Sem clima estável, não há comida nem saúde: CFN lança Nota Técnica sobre crise alimentar e climática

Nota Técnica apresentada em webinário nacional articula mudanças climáticas, segurança alimentar e saúde coletiva, e aponta a urgência de respostas estruturais no Brasil diante do avanço da crise climática.

Em uma iniciativa pioneira, o Conselho Federal de Nutrição (CFN) lançou, nesta quarta-feira (18 de março), a Nota Técnica “A mudança do clima na alimentação e Nutrição: diálogos entre a atuação e a formação profissional, durante o primeiro webinário com o tema Emergência Climática e Sistemas Alimentares Saudáveis. O documento consolida o posicionamento institucional da entidade diante dos impactos das mudanças climáticas sobre a alimentação, a saúde e os sistemas alimentares.

A presidente do CFN, Manuela Dolinsky, destacou que o tema vem sendo debatido há mais de um ano por um grupo de trabalho dedicado à pauta e que, atualmente, já conta com uma comissão especial sobre mudanças climáticas e seus impactos na alimentação. “É uma temática que atravessa várias outras questões que estamos discutindo. No momento, estamos revisando a Resolução nº 600/2018 e, certamente, essa pauta aparecerá não só nas diferentes atribuições do nutricionista, mas, possivelmente, na consolidação de uma nova área de atuação”. A resolução mencionada por Manuela dispõe sobre as áreas de atuação dos nutricionistas.


Crise climática e alimentação: um debate inadiável

A Nota Técnica parte do reconhecimento de que a emergência climática já produz efeitos concretos sobre a saúde e a alimentação, afetando desde a produção até o acesso aos alimentos. Eventos extremos, como secas, inundações e ondas de calor, comprometem colheitas, elevam preços, desorganizam o abastecimento e aprofundam desigualdades sociais, com impactos mais intensos sobre populações em situação de vulnerabilidade .

O documento também chama atenção para o papel dos sistemas alimentares nesse cenário. Ao mesmo tempo em que são afetados pelas mudanças climáticas, esses sistemas contribuem para o agravamento da crise, especialmente quando estruturados a partir de monoculturas, cadeias longas de distribuição e alta presença de produtos ultraprocessados. Essa dinâmica está associada ao avanço da insegurança alimentar e nutricional e à piora dos indicadores de saúde .

Nesse contexto, a nota mobiliza o conceito de sindemia global, que articula três crises interdependentes — obesidade, desnutrição e mudanças climáticas — e reforça a necessidade de respostas integradas no campo das políticas públicas “Os sistemas agroalimentares, o impacto da alimentação e nutrição têm grande importância e estão sendo cada vez mais  estudados, compreendidos e abordados”, comentou Rafael Arante, especialista  associado a discussões sobre a relação entre mudança do clima e integrante do grupo de trabalho que elaborou a NT. “Precisamos de políticas públicas que enderecem e que primeiro assumam essa compreensão sistêmica de sistemas agroalimentares, clima, garantindo, o direito humano à alimentação adequada, alimentação adequada e saudável e a justiça.”

De que mudança do clima estamos falando?

A dimensão da crise climática pode ser verificada em números que colocam a discussão com um tema que exige medidas urgentes. Os dados foram aprofundados pelo professor Paulo Artaxo, físico da Universidade de São Paulo (USP), membro do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) e recentemente agraciado com o Planet Earth Award 2026, concedido pela Alliance of World Scientists (AWS).

De acordo com ele, apesar do Acordo de Paris e de mais de 50 anos de alertas da comunidade científica, as emissões globais de gases de efeito estufa continuam a aumentar, o que não é – em nenhuma – hipótese razoável para frear as mudanças profundas nos ecossistemas e por consequência na vida humana.

Atualmente, o planeta emite cerca de 57 bilhões de toneladas de gases de efeito estufa por ano, com aumento acelerado das concentrações atmosféricas. Desde a Revolução Industrial, os níveis de dióxido de carbono cresceram 152%, os de metano 266% e os de óxido nitroso 125%.“O atual modelo socioeconômico do nosso planeta está mudando a composição da atmosfera terrestre — e isso não é pouca coisa”.

O pesquisador também chamou atenção para a aceleração recente dessas mudanças. Se na década de 1960 o aumento de CO₂ era de cerca de 0,8 partes por milhão ao ano, hoje chega a aproximadamente 3 partes por milhão anuais. Esse processo se reflete no aumento da temperatura global, que atingiu níveis sem precedentes nos últimos 125 mil anos.

Nos ecossistemas terrestres — onde vivem as populações e se concentram as atividades produtivas — o aquecimento médio já alcança 2,1°C, ultrapassando os limites do Acordo de Paris. “Já ultrapassamos todos os limites nos ecossistemas onde produzimos alimentos”.

Anomalias da temperatura na superfície – Fonte Copérnicus

No Brasil, os impactos se distribuem de forma desigual. Enquanto regiões do Nordeste enfrentam aumento de temperatura e redução das chuvas, o Sul tem registrado intensificação das precipitações. Eventos extremos também se intensificam globalmente. “Isso mata, e mata milhares de pessoas”, apontou Artaxo.

As projeções alarmantes apontadas por Artaxo indicam que o planeta caminha para um aumento médio de temperatura de cerca de 2,8°C, podendo atingir até 4°C no Brasil. Diante desse cenário, Artaxo lança uma provocação central: “Qual é a sociedade que a gente quer construir? E quem decide qual desses cenários nós vamos seguir?”

