Ações de emergência

O Globo – 22/04/2012

O crack espalha-se pelo país na forma de uma crescente epidemia, já admitida oficialmente como tal pelo ministro da Saúde, Alexandre Padilha. É um surto cevado pelo binômio caso de polícia/flagelo social. Na primeira ponta, quadrilhas de traficantes lucram com a desgraça de usuários, provendo-lhes o consumo com uma droga de efeitos tão imediatos quanto devastadores no organismo de quem a usa; na segunda, localizam-se os sintomas mais preocupantes de uma calamidade que, se não for contida, será potencializada por um número cada vez maior de dependentes arrastados para o drama de um vício que, quando não leva à morte, conduz quase irreversivelmente ao caminho da degradação física e moral.

Não há números definitivos para medir a dimensão da praga. Mas os que estão disponíveis, elaborados através de levantamentos segmentados do ministério e secretarias de Saúde, são suficientes para traçar um quadro estarrecedor do problema. Levantamento feito ano passado pela Confederação Nacional de Municípios (CNM) dava conta de que, de 4.400 cidades pesquisadas entre as 5.563 prefeituras do país, 63,7% delas acusavam problemas extras para seus organismos de saúde pública em decorrência do uso de crack por pacientes neles atendidos. Isso significa sobrecarga no SUS, que já é pressionado por crônicas deficiências em sua rede de assistência tradicional e, de maneira geral, não está preparado tecnicamente para atender à especificidade do usuário de uma droga cujos efeitos sobre o organismo do consumidor são distintos dos sintomas de todas as outras.

Reflexo subjacente dessa realidade é que em 58% dos municípios ouvidos a circulação do crack – e outras drogas, principalmente cocaína e oxi – tem aumentado as demandas na área de segurança, ao passo que se registrou um índice de 44% de cidades cujos órgãos de assistência social estão sobrecarregados de atendimentos a viciados. Ainda no terreno da violência decorrente do tráfico que drena o crack para as pontas de consumo, em julho do ano passado O GLOBO denunciava que o aumento do consumo dessa substância no país estava diretamente ligado ao crescimento dos indicadores de homicídios, principalmente de jovens entre 15 e 24 anos – não por acaso, a faixa etária em que são mais agudos os reflexos do flagelo.

Pesquisadores de causas da criminalidade são praticamente unânimes em afirmar que a parcela mais considerável da violência nas grandes cidades está ligada ao consumo de crack. Mas o viés policial, ao menos a curto prazo, talvez não seja o principal ponto da questão, embora não se deva relaxar com os procedimentos na área de prevenção – combate ao tráfico, punição exemplar dos criminosos envolvidos com a venda da droga e incremento da fiscalização para inibir a circulação da substância. O drama dos dependentes deve estar, neste momento, em primeiro lugar na lista de soluções a serem buscadas pelo poder público, com ações emergenciais de redução de danos. Entre estas, a assistência direta a viciados, da qual é inescapável a internação compulsória de dependentes crônicos, notadamente aqueles recolhidos nas ruas, em áreas conhecidas como cracolândias.

São Paulo e, mais recentemente, o Rio já adotam programas semelhantes de recolhimento de usuários cujo vício atingiu o caminho da irreversibilidade – portanto, num estágio em que a próxima tragada pode ser a derradeira no caminho da morte, se nada for feito para se não lhes restituir a saúde integral, ao menos lhes dar a chance de recomeçar a vida.