Mensagem negativa à população

O Globo – 06/11/2011

A República brasileira reúne muitas histórias de autoridades forçadas a buscar serviços médicos no cumprimento de mandatos. Depois da redemocratização, a partir de 1985, a maior incidência dessas eventualidades tem ocorrido de 2003 para cá. O mais longo dos casos foi do vice-presidente José Alencar. Vítima de câncer, o político mineiro, com o tempo, passou a frequentar o noticiário mais devido à doença do que à função administrativa. Cultivou uma imagem simpática, de estoica e otimista resistência, assentada em fé religiosa. Depois, viria Dilma Rousseff, forçada, em 2009, ano anterior ao da campanha, a enfrentar também um câncer, no sistema linfático. Altiva, recebeu alta e o diagnóstico de cura. E viria, há pouco, o próprio Lula, com a mesma doença. Nele, na garganta.

É positiva a divulgação ampla de informações sobre os três. Equipe médica e pacientes não deixaram de responder às perguntas da imprensa. Lula, ao ter alta da primeira sessão de quimioterapia, gravou um vídeo, sem temer mostrar a voz. Fica, então, no passado o tempo em que político cardíaco, por exemplo, não sofria enfarte, mas era “acometido de estafa”. Muitas vezes, a farsa tosca visava a não inviabilizar a carreira pública do doente, como se isso fosse possível. A pessoa pública, ao contrário, precisa abrir mão de parte da privacidade naquilo que interessa à sociedade. A saúde é um desses campos a serem devassados. Os americanos, com longa vivência na democracia, são exemplo no entendimento de que o político deve ter uma vida transparente. É o que demonstrou entender o adversário republicano de Obama, senador John McCain, ao tomar a iniciativa, na campanha, de abrir um volumoso arquivo médico sobre a retirada de um câncer de pele.

José Alencar, Dilma e Lula preferiram se tratar numa instituição privada, o Sírio-Libanês, em São Paulo. Logo ao começar a circular a notícia sobre Lula, mensagens de mau gosto, inspiradas no baixo nível das estocadas desfechadas por militantes em geral pela internet, foram espalhadas em redes sociais de crítica ao ex-presidente, por não ter optado por um hospital do SUS. Crítica de má-fé. Não é porque o político é do PT, ou coligado à legenda, que precisa enfrentar longas filas do SUS. Ou frequentar restaurantes populares. A questão é outra. Natural que Lula tenha procurado o Sírio, como José Alencar, Dilma e tantos outros políticos, quase sempre protegidos por amplos planos de saúde. Qualquer pessoa tem o direito de buscar o melhor atendimento. O ruim é a mensagem negativa que passam à maior parte da população, impossibilitada de ter acesso a assistência médica de mesmo nível. Parece para ela um problema insolúvel, uma realidade incontornável, e não é assim. Quando estava no Planalto, num dos vários arroubos ufanistas, Lula decretou que a saúde pública brasileira se aproximava da “perfeição”. Não era verdade, tanto que, quando precisou, ele bateu à porta de um dos hospitais de primeira linha mantidos por uma das várias comunidades de imigrantes que vivem integradas na maior cidade do país.

O fato deveria estimular o Planalto a criar uma política de revitalização de centros que já foram de excelência na rede pública. Poderia começar pelo Instituto Nacional do Câncer, que recebeu o nome de José Alencar Gomes da Silva, com a morte do ex-presidente. Mas a homenagem apenas será completa quando o Inca puder atender os pacientes anônimos como o Sírio-Libanês tratou de José Alencar.