Segurança alimentar e saúde em um clima em transformação

As mudanças do clima estão diretamente relacionadas à alimentação da população. Já estão estabelecidas uma série de doenças relacionadas aos efeitos climáticos. Para Cristina Camargo, integrante do grupo de trabalho de Alimentação e Nutrição no Contexto de Sistemas Alimentares e Mudanças Climáticas, do CFN, o cenário se traduz em impactos concretos na saúde,

Entre as doenças que mais têm ocorrido, estão as cardiovasculares, respiratórias e renais, desidratação, infecções, transtornos mentais e desnutrição, com destaque ainda para efeitos mais intensos sobre crianças e gestantes. “O resultado final que nós temos é o aumento da morbidade da mortalidade,além de uma sobrecarga dos sistemas de saúde e da redução da capacidade para o trabalho. Ou seja, estamos falando de um problema sistêmico que conecta o clima, sistemas alimentares e saúde e que exige respostas igualmente integradas”, pontuou.

Ao abordar os impactos diretos sobre a produção de alimentos, Paulo Artaxo destacou que a crise climática exige respostas concretas dos Estados. “Isso mostra a necessidade da adaptação ao novo clima”, afirmou, ao mencionar o programa Adapta Brasil, que reconhece a segurança alimentar como um dos setores estratégicos.

As mudanças no regime de chuvas, a perda de umidade do solo e o aumento de eventos extremos comprometem a produtividade agrícola e a capacidade de abastecimento, especialmente em regiões já vulneráveis.

O pesquisador também enfatizou que esses impactos não são distribuídos de forma homogênea. “Particularmente a população de baixa renda é a mais impactada”, afirmou, destacando a sobreposição entre crise climática e desigualdades sociais.

Portanto, a estabilidade climática é uma condição para o cumprimento de agendas globais. “Sem um clima estável, muitos dos objetivos de desenvolvimento sustentável se tornam impossíveis de serem atingidos”, afirmou, mencionando especialmente o ODS 2 – Fome Zero (Objetivo de Desenvolvimento Sustentável) e o ODS 3 – Saúde e Bem-Estar.

Saúde coletiva diante da emergência climática

Para o pesquisador da Fiocruz e integrante do GT Saúde e Ambiente da Abrasco, Alexandre Pessoa Dias, a emergência climática representa um desafio civilizatório. “Esse é um debate que é uma questão de destino da humanidade”.

Dia destacou o caráter pioneiro da do CFN ao lançar a Nota Técnica. “Essa será uma tendência incontornável. Esperamos que outros conselhos também assumam esse debate, porque ele está completamente imbricado com a formação e a atuação profissional”. Para Alexandre, a crise exige uma revisão na formação em saúde.

A partir da perspectiva das determinações socioambientais da saúde, Alexandre defendeu a superação de modelos reducionistas. “A área biomédica é fundamental, mas o modelo não pode ser apenas biomédico”, afirmou.“Hoje, isso já saiu dos relatórios e está nos corpos das pessoas”

Necessidade de integração – Ao trazer exemplos concretos, como as enchentes no Rio Grande do Sul, o pesquisador destacou a relação indissociável entre insegurança hídrica e insegurança alimentar.

Eventos extremos revelam a dimensão social da crise climática, com impactos diretos sobre moradia, acesso à água, alimentação e saúde.

Nesse cenário, Alexandre defende a integração entre políticas públicas estruturantes, destacando a articulação entre o Sistema Único de Saúde (SUS), o Sistema Único de Assistência Social (SUAS) e o Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Sisan).“Essa triangulação tem uma capilaridade impressionante. Mas esses sistemas, isoladamente, não dão conta”.

Modelo de desenvolvimento em disputa  – A análise também aponta para as bases estruturais da crise. Alexandre destacou o papel do que denomina “modelo agromineral, hidrobiofóssil”, associado ao desmatamento, ao uso intensivo de agrotóxicos, à monocultura e à expansão de produtos ultraprocessados.

Formação, ciência e incidência política – Diante desse cenário, Alexandre defendeu a necessidade de uma mudança na forma de produzir e mobilizar conhecimento, em uma “nova gramática”.

A crise climática exige maior incidência política da ciência. “Não há neutralidade”, destacou, ao defender que pesquisadores e profissionais contribuam ativamente na construção de respostas públicas.

Do diagnóstico à ação

A Nota Técnica do CFN aponta caminhos para essa transformação, organizados em eixos que incluem o fortalecimento de políticas públicas, o incentivo à agroecologia, a promoção da educação alimentar baseada em evidências e a incorporação da agenda climática na formação profissional.

O documento reafirma o papel estratégico dos nutricionistas na transição para sistemas alimentares mais saudáveis, justos e sustentáveis, alinhados ao Direito Humano à Alimentação Adequada.

Ao articular ciência, políticas públicas e formação profissional, o debate evidencia que alimentação, saúde e clima são dimensões inseparáveis.

Mais do que um desafio futuro, a emergência climática já reorganiza as condições de vida no presente e exige respostas à altura de sua complexidade. O webinário completo está disponível no canal do CFN no YouTube.

Sem clima estável, não há comida nem saúde.
A crise climática já impacta a produção de alimentos, o acesso à comida e a saúde, especialmente entre populações mais vulneráveis.

Reportagem: Fernanda Regina da Cunha/Cebes