Retrospectiva 2025: democracia, necropolítica e saúde coletiva no Brasil e na América Latina
Da prisão de Jair Bolsonaro à chacina no Rio, da ofensiva militar dos EUA no Caribe à COP30 em Belém, passando por economia, aborto, apostas online e programas em saúde, o ano revelou como o direito à vida e ao cuidado segue atravessado por racismo, patriarcado, neoliberalismo e imperialismo.
O ano de 2025 no Brasil foi atravessado por acontecimentos que escancararam a relação indissociável entre democracia, economia, violência de Estado, crise climática e saúde coletiva.
Entre o levante de mulheres contra a violência de gênero e a retomada da mobilização da esquerda nas ruas contra a chamada “PEC da Blindagem” e projetos de anistia, o país voltou a viver, com intensidade, a disputa pública sobre quais vidas importam. A reação à PEC, marcada por atos em diversas cidades e pela rejeição no Senado, demonstrou que a pressão social segue capaz de produzir freios institucionais. Em dezembro, ainda que em escala menor, novas manifestações se levantaram contra o chamado “PL da Dosimetria”, reacendendo o alerta sobre retrocessos no campo dos direitos e da justiça.
Da prisão preventiva do ex-presidente Jair Bolsonaro, decretada pelo STF, à operação policial mais letal registrada no Rio de Janeiro, passando pela escalada de tensões e movimentações militares dos Estados Unidos no Caribe, pela COP30 em Belém, e pelos debates sobre o SUS, apostas online, aborto e tributação, o pano de fundo é o mesmo: quem tem o direito de viver com dignidade e quem segue exposto à necropolítica, ao racismo ambiental e à precarização do trabalho.
Prisão de Bolsonaro e a disputa pelo sentido da democracia
Nesta reta final do ano, em novembro, o ex-presidente Jair Bolsonaro foi condenado e preso após decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), que fixou pena de 27 anos e 3 meses. A condenação foi por liderar uma conspiração golpista para se manter no poder depois da derrota eleitoral de 2022.
Até o momento, além de Bolsonaro, outras 23 pessoas já foram condenadas pelo crime. Entre elas, estão alguns de seus aliados diretos: Mauro Cid, Walter Braga Netto, Alexandre Ramagem, Almir Garnier, Anderson Torres, Augusto Heleno e Paulo Sérgio Nogueira.
A prisão não encerra o ciclo bolsonarista, mas explicita a necessidade de responsabilizar redes políticas, econômicas, militares e midiáticas que seguem alimentando discursos de ódio, negacionismo e ataque às instituições. Todos com profundo impacto sobre a saúde coletiva, como se viu na pandemia de Covid-19.

“Guerra às drogas” e ameaças à América Latina
O ano também foi marcado pela escalada da ofensiva imperial dos Estados Unidos na América Latina. Desde setembro, sob o governo de Donald Trump, a operação militar Southern Spear passou a bombardear embarcações acusadas de transportar drogas no Caribe e no Pacífico. Até a segunda quinzena de dezembro, já eram 29 ataques reportados, com mais de 100 mortos, segundo balanços divulgados por autoridades e agências de notícias, em meio a críticas sobre a falta de transparência na identificação dos alvos e das vítimas.
Os ataques são feitos através de mísseis, e de acordo com informações do jornal Washington Post, um destes teria sido realizado de forma subsequente. Neste caso, os militares teriam avistado dois sobreviventes agarrados à embarcação e ainda assim, fizeram um novo ataque. Se confirmado, o ato é considerado crime de guerra.
As embarcações atingidas partem majoritariamente da Venezuela, transformada em alvo central de uma estratégia que combina sanções econômicas, bloqueios, ataques a barcos e ameaças de ataques terrestres.
