Drogas na agenda das Américas

O Globo – 14/04/2012

Os líderes do continente se reúnem hoje e amanhã em Cartagena, na Colômbia, para a sexta edição da Cúpula das Américas, sob o pomposo slogan “Conectando as Américas: Parceiros para a Prosperidade”. O “nome de fantasia” assusta ao remeter ao vazio da linguagem diplomática quando existe pouca substância a comunicar. E assunto é o que não falta para discussão em áreas como política, comércio, imigração, investimentos, cooperação científica e tecnológica. E drogas. Líderes latino-americanos, inclusive a presidente Dilma Rousseff, querem aproveitar a oportunidade para fazer avançar o argumento de que a guerra às drogas, tal como vem sendo conduzida pelos EUA – tratando como crime seu uso e empregando táticas militares contra os cartéis -, fracassou e precisa ser revista. Entre os que defendem uma nova abordagem estão alguns dos maiores aliados dos EUA, como os presidentes da Colômbia, Juan Manuel Santos, do México, Felipe Calderón, cujo país está em guerra com os cartéis, e da Guatemala, Otto Perez, um ex-militar com longa história de combate ao narcotráfico. Santos, ex-ministro da Defesa da Colômbia, disse ao “Washington Post”: “Provavelmente não há ninguém que tenha lutado contra os cartéis e o tráfico como eu. Mas devo ser franco: depois de 40 anos, olhamos para um lado e para o outro e nos vemos quase na mesma posição.” No México, onde a violência associada ao narcotráfico já causou mais de 50 mil mortes, os cartéis ameaçam a sobrevivência do estado democrático. Na América Central, o tráfico criou verdadeiras zonas de guerra. O Brasil, que sofre com a ação devastadora do crack, consolidou-se como rota de exportação de cocaína. Estudos mostram que a “guerra às drogas”, que custa aos EUA cerca de US$ 40 bilhões por ano, foi inócua na redução do consumo e da produção, e teve graves impactos na sociedade, como o aumento da população carcerária, da violação dos direitos humanos e disseminação da violência. Ao buscar uma mudança de paradigma, os líderes do continente contam com o respaldo da Comissão Latino-Americana sobre Drogas e Democracia, da qual fazem parte, entre outros, os ex-presidentes Fernando Henrique Cardoso, César Gaviria (Colômbia) e Ernesto Zedillo (México). A Comissão sustenta que o uso de drogas é um problema de saúde pública e que tratar os dependentes como criminosos só dificulta o acesso ao tratamento. Em recente artigo no GLOBO, Fernando Henrique, Gaviria e Zedillo defenderam que “o primeiro objetivo de uma política antidrogas deve ser proteger os jovens, prevenindo o consumo que leva à dependência. Isto se faz mediante educação, tratamento e reintegração social”. Para os ex-presidentes, o poder repressivo do Estado e a pressão da sociedade devem se concentrar na luta contra os narcotraficantes e não os usuários. Em ano eleitoral, o presidente Obama já antecipou, em entrevista ao GLOBO e outros jornais do Grupo de Diarios América (GDA), que não se devem esperar mudanças da política ortodoxa dos EUA. Mas os líderes latino-americanos terão obtido enorme progresso se, a partir da cúpula que hoje se inicia, conseguirem incluir na agenda continental a ideia de que é preciso discutir novas alternativas no combate às drogas.