Da roça às favelas, mulheres marcham pela vida e agroecologia
Cebes caminhou junto com as mulheres na 17ª edição da marcha, que traz para o centro do debate a transição energética

Agroecologia é Saúde e Democracia. O Centro Brasileiro de Estudos de Saúde (Cebes) se uniu hoje, 12/3, à 17ª Marcha pela Vida das Mulheres e Agroecologia, em Remígio, na Paraíba. A mobilização reúne mais de 5 mil mulheres do agreste, sertão e de todo o Brasil.
As mulheres da agroecologia se somam à luta pelo fim do feminicídio, da jornada 6×1, e colocam no centro das discussões a participação social em políticas públicas e a transição energética. O movimento defende o território contra “falsas soluções” climáticas, e exige consulta às comunidades afetadas pelos grandes parques eólicos, que impactam diretamente os agricultores.
Tradição da luta feminista na Borborema, a 17ª edição da marcha teve como tema “Mulheres em defesa da Borborema Agroecológica, contra as falsas soluções para o clima”. A marcha reivindica a proteção dos territórios agroecológicos e defende a soberania energética das comunidades. Uma vitória política do movimento é lançamento, neste mês de maio, do programa 1 milhão de tetos solares (P1MTS), da Articulação do Semiárido Brasileiro (ASA) e Fundação Banco do Brasil.
Presente na marcha, o presidente do Cebes, Carlos Fidelis, destaca a centralidade da agroecologia para a saúde e segurança alimentar, e a importância da articulação dos territórios.
Diversidade de mulheres
A socióloga Dália Romero organizou rodas de conversa, representando o núcleo Saúde, Envelhecimento e Sociedade do Cebes. Aos 64 anos, Dália ressalta a importância de dar visibilidade à diversidade das mulheres do campo e à luta por dignidade ao longo da vida e do envelhecimento. “Sou pesquisadora, mas sou também mulher idosa”, reafirma.
A agente comunitária de Saúde Marinalva, representante de comunidade tradicional quilombola de Santa Luzia/PB, relatou um impacto muito positivo da agroecologia na longevidade em seu território, em conversa com Dália. “Na minha comunidade os idosos vivem muito mais; se vem para a cidade, adoecem”, afirma.
Mas foi luta pelo fim da violência contra mulheres sua principal motivação para ir à marcha. “Eu tive uma curiosidade muito grande de vir conhecer esse espaço e lutar pelos nossos direitos, contra a violência, o feminicídio. Uma representante da nossa comunidade foi queimada viva e até hoje o homem está aí solto”, conta Marinalva.
Agroecologia nas periferias
As mulheres da agroecologia não estão apenas no campo. Nas grandes cidades, sobretudo nas periferias, a agricultura está presente, impulsionada pela urgência da fome. “A agroecologia pulsa no meu território, até porque há muitas mães, muitas pessoas com fome, conta Rosângela, do Complexo do Alemão, na Serra da Misericódia, no Rio de Janeiro.
Para Rosângela, a marcha foi “maravilhosa”. “Foi maravilhosa, e que tenha outros movimentos como esse em outros lugares, em outros estados, que é para nos fortalecer cada vez mais e que mulheres não morram. Que as mulheres sejam tratadas com respeito, para estar onde quiserem, e não obrigadas a ficarem com homem, vivendo sob pressão, e acabarem mortas”.
Ao falar de violência, o tom de Rosângela muda e logo a voz embarga, ao lembrar do massacre da Penha e do Alemão. Para as mães, o sofrimento continua. “Todos [os mortos] foram eram homens, mas quantas crianças ficaram sem pai? Quantas mães sem filho?”.
Reportagem: Clara Fagundes/Cebes













