Mudanças climáticas, pandemias e risco nuclear: Cebes debate ameaças sanitárias globais
Durante os Diálogos Cebianos, sanitarista José Noronha analisou como crise climática, guerras, pandemias e ameaça nuclear pressionam os sistemas de saúde e exigem respostas estratégicas.
Quando crises globais deixam de ser exceção e passam a organizar o cotidiano, que tipo de sistema de saúde é capaz de responder? Mudanças climáticas, eventos extremos, guerras, pandemias, insegurança alimentar, crise de saúde mental e risco nuclear compõem um cenário de instabilidade que desafia governos, sistemas de saúde e sociedades inteiras.
Este assunto foi tema de mais uma edição do Diálogos Cebianos, na última quinta-feira, 18. Com o tema “Ameaças Sanitária Globais”, o médico sanitarista José Carvalho de Noronha, integrante do Conselho Consultivo do Cebes (Centro Brasileiro de Estudo de Saúde) e pesquisador da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) apresentou inquietações importantes sobre riscos que já atravessam o presente e precisam ser considerados no planejamento do futuro da saúde coletiva.
A partir de um cenário prospectivo, Noronha destacou que o objetivo não é apenas dimensionar ameaças, mas contribuir para pensar respostas. Na atividade, Noronha apresentou elementos de um estudo sobre ameaças sanitárias globais desenvolvido no âmbito da Fiocruz, dentro da iniciativa Saúde Amanhã, voltada à prospecção estratégica do sistema de saúde brasileiro.
Segundo Noronha, olhar para essas ameaças é parte de um esforço de planejamento de longo prazo. Não se trata apenas de prever crises futuras, mas de compreender processos que já estão em curso e que afetam diretamente a capacidade dos países de proteger a vida. “O debate serve para sabermos que caminhos iremos tomar”, afirmou.

Oito ameaças para pensar o futuro da saúde
Durante a apresentação, Noronha elencou oito grandes ameaças sanitárias globais: mudanças climáticas e eventos extremos; guerras e conflitos armados, deslocamentos e crises humanitárias; pandemias e doenças infecciosas emergentes; fome e insegurança alimentar; doenças crônicas não transmissíveis; crise global de saúde mental; guerra biológica e genética; e ameaça nuclear, com armas estratégicas, táticas e risco de escalada.
Embora apresentadas em tópicos, essas ameaças não atuam de maneira separada na realidade. Ao contrário, frequentemente se combinam. Um evento climático extremo pode destruir unidades de saúde, interromper o acesso a medicamentos, agravar a insegurança alimentar, deslocar populações e ampliar o sofrimento psíquico. Uma guerra pode desorganizar campanhas de vacinação, comprometer o saneamento, provocar fome e produzir crises humanitárias prolongadas.
Esse encadeamento foi um dos pontos centrais da exposição. Para Noronha, pensar o futuro da saúde exige reconhecer que os sistemas sanitários estão inseridos em um mundo atravessado por crises ambientais, políticas, econômicas e sociais.
Crise climática já atinge a infraestrutura de saúde
Ao abordar as mudanças climáticas, Noronha apresentou uma linha do tempo do aumento da temperatura global desde o século XIX e dados sobre emissões anuais de gás carbônico. Segundo os dados expostos na apresentação, o mundo emite cerca de 53,2 bilhões de toneladas de gases de efeito estufa por ano. China e Estados Unidos aparecem entre os maiores emissores, e o Brasil também figura entre os grandes responsáveis pelas emissões globais.
Mas o ponto destacado pelo pesquisador foi que a crise climática já deixou de ser uma ameaça abstrata. Ondas de calor, inundações, secas extremas e ciclones têm provocado impactos diretos sobre a vida das populações e sobre a infraestrutura dos sistemas de saúde.
Noronha citou o caso do Paquistão, em 2022, quando cerca de um terço do território foi inundado, resultando no colapso de aproximadamente 1.460 centros de saúde, segundo os dados apresentados. No Brasil, lembrou as enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024, afetando mais de 400 municípios e comprometendo serviços essenciais. Também destacou a seca extrema na Amazônia, em 2023 e 2024, com impactos sobre territórios, populações ribeirinhas, mobilidade, abastecimento e acesso a cuidados.

