Justiça climática exige dados sobre raça e gênero para enfrentar desigualdades no Brasil

Relatório do Geledés, Observatório do Clima e Ipea mostra impactos desiguais dos eventos extremos e lacunas nos dados públicos para políticas climáticas com equidade.

Entre 2000 e 2018, 48 mil mortes em excesso foram atribuídas ao calor em 14 regiões metropolitanas brasileiras. Essa taxa de mortalidade foi sistematicamente maior entre pessoas pretas e pardas do que entre pessoas brancas.

 O dado integra o relatório Dados, Raça, Gênero e Clima, lançado nesta segunda (23) por Geledés – Instituto da Mulher Negra, Observatório do Clima e Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), e evidencia que a crise climática não atua sobre uma sociedade neutra: ela aprofunda desigualdades históricas e expõe a urgência de políticas públicas orientadas por dados desagregados.

O documento sistematiza os debates do Seminário sobre Dados, Raça, Gênero e Clima, realizado nos dias 20 e 21 de maio de 2025, na sede do Ipea, em Brasília, e reúne contribuições de mais de 80 participantes, com representação de mais de 35 instituições públicas e organizações da sociedade civil. O encontro discutiu a produção, a ausência e o uso de dados sobre raça, gênero e clima, além de propor caminhos para fortalecer abordagens interseccionais no enfrentamento da crise climática no Brasil.

Mais do que um debate técnico sobre sistemas de informação, o relatório chama atenção para um impasse político. Ele lembra que quando raça/cor, gênero, território e condições de vida não aparecem de forma qualificada nos registros administrativos, o Estado perde capacidade de identificar prioridades, antecipar riscos e proteger quem está mais exposto aos eventos extremos. 

O relatório também enfatiza que a agenda não se limita à ampliação da coleta de dados, mas envolve a qualificação de todo o ciclo de produção e uso da informação pública. Entre as estratégias e encaminhamentos debatidos, aparecem a obrigatoriedade do registro de raça/cor e gênero em instrumentos de coleta, o letramento racial e de gênero das equipes responsáveis pelo preenchimento e análise, a integração entre bases de diferentes áreas e o fortalecimento da incidência política para incorporar essas propostas em instrumentos oficiais. A publicação também organiza suas formulações em três eixos centrais: cidades; renda, trabalho e subsistência; e acesso a direitos (saúde e educação).

Ao reunir evidências, lacunas e caminhos de ação, o relatório recoloca no debate climático brasileiro uma pergunta essencial para a saúde coletiva. Não haverá resposta justa à emergência climática sem dados que mostrem quem adoece mais, quem morre mais e quem permanece mais exposto à precarização da vida nos territórios. Mais do que um tema técnico, essa é uma escolha política sobre quais vidas o Estado enxerga e protege.

O relatório está disponível aqui.

Reportagem: Fernanda Regina da Cunha/Cebes