Democracia e saúde coletiva: os invisíveis e os desafios do Brasil para as eleições 2026
O campo da saúde coletiva emerge como espaço de resistência democrática e disputa civilizatória em um país marcado pela exclusão e manipulação digital.
Como trazer a democracia e a saúde coletiva para o centro do debate no processo civilizatório? A pergunta ecoa como um desafio ético e político diante de um país que em breve entrará em mais um ciclo de disputas eleitorais com milhões de brasileiros ainda “invisíveis” Estas são pessoas sem representação política real, empurradas para as margens do debate público e, muitas vezes, cooptadas por narrativas conservadoras e de extrema-direita.
Durante o Encontro Ciência, Saúde e Participação Popular, realizado em Salvador (BA), o sanitarista Jairnilson Paim chamou atenção para a urgência de compreender essa base social, composta em sua maioria por trabalhadores pobres, precarizados e desiludidos, e reconstruir a ação política a partir do diálogo com esses sujeitos.
De acordo com Paim, a disputa que o país enfrentará em 2026 não é apenas eleitoral, mas também simbólica e ideológica: atravessa as redes, as igrejas, os territórios e os serviços públicos, inclusive o campo da saúde coletiva, nascido como projeto de emancipação social. “O andar de cima é dos poucos. O de baixo é dos muitos. E é entre esses muitos que se decide o futuro.”
Estes “muitos”, representam 90% da população: trabalhadores formais e informais, aposentados e inativos. O sanitarista trouxe os dados da ONG More in Common (2024), que mapeou as divisões políticas no Brasil. É nela que os “invisíveis” aparecem como 54% da população. Os “progressistas militantes” (esquerda tradicional) aparecem com 5%, já os “patriotas indignados” (direita conservadora), teriam 6% de representação.
Para o presidente do Centro Brasileiro de Estudos de Saúde (Cebes), Carlos Fidelis, é necessário pensar um projeto de país que inclua a parte majoritária da população. “Defender a saúde coletiva e o direito universal à vida é também disputar o imaginário social diante das narrativas autoritárias e individualistas que têm capturado os mais vulneráveis.”
Criando pontes – O Encontro Ciência, Saúde e Participação Popular que anconteceu nos dias 30 e 31 de outubro em Salvador (BA), faz parte de um projeto que reúne pesquisadores, trabalhadores do SUS e militantes de movimentos sociais para debater os desafios contemporâneos da saúde coletiva e reafirmar o compromisso histórico com a democracia e os direitos humanos.
Para a enfermeira sanitarista, Jamili Santos, do Núcleo do Cebes Bahia, o encontro foi uma oportunidade de estreitamento das articulações com importantes movimentos sociais e formação de novas parcerias. “Esse processo reforça a relevância do diálogo do núcleo com organizações parceiras em defesa do Direito à Saúde, da Democracia e da Justiça Social, tendo em vista a incidência política no território baiano.”
O projeto parte de uma parceria entre o Cebes, o Mapa Colaborativo dos Movimentos Sociais em Saúde (MapaMovSaúde) e a Cooperação Social da Fiocruz.
A urgência de reconstruir o tecido democrático
O desafio que se coloca é recompor o vínculo entre democracia e vida cotidiana. Num país em que os “muitos” seguem excluídos das decisões que os afetam, a política precisa voltar a falar a língua do povo.
Essa reconstrução passa por recuperar a confiança nas instituições e reencantar o sentido público do comum: a ideia de que saúde, educação e dignidade não são privilégios, mas direitos que sustentam o pacto civilizatório.
A saúde coletiva, nesse contexto, é também um espaço de resistência ética e política, pois reafirma que o cuidado é um ato democrático, fundado na escuta e na solidariedade.
Ao refletir sobre as eleições de 2026, Jairnilson Paim alertou para o que está em jogo:
- o avanço do ativismo digital e a manipulação das redes sociais;
- a crescente atuação política de igrejas e lideranças religiosas;
- coalizões parlamentares sustentadas por emendas e interesses locais;
- e a permanência da questão militar como componente ideológico.
Esses fatores evidenciam que a disputa política brasileira ultrapassa as urnas. Ela se trava no campo simbólico, moral e cultural, onde o projeto democrático precisa ser continuamente reinventado.
Das redes ao tecno-feudalismo: o novo campo de disputa democrática
Entre os principais desafios contemporâneos para a democracia está o ativismo digital, e o seu contraponto: a manipulação das redes sociais através das grandes corporações tecnológicas.
A política migrou dos espaços públicos tradicionais para o território digital. Um ambiente regido por algoritmos e plataformas que definem o que vemos, pensamos e sentimos. Esse novo cenário, o chamado tecno-feudalismo, termo descrito pelo economista e ex-ministro da Grécia, Yanis Varoufakis. É um sistema em que o poder econômico e político se concentra nas mãos de poucas empresas. São elas que controlam os fluxos de informação, dados e visibilidade.
Ele descreve o fenômeno como a transição de um capitalismo de mercado para um capitalismo de plataformas. Neste sistema, as grandes empresas digitais cobram pedágio sobre cada interação social, da compra de produtos à troca de mensagens. Assim como os senhores feudais controlavam a terra, as big techs controlam o território simbólico da comunicação.
Como combater a manipulação por meio das IAs?
As novas tecnologias de Inteligência Artificial (IAs) estão cada vez mais capazes de criar e manipular imagens, vídeos e vozes com alto grau de realismo. Este fenômeno que amplia o risco de manipulação política e desinformação em massa, especialmente em períodos eleitorais.
No contexto das eleições de 2026, essa capacidade técnica se converte em uma ameaça concreta à democracia. A fabricação do falso para disputar, em condições desiguais, o próprio estatuto do real.
O debate sobre os limites éticos e jurídicos dessas tecnologias ganha força em países como a Dinamarca. O governo dinamarquês apresentou uma proposta inédita de lei de direitos autorais sobre o corpo e a voz.
A iniciativa garante a cada cidadão propriedade legal sobre a sua imagem, rosto e timbre. O que impede o uso dessas características por empresas ou sistemas de inteligência artificial sem autorização explícita.
O enfermeiro sanitarista e diretor do Cebes, Itamar Lages, observa que, ao voltar-se para a proteção do indivíduo, a lei dinamarquesa reafirma os princípios da modernidade frente ao avanço das big techs. “A lei afirma sua vocação liberal. Ou melhor, seu enraizamento na modernidade, contra o movimento tecno-feudal das big techs, devidamente autorizado pelas práticas políticas autoritárias que sustentam o totalitarismo neoliberal.”
Essa reflexão amplia o horizonte da saúde coletiva e da democracia: em um mundo em que o rosto e a voz podem ser fabricados. Portanto, defender o humano é também defender o direito de existir autenticamente no espaço público.
Nas palavras do presidente do Cebes, Carlos Fidelis: “A saúde, no sentido que o Cebes confere ao termo, não é apenas a ausência de doenças. Saúde é um empreendimento coletivo situado no âmbito do bem comum. A saúde participa dessas duas noções que devemos reafirmar: o coletivo e o bem comum.”
Reportagem: Fernanda Regina da Cunha/Cebes