Paralelamente aos ataques, o governo Trump ampliou medidas de cerco econômico e marítimo, incluindo ações de interdição e abordagem de petroleiros associados ao fluxo de petróleo venezuelano, reforçando a pressão sobre o governo de Nicolás Maduro e elevando tensões diplomáticas na região.

Economia, tributação e orçamento
No campo econômico, 2025 expôs tensões entre medidas de alívio para parte da população e a manutenção de um regime macroeconômico que limita a capacidade do Estado de garantir direitos.
A ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda para rendas até R$ 5 mil foi apresentada como alívio para trabalhadores formais de baixa e média renda. Ao mesmo tempo, o Banco Central manteve a taxa Selic em 15% ao ano, pressionando o custo da dívida pública e restringindo a margem para ampliar investimentos sociais.
O orçamento federal de 2025 trouxe aumento nominal de recursos para a saúde, mas manteve forte dependência das emendas parlamentares, que chegaram a dezenas de bilhões de reais, fragmentando o financiamento e subordinando o planejamento sanitário a interesses locais e fisiológicos.
Necropolítica e chacina de Estado
Se a saúde é expressão da vida em sociedade, poucas imagens em 2025 foram tão chocantes quanto as da Operação Contenção nos complexos da Penha e do Alemão, no Rio de Janeiro. Em 28 de outubro, cerca de 2.500 policiais de várias forças cercaram 26 comunidades da Zona Norte sob o argumento de cumprir mandados contra o Comando Vermelho.
O saldo oficial: 121 mortos, sendo 117 civis e 4 policiais. Moradores relataram corpos resgatados na mata pelos próprios familiares, impossibilitados de acesso por ambulâncias ou rabecões, e denúncias de execuções, mutilações e humilhações.
A chacina, já considerada a mais letal da história do Rio e do Brasil, reacendeu o debate sobre a política de “guerra às drogas”, o racismo estrutural e a necropolítica que faz das favelas laboratórios de experimentação de tecnologias de morte. Uma estrutura que aponta a ausência do Estado nesses territórios. Eles seguem privados da garantia de direitos básicos como saneamento, moradia, educação e saúde.
“Estamos falando de uma catástrofe programada: mortes imediatas, traumas psíquicos profundos, interrupção de serviços de saúde, escolas e comércios, criminalização cotidiana da juventude negra e favelada,” aponta o presidente do Cebes, Carlos Fidelis.

Faria Lima e o crime organizado
Em 2025, dois casos ajudaram a derrubar a ideia, geralmente difundida pela extrema direita, de que o crime organizado se restringe às periferias. A operação da Polícia Federal na Faria Lima desnudou um esquema de lavagem bilionária ligado ao PCC que chegava a fundos de investimento e gestoras do principal corredor financeiro do país.
Pouco depois, o colapso do Banco Master, investigado por fraudes em carteiras de crédito e possível prejuízo bilionário a um banco público e a fundos de previdência, mostrou como o sistema financeiro é cenário de desvio de recursos públicos.
Para a saúde coletiva, isso não é detalhe. Cada bilhão drenado por esquemas desse tipo é um bilhão a menos em saneamento, atenção básica, vigilância e cuidado em saúde. Enquanto a violência policial se concentra nas periferias, a impunidade da “criminalidade de colarinho branco” segue sendo um determinante silencioso da desigualdade.
Trabalho, direito ao descanso e saúde dos trabalhadores
Em 2025, as condições de trabalho voltaram a ocupar o centro da agenda da saúde coletiva. Em um país marcado pela pejotização, pela uberização e pela informalidade, a escala 6×1 – seis dias de trabalho para apenas um de descanso – segue naturalizada em diversos setores, mesmo em atividades com alta carga física e emocional.
Essa organização do tempo produz uma epidemia silenciosa de sofrimento psíquico, adoecimentos musculoesqueléticos, agravamento de doenças crônicas e acidentes relacionados à exaustão.
