Apagão nas redes, fake news e democracia em risco

O sumiço de perfis de esquerda e a indústria de desinformação em saúde revelam um ambiente digital capturado por interesses privados e hostil à esfera pública.

Na madrugada desta quarta-feira, 10 de dezembro, milhares de usuários perceberam que perfis de lideranças políticas e páginas de esquerda simplesmente deixaram de aparecer nas buscas do Instagram. Entre elas a conta oficial do presidente Lula. O episódio, rapidamente percebido como um “apagão seletivo” em pleno aquecimento para as eleições de 2026, acendeu um alerta: quem controla, na prática, a visibilidade do debate público nas redes sociais?

Na mesma madrugada, a Câmara dos Deputados aprovou o chamado PL da dosimetria, que reduz as penas dos condenados pelos atos golpistas de 8 de janeiro de 2023 e pela tentativa de golpe de Estado, incluindo o ex-presidente Jair Bolsonaro.Horas antes, o próprio plenário já era palco de um outro sintoma de deterioração democrática: a Polícia Legislativa foi acionada pelo presidente da Casa, Hugo Motta, para retirar à força o deputado Glauber Braga da presidência da Mesa, fechar o acesso ao plenário e impedir a atuação da imprensa. A TV Câmara teve o sinal cortado durante o tumulto, jornalistas foram expulsos e relataram empurrões e agressões enquanto a sessão era suspensa.

Em nota pública, o Partido dos Trabalhadores (PT) denunciou o sumiço de perfis de dirigentes, parlamentares e da própria página oficial do partido, cobrando explicações da Meta. A empresa atribuiu o caso a uma falha técnica no sistema de busca, alegadamente afetando perfis de diferentes espectros políticos. Mas o contexto importa, pois não é a primeira vez que surgem indícios de que as plataformas favorecem conteúdos da extrema direita e restringem a visibilidade de vozes progressistas.Agora isso ocorre numa conjuntura pré-eleitoral em que a disputa de narrativas passa, cada vez mais, por ferramentas opacas de recomendação algorítmica.

Ao mesmo tempo, a própria Meta acelera um projeto global que aprofunda ainda mais o poder privado sobre o espaço público digital. Em comunicados recentes, a empresa anunciou que passará a personalizar recomendações de conteúdo e anúncios com base nas interações das pessoas com seus recursos de IA generativa, inclusive chats com assistentes virtuais nas plataformas.

A mudança, que entra em vigor em dezembro de 2025, transforma cada conversa em dado para segmentar publicidade e organizar o que aparece – ou deixa de aparecer – no feed dos usuários. Paralelamente, reportagens mostram que a Meta trabalha para automatizar quase completamente a criação e o direcionamento de anúncios com ferramentas de inteligência artificial até 2026, reduzindo a intervenção humana e ampliando a dependência de algoritmos proprietários nas campanhas políticas e comerciais.

Desinformação como risco à saúde e à democracia – Esse cenário, em que megacorporações digitais controlam, por código, quem fala e quem é visto, tem sido descrito por alguns autores como uma forma de “tecno-feudalismo”. O que serria uma economia e uma esfera pública capturadas por poucos “senhores de plataforma”, que extraem dados, renda e poder político de milhões de usuários-“servos”, sem transparência nem controle democrático. Ao lado disso, um Legislativo que, em votações noturnas e aceleradas, rebaixa as consequências jurídicas de uma tentativa de golpe de Estado, completa o quadro de erosão democrática.

O estudo recente “Desinformação sobre Autismo na América Latina e no Caribe”, realizado pelo laboratório DesinfoPop/FGV em parceria com a Autistas Brasil, ajuda a enxergar como esse sistema funciona na prática. Os pesquisadores mapearam 150 falsas causas e 150 falsas “curas” do Transtorno do Espectro Autista (TEA) em comunidades conspiracionistas no Telegram, inseridas em uma rede de cerca de 60 milhões de conteúdos, 5,4 milhões de usuários e 1.600 grupos e canais em quase 20 países da região.

Entre 2015 e 2025, foram identificadas 47.261 publicações desinformativas sobre autismo, gerando mais de 100 mil interações. O volume de conteúdos enganosos cresceu 15.000% nesse período, com um salto de 635% apenas durante a pandemia de Covid-19.

Quase metade (48%) dessas publicações vem do Brasil, que aparece como protagonista regional da desinformação sobre autismo em comunidades conspiratórias.

Nesse universo, tudo vira “causa” ou “cura milagrosa”: de parasitas intestinais, “deficiência de serotonina”, alumínio, 5G, Wi-Fi, “chemtrails” e vacinas até supostos tratamentos com dióxido de cloro (MMS/CDS), ozonioterapia, “eletrochoque de Tesla”, prata coloidal, azul de metileno e uma lista interminável de suplementos e procedimentos arriscados, vendidos como promessa de normalização.

Infelizmente não são apenas boatos inofensivos. O relatório mostra que essas falsas “curas” compõem um verdadeiro modelo de negócio baseado na monetização do desespero das famílias, com impactos concretos na saúde de crianças e adultos autistas.

E tudo isso circula e ganha escala justamente nas mesmas plataformas digitais que hoje concentram a capacidade de definir quem aparece na busca, o que é impulsionado por algoritmos de recomendação, quais anúncios chegam a quais públicos e quais vozes são “despriorizadas” sem qualquer controle social.

Quando somamos:

  • um sistema de plataformas privadas com poder para acender e apagar perfis, moldar o alcance de conteúdos e extrair dados de cada interação;
  • um Legislativo que, na madrugada, reescreve as consequências de uma tentativa de golpe;
  • e um ecossistema de desinformação sobre saúde que transforma a vida de pessoas autistas em mercadoria conspiratória,

vemos que o problema não é apenas “fake news”, mas a arquitetura de poder que organiza hoje a informação, a renda e a própria experiência política. É nesse cruzamento entre tecno-feudalismo, desinformação em saúde e ofensiva autoritária que se desenha o tabuleiro das eleições de 2026. E é aí que a saúde coletiva e a reforma democrática da comunicação digital precisam entrar, com urgência, no centro do debate.

Reportagem: Fernanda Regina da Cunha/ Cebes