O futuro do Cebes?

*Alcides Miranda

Alcides Miranda

Outrora, alguém notável (Gustav Mahler? Thomas More? Jean Jaúrés?) afirmou sabiamente que, ao sentido essencial da tradição, mais do que o culto às cinzas, importa a preservação do fogo e a passagem da chama.

Deveras, para uma entidade como o Cebes, o sentido da tradição na sua passagem cinquentenária implica concomitantemente cultivo e respeito ao próprio passado, alguma lucidez e empenho na luta cotidiana e projeção de pretensões maiúsculas para a Reforma Sanitária e a sociedade brasileira.
Pretensões maiúsculas implicam ousadias políticas de abrangência transcendente e alcances intergeracionais, decorrendo atitudes e posturas afins.

Abdicar de pretensões históricas maiúsculas tende a decorrer em rendição ao senso pragmático, aparentemente inevitável, porém, permeado por mediocridades e sujeito às conveniências oportunistas
Afinal, não basta idealizar e engendrar políticas públicas melhores em um mundo pior. Menos ainda, traficar conformidades na “bacia das almas”, sempre aceitando e reproduzindo o ruim, por menos pior.

A pretensão cebiana pela Reforma Sanitária nunca se reduziu ou se resumiu aos apelos recursivos e aos arranjos sistêmicos meramente assistenciais ou aos constrangimentos de governança subalterna. Antes, buscou alinhar intermédios e termos de uma reforma setorial sinergicamente compatível com substanciais mudanças sociais, o que, inevitavelmente dependeu de insurgências políticas e de insubmissões perante ao status quo, sob circunstâncias e conjunturas mais ou menos favoráveis.

Repito, no entorno e itinerários entre os princípios e horizontes da Reforma Sanitária, a partir do Cebes foram concebidas e engendradas interveniências estratégicas, tensionamentos e mediações políticas, consubstanciando um sentido histórico abrangente que, conforme antecipado, foi e vai além dos ajustes sistêmicos e tecnoassistenciais para a política pública de Saúde, visando primordialmente um futuro digno e justo para a sociedade brasileira.

Daí, porque, projetar o futuro do Cebes interpõe dialéticas mais proativas do que especulativas, pois, a partir das contradições intrínsecas e extrínsecas, das mediações (macro e micro) políticas providas de sentido estratégico abrangente, nos nutrimos com a seiva da árvore da vida.

Não, o Cebes não se apresenta como retaguarda das cinzas no lusco-e-fusco das horas mortas (do qual, escreveu Gramsci, emergem monstruosidades) porque intenta permanente renovação rumo a outro mundo possível.

Não há muitas dúvidas sobre o umbral civilizatório que se avizinha, o capitalismo, anunciado como degenerescência autoreciclável, autopoiética, já não dispõe de ilusões de longo prazo. O entroncamento da barbárie, antevisto por Rosa Luxemburgo, interpõe ímpetos de refeudalização geopolítica e social, com esgotamento ambiental e alternativas distópicas.

De novo, ao Cebes: como lutar pela Reforma Sanitária em perspectiva global degenerativa? Como lutar por um futuro viável apenas remendando o tecido da contemporaneidade malsã?

Por isso, dentre outros tantos desafios, não basta somente ganhar a próxima eleição (ou seria nao perde-la?). Não basta gerenciar adiante, no varejo, as próximas crises em espiral descendente.

Aos jovens de espírito pertence o futuro. A vanguarda do fogo.

Insisto: ousar é preciso! Mesmo que, inicialmente estejamos tratando de políticas públicas com ética social.

Se em outras épocas adversas, do Cebes e de outras instâncias insurgentes emergiram espíritos insubmissos a disputar o futuro, é preciso resgatá-los das cinzas que nos entorpecem.

Dito isso, devo finalmente admitir que não sei quase nada sobre o futuro do Cebes. Apenas, que depende menos do que não está ao nosso alcance e mais do que podemos transformar em lucidez, ousadia, coragem, movimento e sinergias.

Com as flores de abril, salve o Cebes! Seu passado, presente e futuro

*Alcides Miranda é médico sanitarista, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e integra a diretoria-executiva do Cebes