América Latina em disputa: quem governa os sentidos do futuro?
Na Conferência Mário Testa, da ALAMES 2025, Rebecca Igreja e José Dirceu apontam os desafios de um projeto político emancipador frente ao avanço das direitas e ao esvaziamento do Estado
“Não basta resolver só a economia. É preciso criar novos sentidos de pertencimento”. A frase da antropóloga Rebecca Igreja sintetizou a densidade crítica da Conferência Mário Testa: Democracia, justiça social e desenvolvimento, realizada na quinta-feira, 7 de agosto, durante o quarto dia do XVIII Congresso da Associação Latino-Americana de Medicina Social e Saúde Coletiva – ALAMES. A mesa teve coordenação da reitora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ, Gulnar Azevedo e contou com as participações de Rebeca, secretária-geral da FLACSO, e do ex-ministro José Dirceu.
Rebecca propôs um mergulho geopolítico e histórico sobre as transformações que impactaram a democracia, os direitos e a organização dos Estados nacionais desde os anos 1990. Com base em sua trajetória acadêmica por diversos países e em estudos sobre racismo, extremismo e justiça social, traçou o que chamou de “geopolítica da diversidade”: uma tentativa do Ocidente de reorganizar o mundo a partir do controle simbólico das diferenças.
Segundo ela, o esvaziamento das políticas universais pelas políticas focalizadas — muitas vezes “etnicizadas” — foi um mecanismo central do neoliberalismo para conter a potência dos movimentos sociais. “A diversidade passou a ser gerida. As mesmas pautas que emergiram da resistência foram absorvidas por empresas, organismos multilaterais e até pela extrema direita, que agora se apropria de termos como identidade, tradição e autonomia para promover a intolerância”.
Rebecca alertou ainda para o risco de uma esquerda incapaz de oferecer um projeto estrutural de país que incorpore, de forma concreta, as experiências e os saberes dos povos indígenas, negros e das lutas de gênero. “Não podemos mais pensar um Estado que apenas anexe essas pautas. Precisamos desenhar outro Estado, plural, enraizado em experiências históricas de resistência e capaz de disputar sentidos com a extrema direita”.
Já o ex-ministro José Dirceu resgatou a trajetória da classe trabalhadora no Brasil e sua luta pela redemocratização e pelos direitos sociais inscritos na Constituição de 1988. Em sua fala, abordou os riscos atuais à democracia e à soberania diante da ofensiva neoliberal, da concentração de renda e da influência externa nas decisões nacionais. “O que está em jogo é o próprio projeto de país”, afirmou, destacando a importância de disputar o poder nas redes sociais e fortalecer o Estado nacional como instrumento de desenvolvimento, proteção social e emancipação.
Após as falas, o público participou com perguntas que ampliaram o debate para temas como a integração latino-americana, a democratização da mídia e o enfrentamento das big techs. A conferência reafirmou a urgência de um novo pacto social que una democracia, justiça social e soberania, com base em um horizonte coletivo e plural.
Texto: Fernanda Regina da Cunha/Cebes
Fotos: Bete Bullara






