Homenagem a David Capistrano Filho marca os 50 anos do Cebes
Evento realizado no Ipub/UFRJ reuniu familiares, amigos, pesquisadores e militantes da Reforma Sanitária Brasileira e marcou o lançamento da 2ª edição ampliada de Da saúde e das cidades
Dentro das comemorações pelos 50 anos do Centro Brasileiro de Estudos de Saúde (Cebes), uma das maiores vozes do movimento sanitário brasileiro, David Capistrano Filho, recebeu homenagem nesta terça-feira, 5 de maio. O evento, realizado no Instituto de Psiquiatria da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Ipub/UFRJ), reuniu amigos, familiares, pesquisadores, sanitaristas e militantes da luta pelo direito universal à saúde.
A atividade também marcou o lançamento da 2ª edição ampliada do livro Da saúde e das cidades, obra que reúne textos e reflexões de David Capistrano e recoloca em circulação parte de sua contribuição para a construção do Sistema Único de Saúde (SUS), para a Reforma Sanitária Brasileira e para a defesa da democracia.
A atualidade do pensamento de David Capistrano
A mesa de abertura, intitulada “A atualidade do pensamento de David Capistrano”, contou com a participação do professor Pedro Gabriel Godinho Delgado, diretor do Ipub/UFRJ; de Carlos Fidelis, presidente do Cebes; de José Gomes Temporão, ex-ministro da Saúde e ex-presidente do Cebes; e de Paulo Amarante, pesquisador da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (Ensp/Fiocruz) e referência na luta antimanicomial.
Pedro Gabriel destacou a importância de Capistrano para o campo da saúde mental brasileira, especialmente por sua atuação em Santos (SP), onde conduziu, em 1989, o processo de fechamento da Casa de Saúde Anchieta, considerado um dos marcos da Reforma Psiquiátrica no Brasil. “Ele foi um dos profissionais mais importantes para a atenção primária, para o campo da saúde pública e da saúde mental. Para nós é uma alegria fazer essa homenagem”.
Carlos Fidelis ressaltou o simbolismo da homenagem no ano em que o Cebes completa cinco décadas de existência. Em sua fala, afirmou que o encontro não se limitava a um ato solene, mas expressava afeto, memória e compromisso político. “Considero esse momento muito importante pela magnitude de David e pelas pessoas aqui envolvidas. Ele foi um gigante da luta pelo direito universal à saúde e por uma vida digna para todos”, comentou.
José Gomes Temporão recuperou a recusa de David em separar saúde e projeto de sociedade. Segundo o ex-ministro, David nunca tratou a saúde como um tema apenas técnico ou administrativo, mas como parte de uma questão mais ampla, ligada à democracia, à justiça social e à transformação da sociedade. Temporão também destacou sua capacidade de articular formulação estratégica e ação concreta na gestão pública.
Paulo Amarante relacionou a trajetória de David à criação do Cebes, à crítica ao modelo psiquiátrico brasileiro e à construção da luta antimanicomial no país. Ele lembrou sua aproximação com a entidade a partir de 1976, quando o núcleo do Rio de Janeiro começava a se organizar, e destacou o papel do Cebes na formulação de uma nova agenda para a saúde pública brasileira. “Foi fundamental a criação do Cebes. Eu acho que é um marco histórico neste país”, afirmou. Para Amarante, o documento A questão democrática na área da saúde, apresentado em 1979, já trazia bases fundamentais do SUS, como universalidade, participação social, democratização e equidade.
Memórias sobre David
O evento também abriu espaço para lembranças pessoais e políticas de quem conviveu com David Capistrano Filho. Participaram desse momento Emílio Mira y López, Sérgio Gomes, Maria Carolina Capistrano, irmã de David, José Ruben de Alcântara Bonfim e Reinaldo Guimarães.
Em sua fala, Emílio Mira y López destacou o afeto que segue mobilizando amigos e companheiros de militância de David, mesmo décadas após sua morte. Ele lembrou a relação entre David, Sérgio Gomes e a origem do Cebes, situando a entidade como parte de uma geração profundamente marcada pela luta democrática, pela resistência à ditadura e pela defesa de um projeto público e social para a saúde.
As memórias compartilhadas também recuperaram a dimensão familiar e histórica da trajetória de David, filho de David Capistrano da Costa, militante comunista morto pela ditadura militar. Ao longo das falas, a homenagem evidenciou que sua atuação política não pode ser separada de uma história mais ampla de resistência, compromisso público e defesa da democracia.
Mais do que uma celebração biográfica, o encontro reafirmou David como uma presença viva na memória do movimento sanitário. Sua trajetória segue convocando novas gerações a pensar a saúde como direito, como política pública e como parte de um projeto de sociedade.
Lançamento de Da saúde e das cidades
A homenagem também marcou o lançamento da 2ª edição ampliada de Da saúde e das cidades, publicação que reúne textos de David Capistrano Filho e permite revisitar a força de seu pensamento sobre saúde, gestão pública, democracia e vida urbana.
Ao recolocar a obra em circulação no ano em que o Cebes celebra seus 50 anos, o lançamento reforça a atualidade de uma formulação que compreendia a cidade como espaço decisivo para a construção do SUS. Em David, saúde pública, território, participação social e justiça social aparecem como dimensões inseparáveis.
Reportagem: Fernanda Regina da Cunha / Cebes



