Quando o direito vira mercado: os desafios do SUS em debate
Segundo número regular de 2026 reúne pesquisas e reflexões sobre desigualdades, direitos, pandemia, meio ambiente e organização do cuidado; volume 50 celebra os 50 anos da revista
No Brasil, falar de saúde é falar de direito, mas também de poder, mercado, território e desigualdade. É nesse campo de disputas que se insere a edição 149 da Saúde em Debate, segundo número regular de 2026, que reúne pesquisas e reflexões sobre alguns dos principais desafios do SUS e da saúde coletiva brasileira.
O novo número da publicação do Centro Brasileiro de Estudos de Saúde (Cebes) reúne artigos, ensaios, revisões e relatos que abordam alguns dos principais desafios contemporâneos da saúde coletiva brasileira. As relações entre o Estado, o mercado e o direito à saúde aparecem como um fio condutor, conectando debates sobre o SUS a temas como desigualdades sociais, meio ambiente, direitos humanos, pandemia, vacinação e organização dos serviços.
Essa discussão é apresentada já no editorial “O Cebes no debate das relações entre o público e o privado”, assinado pelas editoras-chefes Lenaura Lobato, Ana Maria Costa e Maria Lucia Frizon Rizzotto. O texto analisa as consequências do crescimento da participação privada no SUS e recupera os princípios democráticos e universalistas que orientaram o Movimento da Reforma Sanitária Brasileira.
“A saúde é, simultaneamente, um dos direitos mais caros inscritos na Constituição Federal de 1988 e um dos mercados mais lucrativos da economia brasileira.”
Para as autoras, essa duplicidade não é natural nem resultado do acaso. Ela expressa disputas políticas e econômicas que, ao longo das últimas décadas, permitiram ao setor privado ampliar sua presença tanto no mercado de planos de saúde quanto no interior do próprio SUS. O editorial alerta que compreender essa relação exige ultrapassar a análise técnica dos modelos assistenciais e examinar a economia política que os sustenta.
A edição amplia essa reflexão ao reunir estudos sobre a atuação dos conselhos de medicina durante a pandemia de covid-19 e as relações entre entidades médicas e o bolsonarismo. Outros trabalhos discutem os sentidos da doação de órgãos, a atenção à saúde de pessoas privadas de liberdade, a discriminação racial enfrentada por estudantes negros e as barreiras vivenciadas por pessoas LGBTQIAPN+ no acesso a serviços odontológicos.
Direitos sexuais e reprodutivos também estão em pauta. Um dos ensaios analisa os entraves à assistência ao aborto legal, destacando problemas como vazios assistenciais, falta de informação, limitações na estrutura hospitalar, objeção de consciência e formação insuficiente dos profissionais.
As relações entre saúde, território e ambiente formam outro eixo importante. A revista apresenta pesquisas sobre os impactos socioambientais provocados por empreendimentos eólicos e um ensaio que examina as contradições relacionadas à realização da COP30 na Amazônia. O texto questiona investimentos direcionados à visibilidade internacional enquanto necessidades históricas das populações locais e do SUS permanecem sem resposta adequada.
A organização e a qualidade do cuidado aparecem em trabalhos sobre atenção nutricional, vacinação contra o HPV, práticas integrativas, saúde dos homens, cuidados paliativos, atenção primária durante a pandemia, inteligência sanitária em hospitais e implantação de Unidades Básicas de Saúde Amigáveis de Adolescentes. O conjunto inclui ainda discussões sobre deficiência, letramento em saúde e dilemas éticos envolvendo nutricionistas que atuam como influenciadores digitais.
Ao reunir diferentes objetos de pesquisa, populações e territórios, a edição reafirma que a saúde não pode ser compreendida apenas como assistência médica. Ela é atravessada pelas condições de vida, pelas relações de poder, pelas escolhas econômicas e pela capacidade do Estado de garantir direitos.
No ano em que completa cinco décadas, a Saúde em Debate reafirma seu papel como espaço de produção crítica, reflexão política e defesa de um SUS universal, público, integral e comprometido com a redução das desigualdades.
Leia aqui o editorial O Cebes no debate das relações entre o público e o privado. A edição completa está disponível no novo site da revista.
Reportagem: Fernanda Regina da Cunha / Cebes
