Consciência Negra 2025: dados expõem desigualdades e revelam a urgência de políticas antirracistas na saúde
Indicadores recentes mostram maior mortalidade evitável, maior vulnerabilidade social e acesso desigual ao cuidado para pessoas negras no Brasil. O desafio é estrutural.
O Brasil chega a mais um 20 de novembro, agora reconhecido como feriado nacional, carregando a memória de Zumbi dos Palmares e o peso de uma história que segue aberta. A conquista simbólica do feriado é importante, mas não encobre a realidade: o racismo continua estruturando desigualdades, violências e mortes evitáveis no país.
Os dados mais recentes revelam o que o cotidiano já denuncia. A Síntese de Indicadores Sociais do IBGE (2024) mostra que pessoas pretas e pardas seguem entre as mais afetadas pela insegurança alimentar, pela falta de moradia adequada, pela precarização do trabalho e pela baixa renda. Portanto, condições que moldam, de forma decisiva, o processo saúde-doença.
Na saúde, o impacto é devastador. A mortalidade por causas evitáveis é 41% maior entre homens negros e 43% maior entre mulheres negras (Observatório das Desigualdades, 2024). A Fiocruz (2024) aponta que eliminar as desigualdades raciais poderia reduzir em mais de 60% as mortes neonatais entre crianças negras. E o novo painel do Ministério da Saúde (2025) indica que mais de 50% dos casos de hepatite B atingem pessoas pretas e pardas.
Para o enfermeiro sanitarista e diretor Centro Brasileiro de Estudos de Saúde (Cebes), Itamar Lages, a a luta antirracista na saúde é a luta pela afirmação da humanidade que o Brasil historicamente negou.“A chacina no Rio reaviva, para grande parte do nosso povo, a ideia cruel de que pessoas negras podem ser mortas porque não são reconhecidas como humanas.”
Essa desumanização, profundamente arraigada, não se dissolve com boas intenções: exige disputa institucional. Exige reforma das práticas do Estado, do modelo de cuidado, da aplicação das políticas sociais e da própria democracia. Exige enfrentar o que sustenta a desigualdade: um sistema econômico que só funciona porque é racialmente excludente.
“Neste 20 de novembro, eu pessoalmente, como uma pessoa que trabalha e luta junto com a população quilombola, quero ver o Conselho Nacional de Saúde (CNS) dizer que irá rever sua posição e colocar na pauta de sua votação, a Política Nacional de Saúde da População Quilombola,” destaca Itamar.
Enfrentar o racismo estrutural ainda é um desafio que precisa ser enfrentado pela sociedade. Não há equidade sem nomear e transformar a estrutura que produz desigualdade. E não haverá democracia enquanto o Estado seguir permitindo — ou praticando — a morte de pessoas negras.
Reportagem: Fernanda Regina da Cunha/Cebes

