Gênero, identidade e democracia: o desafio de radicalizar a luta por direitos na América Latina
Entre corpos, territórios e palavras, ecoam as urgências de um continente que resiste: ser, cuidar e existir com liberdade
Com falas críticas, poéticas e profundamente provocadoras, o Grande Debate Eleutério Rodríguez reuniu reflexões urgentes sobre interculturalidade, feminismos, identidades e a crise das democracias na América Latina. Realizado na tarde de quinta-feira, 8 de agosto, durante o XVIII Congresso da ALAMES, o debate foi coordenado por Ana Costa, médica sanitarista, presidenta do Congresso e diretora do Cebes, e contou com a participação da médica e ativista feminista paraguaia Lilian Soto, do filósofo e ambientalista indígena Ailton Krenak, e do médico e sociólogo chileno Mario Parada.
O debate homenageou Eleutério Rodríguez, referência histórica na saúde coletiva, cuja trajetória inspirou o compromisso com uma saúde pública democrática, inclusiva e transformadora. A mesa dialogou com esse legado ao abordar temas que desafiam tanto as instituições quanto os próprios movimentos sociais.
Gênero como território político em disputa
Lilian Soto trouxe uma análise vigorosa sobre o avanço dos discursos de ódio e o ataque coordenado às políticas públicas de igualdade de gênero em diversos países da região. Para ela, o gênero e os feminismos se tornaram o novo “inimigo interno” no discurso das direitas e extremas direitas latino-americanas. “O que está em jogo são nossos corpos, nossos projetos, nossas vidas. Quando a direita governa, somos nós quem perdemos os direitos”.
Soto também fez uma crítica contundente à postura de setores da esquerda, historicamente ambíguos em relação às agendas feministas. “A esquerda precisa ser feminista, antirracista e decolonial. Não basta se declarar progressista enquanto se recusa a apoiar direitos fundamentais como o aborto legal ou a autonomia física das mulheres”, defendeu.
Saúde e origem
Com a força de sua palavra ancestral, Ailton Krenak emocionou o público ao defender uma visão radical da saúde como experiência coletiva e enraizada nas formas de vida dos povos originários. “A origem da saúde coletiva não está nas políticas públicas. Ela vem do barro debaixo do chão, das nossas avós, dos nossos ancestrais”.
Krenak criticou os protocolos universais que tentam enquadrar a diversidade dos povos em sistemas homogêneos de cuidado. “A maioria dos territórios indígenas no Brasil vive bem sem hospitais. Quando o Estado chega, muitas vezes é com contágio, não com contato”, provocou. Para ele, a saúde é feita pelas pessoas e pelas comunidades, e não apenas pelos governos.
Seu discurso também trouxe uma crítica à forma como os próprios movimentos progressistas, ao reivindicar políticas públicas, por vezes ignoram os riscos de controle, vigilância e apagamento da alteridade. “Às vezes, nos preocupamos tanto com a identidade que esquecemos a autoridade — o direito radical de sermos quem somos.”
Provocações necessárias: Estado, democracia e cosmovisões
Encerrando a mesa, Mario Parada Lezcano lançou provocações incisivas sobre os limites das democracias liberais e o papel dos movimentos sociais. A partir da experiência chilena, questionou por que a extrema direita continua conquistando apoio popular, mesmo em contextos de retrocessos sociais. “O que está sendo prometido que faz sentido para as pessoas? Estamos politizando o cotidiano ou nos afastando dele?”
Parada também defendeu a necessidade de tensionar conceitos amplamente utilizados nos campos da saúde e das ciências sociais, como interculturalidade e epistemologia. “Do que precisamos mais: de epistemologias ou de cosmovisões?”, perguntou, convocando a uma reflexão mais profunda sobre os modos de saber e de viver que de fato transformam a realidade.
Texto: Fernanda Regina da Cunha
Foto: Bete Bullar