A 5ª Conferência Nacional de Saúde do Trabalhador e da Trabalhadora recolocou esse debate em perspectiva histórica, ao denunciar que a intensificação do trabalho, as jornadas fragmentadas e a precarização dos vínculos são parte de um mesmo projeto de sociedade que trata a força de trabalho como recurso descartável. As propostas aprovadas reivindicam não apenas prevenção de acidentes, mas o direito ao descanso, ao lazer e à participação social como dimensões constitutivas da saúde de quem trabalha.
A PEC pelo Fim da Escala 6 x 1 segue nas comissões do Congresso Nacional sem previsão de ser votada.
Crise climática, COP30 e saúde dos povos
A realização da COP30 em Belém, no Pará, marcou 2025 como o ano em que a Amazônia ocupou o centro da agenda climática internacional, e, com ela, a relação entre mudanças climáticas e saúde.
No âmbito da saúde, o governo brasileiro lançou o AdaptaSUS, plano de R$ 9,8 bilhões para fortalecer a infraestrutura do SUS frente a eventos climáticos extremos, com 27 metas e 93 ações até 2035, e apresentou o Plano de Ação em Saúde de Belém, primeiro plano internacional voltado especificamente à adaptação climática do setor saúde.
Essas iniciativas dialogam com o alerta de que a crise climática já é uma crise sanitária: hospitais que fecham por enchentes, ondas de calor que ampliam internações, expansão de vetores de doenças e eventos extremos que atingem sobretudo populações pobres, povos originários, quilombolas e periféricas.
Mal terminou a COP, o Congresso derrubou vetos presidenciais a trechos de leis ambientais conhecidas como “PL da devastação”, enfraquecendo a proteção de biomas e afrouxando regras de licenciamento. Uma evidente contradição que revela a disputa entre proteção ambiental e interesses econômicos.
Dengue – A dengue seguiu como expressão concreta da crise climática e urbana. Só até o fim de maio de 2025, o Brasil já havia registrado mais de 1 milhão de casos confirmados e cerca de 1.000 mortes pela doença.
A boa notícia veio neste fim do ano, com a aprovação pela Anvisa da Butantan-DV, primeira vacina contra dengue em dose única no mundo, indicada para pessoas de 12 a 59 anos. A nova vacina já tem mais de 1 milhão de doses já produzidas, com previsão de incorporação ao Programa Nacional de Imunizações a partir de 2026.

SUS, programas em disputa
No campo da assistência, o Ministério da Saúde (MS) consolidou o programa Agora Tem Especialistas, voltado a reduzir filas de consultas, exames e cirurgias por meio de mutirões, unidades móveis, transporte sanitário e expansão da telessaúde.
Embora responda a uma demanda real da população por acesso mais rápido, o programa tem gerado debate na saúde coletiva. Até que ponto uma estratégia baseada em ações pontuais – muitas vezes apoiada na compra de serviços privados – enfrenta, de fato, as causas estruturais das filas, como o subfinanciamento crônico, a ausência de carreiras estáveis no serviço público, a concentração de especialistas em grandes centros urbanos e a manutenção de um modelo fortemente hospitalocêntrico? Saiba mais sobre a discussão aqui.
A epidemia silenciosa das apostas e o cuidado em saúde mental – Enquanto isso, cresceu a preocupação com a explosão dos jogos de apostas e cassinos online. A legalização e regulamentação do setor – com forte lobby de empresas de “bets” – avançou em paralelo ao aumento de casos de dependência, endividamento e sofrimento psíquico, inclusive entre adolescentes.
O MS passou a estruturar linha de cuidado para jogadores e pessoas em sofrimento por jogos de azar e apostas, mas a proteção ao negócio das bets seguiu forte no Congresso, revelando o conflito entre interesses econômicos e defesa da saúde mental da população.
