Morre Nelsinho, militante contra a ditadura e construtor da alegria

Produtor cultural e militante do MR-8, Nelsinho fundou o Bloco do Barbas, símbolo da retomada do carnaval de rua no Rio

Numa quarta-feira cinza, o Rio de Janeiro se despede do jornalista e produtor cultural Nelsinho, militante do Movimento Revolucionário Oito de Outubro (MR-8), fundador do bloco Barbas e um dos responsáveis pela retomada do carnaval de rua do Rio de Janeiro.

Nelson Rodrigues Filho morreu nesta madrugada, 25/2, na cidade onde, há 79 anos, nasceu. O velório será amanhã no Salão Nobre do Fluminense, de 9h às 16h, sepultamento às 17h no cemitério São João à Batista.

“Nelsinho tem uma história extraordinária, marcada pela solidariedade, e se recusou a sair da cadeia sozinho enquanto seus companheiros estavam presos”, relembra o presidente do Centro Brasileiro de Estudos de Saúde (Cebes), Carlos Fidelis.

Filho do célebre dramaturgo Nelson Rodrigues (1912–1980), Nelsinho dividia com o pai a paixão pelo teatro e pelo futebol, mas na política estavam em campos opostos. Nelson Rodrigues foi um entusiasta do golpe de 1964. Nelsinho militou contra ditadura e permaneceu no cárcere por sete anos.

Nelsinho relatava que as torturas que sofreu mudaram a posição de seu pai sobre a ditadura, e admitia que provavelmente sua vida somente foi poupada pela proximidade do pai com o governo.

A violência sofrida não o amargurou. Em 1985, Nelsinho fundou o Bloco do Barbas —inspirado em sua notória barba—, que logo se tornou referência no Carnaval carioca, símbolo de resistência cultural e irreverência.

“Antes do bloco, ele fundou o bar Barbas, que foi uma referência na boêmia carioca, onde se cantava e se discutia política. Muitos passaram por lá com canjas memoráveis, como Chico Buarque. A ideia do bloco veio de uma conversa com Mauro Duarte, frequentador do bar”, relembra Fidelis.

Um dia, chegou a ordem de despejo. E virou samba, com Mauro Duarte, Cristina Buarque e Lefê Almeida: “Acabar o Barbas, nem de brincadeira/ Como é que eu vou viver sem pendura e saideira?/ Ô seu juiz, ô seu juiz/ Senta um bocadinho, bebe um chope e pede bis.”

O bar fechou. “Pois os bares nascem, vivem, parecem eternos a um determinado momento, e morrem. Morrem numa quarta-feira, como dizia Mário de Andrade”.

O bloco segue na rua e, a cada ano, apresenta sambas inéditos, geralmente misturando críticas políticas e referências ao grupo. Assista a homenagem: “Bloco do Barbas levanta sua voz. Nelsinho somos todos nós”.

Reportagem: Cebes/Clara Fagundes