Esses exemplos ajudam a deslocar o debate climático do campo exclusivamente ambiental para o campo sanitário. Quando uma enchente destrói estradas, unidades básicas, hospitais, sistemas de abastecimento e redes de comunicação, o que se produz é também uma crise de saúde pública. A emergência não termina quando a água baixa: seus efeitos permanecem nos territórios, nos corpos e nos serviços.
Poluição ambiental como ameaça permanente
Outro ponto apresentado por Noronha foi o impacto da exposição ambiental sobre a mortalidade. O pesquisador exibiu dados sobre mortes atribuíveis à poluição do ar ambiente, especialmente por exposição a partículas finas. Essas mortes costumam estar associadas a doenças respiratórias, câncer e outros agravos relacionados às condições ambientais.

A presença desse dado na apresentação reforça uma dimensão importante: nem todas as ameaças sanitárias globais assumem a forma de eventos espetaculares ou emergências repentinas. Algumas operam de maneira contínua, silenciosa e desigual, atingindo com mais força populações já vulnerabilizadas.
A poluição do ar, nesse sentido, não é apenas um problema ambiental. É uma questão sanitária, urbana, econômica e política, que exige regulação, vigilância, planejamento territorial e capacidade pública de resposta.
Pandemias: a próxima crise pode não avisar
Ao tratar das pandemias e doenças infecciosas emergentes, Noronha apresentou uma lista das dez piores pandemias da história. No quadro exibido, aparecem episódios como a Covid-19, o HIV/Aids, a gripe espanhola, a Peste Negra e pandemias de cólera, entre outras.

A leitura proposta por Noronha vai além da comparação numérica entre tragédias sanitárias. O pesquisador chamou atenção para as condições que favorecem a emergência de novas pandemias na atualidade, especialmente as mudanças na biodiversidade, a pressão sobre ecossistemas, a circulação global intensa e o contato crescente entre humanos, animais e ambientes degradados.
Segundo ele, as pandemias contemporâneas são frequentemente virais e de origem zoonótica. Elas dependem de uma “centelha”, isto é, de um ponto inicial de emergência, e de condições que permitam sua disseminação. Noronha mencionou a África Central e Ocidental como áreas importantes de atenção para esse tipo de risco, embora tenha lembrado que a Covid-19 surgiu na China.
O pesquisador também destacou os limites dos modelos preditivos. Embora sejam ferramentas importantes para vigilância e planejamento, eles não são suficientes, por si só, para evitar pandemias. A prevenção depende de sistemas de saúde fortalecidos, vigilância epidemiológica, ciência, coordenação internacional e capacidade de resposta rápida.
Guerras, deslocamentos e crises humanitárias
As ameaças globais, portanto, aparecem na análise de Noronha como processos interligados: de um lado, a degradação biológica provocada pela emergência climática, pelos eventos extremos e pelos limites da adaptação fisiológica humana; de outro, a ameaça nuclear e a possibilidade de destruição imediata em escala global.


Nos últimos 20 anos o Brasil registrou 120 mil mortes associadas à ondas de calor. Ao comentar projeções sobre o aquecimento global, o sanitarista destacou que, mantidas as políticas atuais, a trajetória aponta para um aumento de 2,7°C até o fim do século. Nesse cenário, afirmou, a humanidade se aproxima de limites cada vez mais estreitos de adaptação e sobrevivência.
Noronha também trouxe a referência do chamado Relógio do Fim do Mundo*, que, em sua atualização mais recente, marca 85 segundos para uma possível hecatombe. Para ele, o diagnóstico é incontornável. “A humanidade encontra-se presa entre o colapso biológico lento de suas próprias emissões e a ameaça contínua e suspensa da aniquilação cinética instantânea. O diagnóstico está completo. A margem de erro expirou”.
Reportagem: Fernanda Regina da Cunha / Cebes
Relógio do Fim do Mundo: criado em 1947 pelo Bulletin of the Atomic Scientists, é um marcador simbólico que indica o quão próxima a humanidade estaria de uma catástrofe global provocada por ameaças como armas nucleares, crise climática, riscos biológicos e novas tecnologias. A meia-noite representa o ponto de colapso. Em 2026, o relógio foi ajustado para 85 segundos antes da meia-noite, a posição mais próxima do “fim” desde sua criação.
