Adeus a Clara Charf: um século de coragem, ternura e resistência

Referência da luta feminista e dos direitos humanos, Clara Charf morreu aos 100 anos, em São Paulo. Sua história se confunde com a própria trajetória das lutas sociais brasileiras

A militância histórica da esquerda brasileira perdeu hoje (segunda-feira, 3), Clara Charf. Clara nos deixa na véspera do dia em que o Brasil recorda o assassinato de Carlos Marighella, seu companheiro de vida e de luta, assassinado em 4 de novembro de 1969 pela ditadura militar. 

Sua partida encerra um século de coragem, resistência e compromisso inabalável com a democracia, a liberdade e os direitos humanos.

Clara Charf morreu de causas naturais, em São Paulo, aos 100 anos de idade. O comunicado foi feito pela Associação Mulheres pela Paz, organização da qual foi uma das fundadoras e que divulgou nota:

“Clara foi grande. Foi do tamanho dos seus 100 anos. Difícil dizer que ela apagou. Porque uma vida com tamanha luminosidade fica gravada em todas e todos que tiveram o enorme privilégio de aprender com ela. Vá em paz, querida guerreira.”

Nascida em 1925, filha de imigrantes judeus russos, Clara iniciou sua militância ainda jovem, integrando o Partido Comunista Brasileiro (PCB) no pós-guerra. Viveu o exílio, a perseguição e a dor imposta pelos anos de chumbo. Com a anistia, retornou ao Brasil e permaneceu ativa na defesa dos direitos humanos, na luta feminista e nas causas populares.

A médica sanitarista Ana Costa, diretora do Centro Brasileiro de Estudos de Saúde (Cebes), que conviveu com Clara na militância feminista dos anos 1980 relembrou a vivência. “Foram muitas reuniões e eventos de mulheres com a presença forte de Clara, não apenas nos inspirando com sua coragem revolucionária, mas também com sua delicadeza e afeto. O Brasil perde parte de sua história viva, mas Clara se inscreve na História nacional como uma das gigantes das lutas.”

A trajetória de Clara Charf confunde-se com a própria história das lutas sociais brasileiras. Sua voz foi presença constante nas mobilizações por democracia, igualdade de gênero e justiça social.
Na luta feminista, foi ponte entre gerações; na luta política, símbolo de dignidade e coerência.

O Cebes presta sua homenagem à mulher que fez da vida um ato de coragem e ternura. Clara segue viva na memória coletiva das que lutam, e das que sonham, por um Brasil mais justo, solidário e democrático.

Clara, Charf, presente!

Reportagem: Fernanda Regina da Cunha/Cebes