O SUS é muito mais do que dizem seus críticos

Nelson Rodrigues dos Santos – Nelsão

Jairnilson Paim

24/08/2026

Jairnilson Paim: delicadeza e firmeza na construção da Reforma Sanitária

Professor emérito da UFBA e cofundador do Cebes, Jairnilson Paim une pensamento crítico, militância e generosidade na defesa da saúde como direito e projeto de transformação social

Há pessoas cuja firmeza se anuncia pelo volume da voz ou pela dureza dos gestos. Em Jairnilson Silva Paim, ela se apresenta de outra maneira. Professor, médico sanitarista, pesquisador e militante histórico da Reforma Sanitária Brasileira, ele construiu uma obra intelectual profundamente crítica sem perder a delicadeza, a gentileza e a generosidade que marcam sua relação com estudantes, colegas e companheiros de luta.

Quem convive com o professor Jairnilson conhece essa combinação. Sua defesa da democracia e do direito universal à saúde é inegociável, assim como sua crítica ao capitalismo, ao neoliberalismo e à transformação da saúde em mercadoria. Mas a radicalidade de seu pensamento jamais o afastou da escuta, do diálogo e da construção coletiva. Ao contrário: sua trajetória ensina que firmeza política e cuidado nas relações humanas podem caminhar juntos.

Jairnilson ingressou na Faculdade de Medicina da Universidade Federal da Bahia (UFBA) em 1967 e formou-se médico em 1972. Ainda estudante, participou de pesquisas sobre doença de Chagas e de trabalhos de campo em municípios do interior baiano e em comunidades populares de Salvador. Foi nessas experiências, entre a universidade e os territórios, que começou a compreender de maneira mais profunda as relações entre saúde, condições de vida e estrutura social.

Em 1975, concluiu o mestrado em Medicina e Saúde, com uma pesquisa sobre as relações entre indicadores sanitários e variáveis econômicas e sociais. O estudo confrontava um dos grandes paradoxos da ditadura: enquanto o chamado “milagre econômico” produzia elevados índices de crescimento, as condições de saúde de grande parte da população se deterioravam. Naquele mesmo ano, Jairnilson iniciou sua trajetória como professor da UFBA.

A resposta de sua geração à ditadura, como ele próprio costuma lembrar, foi a luta. Uma luta que não se restringia ao setor da saúde, mas integrava um movimento mais amplo pela democratização da sociedade, do Estado, da cultura e da educação. Nesse processo, Jairnilson participou da criação do Centro Brasileiro de Estudos de Saúde, em 1976, e da Associação Brasileira de Saúde Coletiva, em 1979.

Sua ligação com o Cebes começa, portanto, nas origens da entidade. No primeiro número da revista Saúde em Debate, publicado em 1976, Jairnilson assinou o artigo “Medicina comunitária: introdução a uma análise crítica”. O texto integrava um conjunto de reflexões que questionava os limites da saúde pública convencional e ajudava a formular uma compreensão ampliada da saúde, vinculada às condições de vida, à participação popular, aos direitos sociais e à democracia.

Jairnilson teve participação destacada na 8ª Conferência Nacional de Saúde, em 1986, e nos debates que contribuíram para a inclusão do direito à saúde na Constituição Federal de 1988. Na Bahia, também participou da implementação do Sistema Unificado e Descentralizado de Saúde, o SUDS, entendido por ele como uma “estratégia-ponte” para a criação do SUS.

Embora reconhecido como um dos grandes formuladores do sistema público brasileiro, Jairnilson rejeita narrativas que procuram atribuir o SUS a indivíduos isolados. Se fosse possível falar em alguma paternidade, afirma, o SUS seria filho dos movimentos sociais que enfrentaram a ditadura. Em sua leitura, a Reforma Sanitária nasceu da articulação entre trabalhadores, pesquisadores, estudantes, sindicatos, associações de moradores, movimentos de mulheres, comunidades e outros sujeitos comprometidos com a democratização da saúde.

Sua produção intelectual tornou-se indispensável para compreender esse processo. Em “Reforma Sanitária Brasileira: contribuição para a compreensão e crítica”, obra originada de sua tese de doutorado, Jairnilson analisa a Reforma Sanitária como ideia, proposta, projeto, movimento e processo. Ao distinguir essas dimensões, demonstra que ela não se resume à reorganização dos serviços nem se encerra na criação do SUS. Trata-se de um projeto de transformação social que relaciona saúde, democracia, igualdade e novos modos de viver.

Já em “O que é o SUS”, uma de suas obras mais conhecidas, traduziu para um público amplo a história, os princípios, as conquistas, as contradições e as possibilidades do sistema. A clareza do livro reflete uma característica presente em toda a sua trajetória: produzir conhecimento rigoroso sem transformá-lo em privilégio de poucos.

Essa disposição para compartilhar também define o professor. Um dos fundadores do Instituto de Saúde Coletiva da UFBA, Jairnilson ajudou a formar gerações de sanitaristas e recebeu, em 2021, o título de professor emérito da universidade. Colegas e antigos alunos recordam sua preocupação em aprender os nomes dos estudantes, encontrar tempo para ouvir quem o procura e abrir caminhos para que outras pessoas possam crescer. Para ele, ensinar não é determinar o que alguém deve pensar, mas oferecer instrumentos para que possa pensar criticamente.

Em suas aulas, a ciência encontra a literatura, a filosofia, o cinema, o samba e a poesia. Jairnilson recorre a versos e canções para lembrar que a realidade não se esgota naquilo que os olhos percebem. Essa sensibilidade não suaviza sua crítica política. Ao contrário, amplia sua capacidade de compreender a vida e de reconhecer diferentes formas de conhecimento.

Mesmo depois de mais de cinco décadas dedicadas à universidade e à Saúde Coletiva, Jairnilson continua participando das reflexões do Cebes, acompanhando os caminhos e descaminhos do SUS e incentivando novas gerações a se organizarem. Para ele, a saúde somente será plenamente reconhecida como direito quando outros direitos fundamentais também forem realizados.

Celebrar Jairnilson Paim é reconhecer um dos grandes intelectuais públicos brasileiros, mas também uma forma profundamente humana de exercer o pensamento, a docência e a militância. É homenagear alguém que não gosta de falar demasiadamente de si porque sempre preferiu falar do coletivo, da universidade pública, da democracia e do SUS.

Ao explicar o sentido de sua trajetória, Jairnilson encontrou uma definição que talvez também sintetize seu legado:

Nessa pequena diferença entre as duas expressões está uma vida inteira de compromisso. E também a delicadeza de quem compreendeu que lutar por um mundo mais justo é, antes de tudo, cuidar das pessoas que o constroem.

Assuntos:

    A luta do Cebes não pode parar

    Associe-se. Essa história continua com você.