Fiocruz homenageia cientistas cassados e reafirma compromisso com a Democracia

Solenidade estabeleceu uma ponte entre dois momentos decisivos da história brasileira: o autoritarismo e a reconstrução democrática

Presidente do Cebes, Carlos Fidelis, na mesa de abertura (foto: Peter Illiciev/Fiocruz)

Neste 5 de agosto, Dia Nacional da Saúde e aniversário de Oswaldo Cruz, a Fiocruz realizou uma homenagem que marcou os 40 anos da reintegração dos cientistas cassados pela ditadura militar. A instituição concedeu, postumamente, o título de Pesquisador Emérito a Augusto Cid de Mello Perissé, Tito Arcoverde de Albuquerque Cavalcanti, Haity Moussatché, Fernando Braga Ubatuba, Moacyr Vaz de Andrade, Hugo de Souza Lopes, Masao Goto, Sebastião José de Oliveira e Domingos Arthur Machado Filho. Herman Lent, pesquisador emérito da Fiocruz desde 2004, também foi reverenciado.

Realizada nas escadarias do Castelo Mourisco — o mesmo local onde, em 1986, durante a gestão de Sergio Arouca, os cientistas retornaram à instituição —, a solenidade estabeleceu uma ponte entre dois momentos decisivos da história brasileira. De um lado, a violência do autoritarismo, que tentou silenciar pesquisadores e interromper uma tradição científica construída ao longo de décadas. De outro, a reconstrução democrática, que restituiu direitos, recuperou a memória institucional e reafirmou que ciência e liberdade são inseparáveis.

A cerimônia reuniu pesquisadores, trabalhadores, estudantes, familiares dos homenageados e autoridades. A mesa de abertura foi composta pelo presidente da Fiocruz, Mario Moreira; pelo presidente do Centro Brasileiro de Estudos de Saúde (Cebes), Carlos Fidelis, que também integra o Sindicato das Trabalhadoras e dos Trabalhadores da Fiocruz (Asfoc-SN) e representantes da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas/OMS) e do Instituto Oswaldo Cruz.

Ary Miranda apresentou o contexto histórico da cassação e da reintegração dos cientistas, enquanto Gilberto Hochman refletiu sobre o significado do Massacre de Manguinhos para a história da ciência brasileira. A programação incluiu, ainda, a leitura da carta dos pesquisadores eméritos em memória aos cassados e o lançamento da nova impressão do livro O Massacre de Manguinhos, publicado por Herman Lent em 1978, obra que preservou a memória daquele episódio ainda durante a ditadura.

Também foram homenageados Walter Oswaldo Cruz, um dos fundadores da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC); Francisco José Rodrigues Gomes, conhecido como Chico Trombone, figura histórica dos laboratórios de Manguinhos; madre Maria de Fátima; e pessoas que, há 40 anos, contribuíram para a reintegração dos cientistas cassados.

Geração que a ditadura tentou silenciar esteve à frente da Reforma Sanitária

Ao participar da mesa de abertura, Carlos Fidelis destacou que a homenagem não dizia respeito apenas ao passado. Antes do golpe de 1964, afirmou, o Brasil vivia um dos períodos mais criativos de sua história. Ciência, cultura, educação, pensamento social e mobilização política alimentavam a convicção de que era possível construir um país capaz de superar as marcas da colonização, da escravidão, do racismo, da concentração de renda, da desigualdade e da violência. “O golpe militar interrompeu esse processo, mas não eliminou esse projeto de transformação”, avaliou Fidelis.

Citando Jairnilson Paim, Fidelis afirmou que a mesma geração que o autoritarismo tentou silenciar ajudou a construir algumas das principais conquistas democráticas do país. Criou o Centro Brasileiro de Estudos de Saúde (Cebes), impulsionou o Movimento da Reforma Sanitária Brasileira, participou da luta pela Anistia, esteve presente nas greves do ABC, contribuiu para a VIII Conferência Nacional de Saúde, mobilizou-se pelas Diretas Já, participou da Assembleia Nacional Constituinte e conquistou a inclusão do direito universal à saúde na Constituição de 1988, tornando possível a criação do Sistema Único de Saúde (SUS). Como costuma lembrar Jairnilson Paim, foi uma geração que não se entregou.

“Quarenta anos depois da reintegração dos cientistas de Manguinhos, essa história continua a dialogar com o presente. Em um contexto marcado pelo negacionismo científico, pela intolerância, pelo autoritarismo e por ataques às instituições democráticas, a homenagem promovida pela Fiocruz reafirma que a defesa da ciência é inseparável da defesa da democracia”, afirmou.

A memória do Massacre de Manguinhos recorda que a ciência floresce onde há liberdade, que a democracia se fortalece quando protege o conhecimento e que nenhum projeto nacional poderá ser inclusivo, sustentável e soberano sem investimento contínuo em educação, pesquisa, saúde e instituições públicas.

Para Fidelis, “a homenagem prestada pela Fiocruz renovou um compromisso com o futuro: a defesa da ciência, da democracia, da soberania nacional e da vida”

Porque saúde é democracia. E democracia é saúde.

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