A nova prisão são as metas: invisíveis, silenciosas, letais
Amanhã é 18 de maio — Dia Nacional da Luta Antimanicomial.
Uma data que marca a resistência contra os muros e os silêncios que, por séculos, tentaram apagar o sofrimento psíquico trancando-o atrás de grades, eletrochoques e diagnósticos desumanos.
Mas e hoje? Quais são as prisões do nosso tempo? Talvez elas não estejam mais nos hospitais isolados, mas nas metas inalcançáveis. Na exigência de sermos produtivos mesmo exaustos.
Na ideia de que só tem valor quem rende, quem entrega, quem se adapta. Camisas de força invisíveis, apertadas pelo neoliberalismo, pela lógica da performance, pela inclusão condicionada.
Fala-se muito sobre tornar o mundo mais adaptado e acolhedor para as diferenças. Mas até que ponto isso é possível dentro dessa engrenagem?
Vivemos sob o capitalismo — e aqui, valemos pelo que conseguimos produzir.
Sou neurodivergente. TEA nível 1, TDAH (laudo adulto após uma vida sem me encaixar perfeitamente nos diagnósticos possíveis).
E sei que minhas limitações não são apenas impostas de fora. Sim, o mundo não foi feito para mim — mas também não posso negar que há algo em mim que exige cuidado constante, esforço redobrado, suporte técnico e autocompreensão.
Sobrecarrego. Me confundo. Esqueço. Me desorganizo.
E tudo isso dói antes mesmo de alguém apontar. A inclusão que nos oferecem, muitas vezes, parece vir com um asterisco invisível: “seja você mesma, mas não atrase, não falhe, não canse demais.”
Mesmo quando “nos aceitam”, seguimos tentando nos provar. Nos forçando. Nos moldando.
Nos culpando por não dar conta de uma lógica que nunca foi feita para nos conter com dignidade.
Essa violência — a da exigência constante de performance — não é só uma estrutura. Ela se infiltra nos nossos pensamentos, nos nossos corpos, nas nossas crenças. Vira autocobrança, vira vergonha, vira angústia de não ser suficiente.
E o mais cruel é que essa lógica produtivista não adoece só os neurodivergentes — ela adoece a todos! Mas em nós, ela encontra um terreno mais exposto, mais vulnerável, mais culpabilizado.
E mesmo a ideia de “resistir” pode se tornar uma armadilha. Porque, quando resistir vira obrigação, performance, slogan,ela também cansa. Também oprime. Também adoece.
Não precisamos romantizar a luta para que ela exista. Nem transformar o acolhimento em utopia inalcançável. É preciso, sim, apontar para o centro do sofrimento — o capitalismo, com sua lógica que transforma corpos em máquinas e silencia o que não serve.
Mas é também necessário dizer, com firmeza: alguns de nós precisam de suporte real. De políticas públicas comprometidas com a ciência — e não com discursos vazios. De acolhimento que vá além da empatia — que se traduza em acessibilidade, acompanhamento, adaptação, cuidado técnico.
Nem tudo é superável com afeto (infelizmente). Nem toda dor é curada com aceitação.
E talvez o começo de uma outra possibilidade esteja justamente nisso: reconhecer que ser diferente não deveria significar carregar sozinho o peso de um mundo que se recusa a mudar.
Fernanda Regina – Jornalista
