de Angústia Respiratória Grave É COVID-19.

Critério Segundo:

Os casos novos de COVID-19 devem cair para o nível da segunda semana após o caso zero em cada região. Assim cada caso novo permitirá rastreamento de todos seus contatos com isolamento de contatos pessoais e eventuais para testagem e isolamento. Sairíamos da fase de transmissão comunitária descontrolada para retorno à fase de transmissão por contatos rastreáveis. Não é para sair do confinamento “quando a curva cair” ou decrescer depois do pico de contágio. Curva decrescente ou conversa mole de “vou estudar se vai subir” é papo para fazer boi dormir.

Critério terceiro:

Teoricamente já temos. Devemos ter um sistema de saúde que seja capaz de ir às casas e ao trabalho das pessoas para vigilância em saúde, testar assintomáticos e doentes, investigar, confirmar, descartar e encaminhar casos para isolamento, tratar e controlar a cura. Teoricamente temos o SUS para fazer isso nos municípios em que os governadores e prefeitos não desmontaram tudo para vender para as Organizações Não Governamentais – ONGs e Organizações da Sociedade Civil de Interesse Público – OSCIPs. Também temos o SUS com Núcleos de Atenção à Saúde da Família, Centros de Saúde, UPAS e funcionários capacitados em todos os lugares onde não tenham sido criadas “Agências” falsas que na verdade são as duas primeiras coisas, como é o caso do Distrito Federal que criou sua “ADAPS” – “Agência de Desenvolvimento da Atenção Primária em Saúde” com nome de IGES – Instituto de Gestão Estratégica de Saúde. Essas “agências” ou “institutos” são um disfarce para os governadores não precisarem lutar por uma lei de responsabilidade social e deixarem a lei de responsabilidade fiscal reservar o dinheiro da saúde para pagar juros de bancos.

Critério quarto:

Em uma região de saúde com vários municípios só pode ser resolvida a entrada em confinamento e a saída com comum acordo com seus sistemas de epidemiologia. Nenhum município é uma ilha. Nenhum município joga seus doentes e seus mortos para o vizinho.

As duas primeiras condições são baseadas na hipótese de que existem testes disponíveis para testagem universal de contatos e assintomáticos. O teste em grupos colocando as secreções coletadas em cotonetes gigantes (‘swabs‘) de dez a vinte pessoas em um único tubo de ensaio para diluente e teste já é empregado na Alemanha há mais de 60 dias. Quando um tubo coletivo é positivo tracejam todo o mundo em isolamento, identificam o(s) que estiverem positivos com reteste de RT-PCR, isolam por mais vinte a trinta dias e devolvem ao trabalho os negativos com equipamentos de proteção e proteção coletiva nos trabalhos essenciais. Ou fazemos isso ou nunca sairemos da “quarentena“. Ou fazemos isso ou mataremos todos os vulneráveis como já está acontecendo em Manaus e Belém.



Comentários

  1. Em 11 de maio de 2020 às 12:11
    Benigna de Paula Nascimento disse:

    São medidas necessárias, inteligentes e realistas. Mas como executa-las se os cargos do primeiro escalão do governo não vêm as coisas por essa ótica? Num país onde os poderes estão rachados ou omissos?? Desculpe minha ignorância, mas não estou vendo saída. A voz do povo de repente teria alguma força. Mas no momento em que estamos vivendo, uma mobilização é suicídio.

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