Resultados da Vacina Coronavac: Como entender melhor?

Resultados da Vacina Coronavac: Como entender melhor?
Coronavac | Crédito: Butantan (Divulgação)

Selma Maffei de Andrade, Marselle Nobre de Carvalho e Renne Rodrigues, professores do Departamento de Saúde Coletiva da Universidade Estadual de Londrina (UEL), Paraná.

Têm circulado muitas interpretações, algumas equivocadas, sobre os resultados do estudo clínico coordenado pelo Instituto Butantan relativos à eficácia da vacina contra a Covid-19, a Coronavac.

É comum ler ou ouvir “a vacina me protegerá em torno de 50% para a COVID-19. Portanto, tenho 50% de risco de ainda ter a doença”. Essa interpretação não está correta! Esse 50% se refere à redução da incidência da doença no grupo que recebeu a vacina em comparação aos que receberam placebo.

Observe a figura a seguir. A incidência da doença nos vacinados foi de 11,74 por cem pessoas-ano, enquanto a incidência no grupo placebo de 23,64 por cem pessoas-ano1. Agora divida 11,74 por 23,64. Qual foi o resultado? Pronto! Você tem agora a incidência da doença nos vacinados, que corresponde a 49,7% da incidência do grupo placebo. Mas como os pesquisadores chegaram ao valor 50,38%?

Se subtrair 49,7% do total de 100%, você chega ao valor da redução na incidência da Covid-19, que foi 50,38%. Eventuais diferenças nas casas decimais devem-se a arredondamentos e a ajustes feitos pela pesquisa, como idade e sexo (não temos esses dados). Como interpretar o resultado? Este valor indica que os vacinados têm cerca de metade do risco de desenvolver a doença em comparação a quem não recebeu a vacina. Ou, olhando pelo outro ângulo: quem não é vacinado tem o DOBRO do risco de desenvolver a doença em comparação aos vacinados.

Outro resultado importante, foi a redução da incidência de casos que precisaram de assistência médica, em torno de 78%, demonstrado na figura a seguir.

É incorreto dizer que 22% dos vacinados que ficaram doentes terão que receber assistência médica. A interpretação aqui é idêntica à anterior: entre os vacinados, houve redução de 78% no risco de precisar de assistência médica por Covid-19 em comparação ao grupo placebo (não vacinado). Olhando de outra forma, o risco de não vacinados necessitarem dessa assistência é MAIS DO QUE O TRIPLO (3,5 vezes) em comparação aos vacinados.

Com relação aos casos graves (internação em enfermaria ou UTI), o número de eventos foi pequeno, no período do estudo, para essas comparações. Registra-se que foram sete casos, todos no grupo que não recebeu a vacina.

Com base nesses dados preliminares (a ANVISA está analisando os dados completos), a Coronavac se apresenta como uma tecnologia muito importante para a redução de casos da doença e, principalmente, da demanda aos serviços de saúde, bem como de todas as consequências benéficas desses dois possíveis resultados (menos sequelas, menos mortes, entre outras).

Vale destacar a SEGURANÇA da vacina – poucos eventos adversos e não graves, sem diferenças entre o grupo vacinado e o placebo – e a facilidade de logística para seu armazenamento e distribuição no Brasil. Aguardamos ansiosos os resultados mais detalhados após análise da ANVISA.

Finalmente, é importante destacar que, sendo liberado o uso emergencial das vacinas em análise pela ANVISA, há necessidade de que os governos, dos diferentes níveis, forneçam toda a logística para uma rápida vacinação da população, conforme os planos já divulgados, e adotar medidas que estimulem a população a se vacinar (as duas doses conforme o estudo), combatendo as chamadas fake news.

Lembramos que vacinação é estratégia coletiva e somente com adesão de praticamente toda a população à vacinação é que se poderá conseguir interromper a cadeia de transmissão do vírus. Enquanto isso não for atingido, medidas como distanciamento social, uso apropriado de máscaras, evitar ambientes sem ventilação e aglomerações, higienização, identificação de doentes e contatos e isolamento, testagem, entre outros, devem continuar a ser adotadas por todos, inclusive os vacinados e os que já tiveram a Covid-19.


1 O denominador “pessoas-ano” traduz que houve uma forma de controlar o tempo entre a exposição à vacina e a ocorrência do evento ou término do estudo.



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