Fome e instabilidade sobem; fortunas disparam: quem governa o mundo?
Relatório da Oxfam, lançado às vésperas de Davos, aponta que fortunas bilionárias aceleram enquanto fome, endividamento e retrocessos democráticos se aprofundam.
Em 2025 a concentração de riqueza dos bilionários cresceu três vezes mais rápido que a média dos últimos cinco anos. Enquanto 25% da população mundial não tem acesso regular à alimentação suficiente, a riqueza dos bilionários aumentou 81% desde 2020.
Este escândalo humanitário foi denunciado no relatório da Oxfam*, “Resistindo ao domínio dos ricos – defendendo a liberdade contra o poder dos bilionários”, divulgado nesta segunda-feira (19). O documento chega como uma denúncia pela ocasião do Fórum Econômico Mundial de Davos.
O relatório é direto no diagnóstico e no enquadramento, apontando que o mundo está diante de uma escolha política. A desigualdade econômica, quando descontrolada, vira desigualdade de poder e empurra sociedades para uma “nova oligarquia”. Neste cenário, estamos diante de elites cada vez mais capazes de comprar regras, capturar governos e reduzir a democracia.
Aumento do autoritarismo – O documento aponta a preocupação com duas tendências preocupantes que ocorrem simultaneamente: o aumento do autoritarismo e o aprofundamento das desigualdades. “Não são dilemas distintos. Em vez disso, elas estão profundamente entrelaçadas, à medida que governos ao redor do mundo ficam do lado dos poderosos, não das pessoas, e escolhem repressão, não redistribuição,” descreve a Secretária Geral da Anistia Internacional, Agnes Callamard.
Fome e saúde – A fome, por sua vez, aparece no relatório como o sintoma mais brutal da engrenagem que estimula o acúmulo. Um em cada quatro habitantes do planeta vive insegurança alimentar moderada ou grave.
Em 2024, isso equivalia a cerca de 2,3 bilhões de pessoas convivendo com a instabilidade cotidiana do prato. O encarecimento estrutural de uma refeição saudável é apontado no documento como mecanismo central desta violência.
Quando o debate sai do prato e entra no orçamento público, o relatório toca numa ferida estratégica para a Saúde Coletiva: a financeirização do Estado. A Oxfam destaca que 3,4 bilhões de pessoas vivem em países que gastam mais com juros do que com educação ou saúde.
Em outras palavras, a dívida não é só um número, é uma política sanitária indireta. O resultado é previsível: menos investimento, mais precarização, mais filas, menos capacidade de resposta a crises, mais sofrimento social.
E quando o custo de vida sobe e a proteção social desce, a democracia vira campo de batalha. O relatório cita o declínio global de direitos e liberdades civis, indicando 2024 como o 19º ano consecutivo de piora, com mais de 60 países em retrocesso.

Lobby e captura política
Num cenário geopolítico marcado por tensões, instabilidade econômica e crise climática, a incerteza virou terreno fértil para decisões “técnicas” tomadas sob pressão e pouca transparência. Um exemplo disso foi a captura do presidente da Venezuela Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores, no dia 3 de janeiro, por forças militares estadunidenses – infringindo a soberania do país latino que detém as maiores reservas de petróleo do mundo.
O relatório da Oxfam demonstra que as ações de Donald Trump, incluindo a defesa da desregulamentação e o enfraquecimento dos acordos para aumentar a tributação das empresas, beneficiaram os mais ricos em todo o mundo.”O número de bilionários ultrapassou 3 mil pela primeira vez, e o nível de riqueza dos bilionários é agora mais alto do que em qualquer outro momento da história.”

A combinação de valorização patrimonial, regras favoráveis, poder de mercado (monopólios) e influência política foi certeira na multiplicação de grandes fortunas. Um reflexo disso é que 2025 também marcou o primeiro trilionário do mundo. Elon Musk, empresário formado em um contexto de privilégio de classe, tornou-se a primeira pessoa da história a superar meio trilhão de dólares em fortuna.
O que o relatório recomenda
A Oxfam insiste que não há fatalidade na ocorrência da disparidade econômica mundial, mas sim decisão. O relatório propõe que governos assumam a redução radical da desigualdade como prioridade e limitem o poder político dos super-ricos com medidas concretas.
Entre as medidas estão a tributação efetiva, regulação do lobby e das “portas giratórias” entre governo e grandes interesses privados, proibição do financiamento eleitoral por grandes fortunas e defesa da independência da mídia e da transparência algorítmica.
Se a escolha do nosso tempo é entre democracia e oligarquia, não dá para seguir chamando de “normal” um mundo em que a maioria perde direitos enquanto o topo acumula cada vez mais.
“A desigualdade extrema atingiu um ponto em que os super ricos podem manipular eleições e economias e aprofundar seu poder por meio da política, da mídia e das instituições de justiça. Enquanto isso, bilhões de pessoas enfrentam dificuldades evitáveis e a deterioração de seus direitos civis e políticos, e a oposição e os protestos são reprimidos por governos no mundo todo.”
*Oxfam – A Oxfam é confederação de 22 organizações que atua em 77 países na busca de soluções para o problema da pobreza, desigualdade e da injustiça, por meio de campanhas, programas de desenvolvimento e ações emergenciais. A organização também atua no Brasil.
Reportagem: Fernanda Regina da Cunha/Cebes

