Justiça Ambiental: Incinerar lixo é retrocesso

Por Heleno Corrêa Filho*

Lixo tóxico chega às praias da Somália – Piratas cobram “taxa” pela disposição criminosa (foto: Ambiente Legal)

Incinerar lixo não é alternativa sustentável e produz poluição máxima. A reciclagem do lixo por meio de retorno aos produtores dos bens de consumo que geram o lixo é o único meio de conter a poluição, o desgaste e o uso de materiais desnecessários substituíveis.

A incineração interessa ao consumo desenfreado e desregulado de materiais poluentes. Também gera poluição grave sobre o solo com as cinzas altamente concentradas em metais pesados e PAHS, além de contaminar o ar com dioxinas e furanos, que são eternos e geradores de malformações e câncer. Não é possível controlar efluentes da incineração. Os bancos financiam a venda de usinas incineradoras estocadas nos portos do Japão e da Holanda. Querem se ver livres de muitas geringonças estocadas lá há 40 anos. Sugiro ver o site: https://www.no-burn.org/

Queimar lixo não é solução. É complicação grave. Gera resíduos insuportáveis (cinzas semi-vulcânicas pesadas com concentrados de metais pesados e materiais tóxicos não voláteis). Gera resíduos voláteis na queima que são impossíveis de filtrar e reter, principalmente os cancerígenos como os hidrocarbonetos aromáticos policíclicos (PAHs) que decorrem da queima de plásticos (com muito ácido ftálico para ficarem ‘macios’ ou moles ao tato), da queima incompleta de óleos animais e vegetais, com exaustão de gases (invisíveis) contendo dioxinas e furanos (os cancerígenos da moda que só apareceram nos anos 90 depois da guerra do Vietnam por que decorrem da queima de plásticos tal como na fabricação do agente laranja). Um dos produtos análogos é exatamente o herbicida Roundup (glifosato). Toda queima de lixo não vai para o ar e para a chuva, vai para o solo, para o lençol freático, para as águas profundas dos aquíferos, e para os leites maternos que transmitem câncer para as netas e bisnetas.

Queimar lixo é a solução de quem deseja privatizar a geração e venda de energia podre. Queimar lixo é resolver o estoque que não conseguem vender de usinas guardadas nos portos do Japão desde que as cinzas do lixo dessas usinas começou a ser estocado no mar do chifre da África, em frente à Somália, pelos navios da máfia Italiana (SAVIANO, 2009**). Os “piratas” que os navios dos EUA e da França combatem são na verdade pescadores que estão morrendo de fome com o envenamento dos peixes pelos tonéis de lixo de queima das usinas européias jogados no mar em frente à Somália.

O Banco Mundial age como lobista no 3º mundo vendendo incineradores. Seria a “solução final” queimar lixo da Europa e América do Norte nos incineradores em Piracicaba…? Já que os “piratas” da Somália não parecem se deixar derrotar facilmente para derramar lá os tonéis de borra de incineração.

Outra questão: o lixo das cinzas dos incineradores (eu vi derramando nos caminhões em Baltimore) é uma cinza em blocos esfarelentos tão pesada que só pode ser depositado com os cuidados de lixo atômico em aterros (“landfills”) com buraco coberto por concreto de espessura antiterremoto, plástico de espessura de 1 a 2 cm para não rachar depois de receber as cinzas, cobertura rápida para a chuva não lavar as cinzas para um reservatório de água, nascente ou riacho, tudo o que ninguém acredita que vão fazer num país como o Brasil, onde proliferam lixões.

A solução? Proibir fabricação de lixo não reciclável onerando os vendedores e fabricantes. Mais e mais pesquisas sobre sustentabilidade, muita tecnologia para desenvolver materiais não ‘queimáveis’ e não contaminante, um futuro sustentável. Queimar NUNCA. Queimar é solução de banqueiro e de quem deseja manter o consumo destruidor no planeta.

Queimar é igual a criar CÂNCER. Incinerar jamais. Aprendemos muito nestes anos…

* Heleno Correa Filho é médico sanitarista, doutor em Saúde Pública (USP) e integra o Conselho Consultivo do Centro Brasileiro de Estudo de Saúde (Cebes)

** Referência: SAVIANO, R. Gomorra: a história real de um jornalista infiltrado na violenta máfia napolitana. Tradução de NICCOLAI, E. 6. ed. Rio de Janeiro: Editora Bertrand Brasil Ltda., 2009.