Doentes tipo exportação
O Globo – 20/8/12
Baixada responde por quase a metade dos pacientes internados fora de suas cidades
Já se passaram mais de três meses desde que Regina Célia Nogueira, de 65 anos, moradora de Belford Roxo, na Baixada Fluminense, chegou ao Hospital Souza Aguiar, no Centro do Rio, pela emergência da unidade. O agravamento de um quadro de diabetes fez com que ela precisasse de uma cirurgia vascular. O longo tempo de espera para voltar para casa após o procedimento é explicado por sua acompanhante, Vanessa Carolina da Silva Félix:
– Perto de casa não tem um lugar onde ela possa fazer os curativos. Aí, precisa ficar internada aqui, porque os filhos não teriam condições de trazê-la para o Rio todos os dias.
O caso demonstra um problema crônico: a falta de estrutura de atendimento na Região Metropolitana do Rio. Um cruzamento de dados feito pelo GLOBO no banco do Sistema Único de Saúde (SUS) revela que, no ano passado, os 12 municípios que compõem o Consórcio Intermunicipal de Saúde da Baixada Fluminense – Belford Roxo, Duque de Caxias, Itaguaí, Japeri, Magé, Mesquita, Nilópolis, Nova Iguaçu, Paracambi, Queimados, São João de Meriti e Seropédica – mandaram para serem internados em outras cidades 31.687 pacientes. O número corresponde a 45% de todos os doentes atendidos fora de seus municípios de origem.
Nova Iguaçu desloca 33 pacientes por dia
A lista dos que mais exportam pacientes foi encabeçada, em 2011, por Nova Iguaçu, que mandou nada menos do que 12.207 doentes para serem internados em outros municípios, uma média de 33 por dia. Mas um dos casos que chamam mais a atenção é o de Mesquita: apesar de ser uma cidade de porte médio, com 190 mil habitantes, o único hospital que havia por lá, o Leonel de Moura Brizola, fechou há cerca de um ano. A fachada, com janelas quebradas, demonstra o abandono da unidade. Resultado: no ano passado, nenhum paciente foi internado. E 3.034 foram mandados para outras cidades.
Pequenos, os outros oito municípios do estado que não internaram ninguém em 2011 (Macuco, Carapebus, Comendador Levy Gasparian, São José de Ubá, Sapucaia, Iguaba Grande, Cardoso Moreira e Paty do Alferes) nem chegam perto de ter, juntos, a mesma população de Mesquita. Somam cerca de 113 mil habitantes.
Em nota, a prefeitura de Mesquita usou a falta de recursos como o principal motivo para o fechamento do hospital da cidade: “O município não estava recebendo repasse da União e nem do estado, e não tinha condições de custear a manutenção”. Outra justificativa foi “a demissão em massa dos médicos para buscar empregos nas UPAs (Unidades de Pronto Atendimento)”, já que “Mesquita pagava R$ 5 mil mensais, enquanto o estado paga mais do que o dobro”.
Atualmente, a principal referência em Mesquita é a Unidade Municipal de Atendimento Mário Bento. No início do mês, uma equipe do GLOBO esteve no local e ouviu reclamações.
– No dia 3 de julho, a médica me orientou a dar, por três meses, sulfato ferroso para meus dois filhos. Quando cheguei em casa, vi que os remédios que ela tinha me dado venciam em julho. Tentei fazer a troca por duas vezes e não consegui – reclamou Lucilene de Oliveira da Silva, de 25 anos.
A prefeitura informou que “não foi relatada falta de medicamento na unidade ou remédios com validade vencida”, mas irá apurar o caso.
A prefeitura de Nova Iguaçu, município que mais enviou pacientes para outras cidades no ano passado, ressaltou em nota que também absorve muitos pacientes da Baixada, no Hospital da Posse, realizando atendimentos de urgência e emergência com média e alta complexidade, tanto clínicos como cirúrgicos. A unidade, segundo a nota “segue as diretrizes do Ministério da Saúde e adotou o Programa QualiSUS e a Política Nacional de Humanização”.
No setor de cirurgia vascular do Hospital Souza Aguiar, onde ficou internada Regina Célia Nogueira, 50% dos pacientes são da Baixada Fluminense. No total da unidade, são 25%. Segundo a direção, o pactuado com os municípios vizinhos é 10%. O secretário municipal de Saúde do Rio, Hans Dohmann, se queixa:
– A sensação que temos é que, quando abrimos uma nova unidade aqui, uma se fecha num município vizinho.
O consórcio que reúne os municípios da Baixada é presidido pelo prefeito de Belford Roxo, Alcides Rolim. Em nota, ele admitiu que a região tem um déficit de seis mil leitos, mas ressaltou iniciativas como a conclusão das obras do Hospital de Queimados, com recursos da União, e a construção pelo estado de um Hospital de Trauma, em Nova Iguaçu. “Sabemos que as ações em curso não serão suficientes para zerar o déficit de mais de 40 anos de baixíssimos investimentos no setor, mas temos certeza que a peregrinação de pacientes rumo à capital já diminuiu sensivelmente”, afirma a nota.
A Secretaria estadual de Saúde informou que, este ano, lançou o Programa de Apoio à Unidade de Terapia Intensiva das Regiões Metropolitanas, para 19 municípios. O investimento é de R$ 7,4 milhões.
VIAGENS TAMBÉM SÃO PARA FORA DO ESTADO
Não é só dentro do território fluminense que pacientes encaram viagens para conseguir tratamento. O governo estadual realizou, apenas de janeiro a julho deste ano, 2.693 procedimentos de Tratamento Fora de Domicílio (TFD) para outras unidades da federação. A cidade que mais recebeu pessoas vindas do Rio foi Sorocaba, no interior de São Paulo, referência em transplantes de córnea, com 1.139 deslocamentos. Se no Rio o estado só cuida dos procedimentos de envio de pacientes para além das fronteiras fluminenses, deixando a decisão das transferências entre municípios a cargo das prefeituras, há exemplos como o da Bahia de avanços nesse setor. Lá, a Secretaria estadual de Saúde criou em 2010 um manual de TFD para que os administradores locais possam se guiar por regras mais claras, principalmente em pontos como a concessão de alimentação.
Cada paciente também recebe uma cartilha com seus direitos. Em nota, a Secretaria estadual de Saúde do Rio ressaltou que desde 2008, foram doadas 76 vans e 174 ambulâncias, para que os pacientes dos municípios sejam atendidos com mais conforto . O órgão ressaltou que no Rio, há uma capacidade instalada maior e mais descentralizada do que a da Bahia . Ontem, O GLOBO mostrou que a capital internou em 2011 mais de 40 mil pacientes de outras cidades
