Agente Secreto no Oscar: quando o cinema brasileiro vira memória viva esoberania em disputa

A indicação do filme Agente Secreto em quatro categorias do Oscar é, antes de
tudo, uma vitória do cinema brasileiro. Mas reduzir esse marco a uma
celebração estética — como se fosse apenas um prêmio ou uma vitrine
internacional — seria ignorar a dimensão política que atravessa o audiovisual
no Brasil. O que está em jogo não é só o reconhecimento de uma obra. É a
disputa sobre quem tem o direito de narrar o país, de produzir memória e de
afirmar a própria existência diante do mundo.
O cinema é uma linguagem que registra mais do que acontecimentos. Ele
registra climas históricos, dilemas coletivos, silêncios forçados e conflitos que
atravessam a vida social. Em um país onde a história é constantemente
reescrita por interesses de poder — e onde a violência institucional tantas
vezes tenta se impor como normalidade — o audiovisual se torna ferramenta
de resistência. Ele não apenas reproduz o ditado “a arte imita a vida”: ele a
interpreta, confronta, e expõe, devolvendo à sociedade a realidade como uma
pergunta incômoda.
É nesse sentido que o enredo de Agente Secreto se conecta com a ideia de
memória viva. Memória viva não é nostalgia. Não é arquivo congelado. É
memória como campo de luta: aquilo que se mantém ativo porque ainda produz
efeitos, ainda organiza relações, ainda define quem pode falar, quem pode
existir, quem é reconhecido como sujeito de direitos. Filmes como esse, ou
como Ainda Estou Aqui, operam como uma espécie de vacina simbólica contra
o apagamento — e contra a anestesia moral que a repetição das violências
tenta produzir.
Num mundo saturado de imagens, o audiovisual segue sendo uma das formas
mais poderosas de disputa cultural. E disputa cultural não é algo periférico. É
central. Porque a cultura molda o que consideramos aceitável, possível,
tolerável, justo ou inevitável. Um filme pode alterar sensibilidades. Pode revelar
contradições. Pode criar repertório crítico. Pode, inclusive, reorganizar a forma
como uma geração inteira enxerga o país e sua própria história.
Por isso, a indicação de Agente Secreto acontece em um momento histórico
em que o Brasil vive uma tensão permanente entre dois movimentos: de um
lado, a reconstrução democrática e a reafirmação de direitos; de outro, a
persistência de projetos autoritários, negacionistas e violentos, que tentam
enfraquecer a vida pública e desorganizar a capacidade coletiva de pensar o
futuro.
Nesse contexto, o cinema não é entretenimento neutro. Ele é posicionamento
político e social — mesmo quando não se apresenta como panfleto. Porque
toda escolha narrativa é uma escolha de mundo: o que se mostra, o que se

omite, o que se humaniza, o que se desumaniza. E no Brasil, onde a
desigualdade e a violência são estruturalmente naturalizadas, contar histórias é
também disputar quais vidas importam.
A presença do filme no Oscar tem ainda outra camada, talvez uma das mais
urgentes: ela toca na questão da soberania brasileira. Soberania não se limita
a fronteiras territoriais, forças armadas ou balança comercial. Há uma
soberania cultural, simbólica e narrativa que é igualmente decisiva. Um país
que não se reconhece como produtor de cultura e pensamento torna-se
dependente de narrativas importadas — e, com elas, de valores e visões de
mundo que frequentemente reforçam hierarquias globais.
E é aqui que entra o tema incômodo, mas necessário: o viralatismo. Ele não é
apenas um traço de comportamento individual. É uma política cultural informal,
uma mentalidade histórica construída por séculos de colonização, racismo
estrutural e subordinação econômica. O viralatismo aparece quando o Brasil só
acredita em si mesmo depois de ser carimbado por fora. Quando o que é nosso
só ganha valor após validação externa. Quando a produção nacional é tratada
como “menor” por princípio, e o estrangeiro como “superior” por reflexo.
A indicação de Agente Secreto e a vitória de Ainda Estou Aqui – Oscar de 2025
– rompe essa lógica não por depender do reconhecimento internacional, mas
por evidenciar o absurdo do mecanismo: o Brasil sempre teve cinema potente,
inventivo e crítico — o que faltou, por muito tempo, foi investimento público
consistente, distribuição democrática, políticas de fomento estáveis e uma
estrutura cultural que tratasse o audiovisual como direito e estratégia nacional,
e não como luxo ou ornamento.
Os impactos dessas indicações são reais. Elas movimentam o setor, abrem
portas, ampliam circulação, atraem público e reforçam a percepção de que o
audiovisual brasileiro é uma das grandes ferramentas de expressão política do
país. Não podemos transformar esse marco em um evento isolado, um pico de
euforia, temos que enfrentar o que impede que esse reconhecimento seja regra
e não exceção.
Porque cinema não se sustenta com aplauso. Cinema se sustenta com política
pública. Com financiamento, formação, rede de salas, distribuição, proteção
contra monopólios e democratização do acesso. Sustenta-se com
trabalhadores valorizados, com diversidade de vozes, com territórios
produzindo imagem e narrativa. Sustenta-se com liberdade de criação e com
democracia.
O Brasil precisa compreender, de uma vez por todas, que cultura não é
adereço. Cultura é infraestrutura de cidadania. É também saúde coletiva —
porque influencia subjetividades, produz pertencimento, fortalece laços sociais

e pode ser antídoto contra a barbárie. Um país sem memória, sem imaginação
e sem arte é um país mais vulnerável ao autoritarismo.
Celebrar Agente Secreto é celebrar o cinema brasileiro. Mas é também
reconhecer o que ele representa: uma linguagem de memória viva, uma forma
de disputar o país, um gesto de soberania. Num tempo em que tentam nos
convencer de que pensar é perigoso, lembrar é exagero e criticar é
“polarização”, o audiovisual segue lembrando uma verdade simples: não existe
democracia sem narrativa, sem cultura e sem imaginação política.
E talvez seja por isso que, quando um filme brasileiro atravessa o mundo, não
é apenas o Brasil que aparece na tela. É a possibilidade de que o país se
enxergue — e se afirme — sem pedir licença.

 

Matéria: Joana Trotta/Cebes