One Health – Saúde Única
Em 2025, o debate sobre One Health ganhou mais espaço no Brasil e no mundo como resposta às crises que se retroalimentam: emergências sanitárias, colapso climático, perda de biodiversidade e avanço de modelos produtivos que intensificam riscos. A ideia de integrar saúde humana, saúde animal e saúde ambiental pode soar consensual, mas, é nececessário alertar que ela só faz sentido quando é traduzida em políticas públicas de base territorial, enfrentamento dos determinantes sociais e ambientais, e fortalecimento do SUS como sistema capaz de articular vigilância, atenção básica, ciência e participação social.
A preocupação é que “One Health” vire slogan tecnocrático ou plataforma de securitização: um rótulo elegante para ampliar controle, vigilância e soluções centradas em mercado, sem tocar nos motores do adoecimento, como desmatamento, mineração predatória, agrotóxicos, precarização do trabalho e desigualdades. Para o Cebes, não existe One Health real sem justiça ambiental, direitos dos povos e comunidades, regulação pública firme e investimento em ciência e serviços que protejam vidas antes que as crises virem “eventos”, quando já é tarde e o custo recai, de novo, sobre os mesmos corpos. Leia mais aqui.

Violência contra mulheres e meninas, aborto e racismo
A escalada da violência contra mulheres seguiu escancarando o patriarcado como problema de saúde pública. Em 2025, campanhas como “Criança não é Mãe” ganharam força ao denunciar a realidade de meninas grávidas após estupro, sobretudo no Norte e Nordeste, e a dificuldade de acesso ao aborto legal e a cuidados integrais.
No congresso, projetos para restringir ainda mais o aborto, como propostas que criminalizam procedimentos após 22 semanas, inclusive em casos já previstos em lei, e medidas que atacam normativas de proteção a meninas vítimas de violência sexual revelam o avanço de pautas conservadoras sobre os corpos das mulheres.
Para a saúde coletiva feminista, trata-se de uma disputa central: garantir que aborto, contracepção, parto seguro e atendimento às violências sejam tratados como direitos humanos e políticas de Estado, e não como concessões morais sujeitas ao humor de governos e bancadas religiosas.
Marcha das Mulheres Negras e o Bem Viver – Na contramão da violência, 2025 também foi o ano em que cerca de 300 mil mulheres negras ocuparam Brasília na 2ª Marcha das Mulheres Negras por Reparação e Bem Viver.
Com pautas que vão da reparação histórica ao enfrentamento do feminicídio e da violência obstétrica, passando pela proteção de territórios quilombolas e justiça ambiental, a marcha recolocou o Bem Viver como horizonte de outro modelo de sociedade. Uma sociedade antirracista, antipatriarcal e ecologicamente responsável é o horizonte comum.

Saúde coletiva latino-americana em movimento
O Brasil também esteve no centro de debates regionais sobre saúde coletiva. Em agosto, o XVIII Congresso da ALAMES (Associação Latino Americana de Medicina Social e Saúde Coletiva), realizado na UERJ (Unversidade do Estado do Rio Janeiro), reuniu pesquisadoras, profissionais, movimentos sociais e entidades como o próprio Cebes sob o tema “Por democracia, direitos sociais e saúde: retomando o caminho da determinação social e da soberania dos povos”.
Encerrado no dia 3 de dezembro, o Abrascão 2025 (14º congresso Brasileiro de Saúde Coletiva) reafirmou a defesa do SUS universal, público e de qualidade, articulando a agenda da crise climática com as lutas por trabalho decente, combate ao racismo e democratização do Estado.
2025 termina, mas as encruzilhadas permanecem
A prisão de Bolsonaro, a chacina de Estado no Rio, a ofensiva militar estadunidense contra a Venezuela, a COP30 na Amazônia, os programas que tentam reorganizar o SUS e tantas outras pautas que compuseram o ano, formam um mosaico contraditório.
De um lado, avanços importantes, como iniciativas de adaptação climática na saúde, fortalecimento do SUS, mobilização feminista e negra, articulação latino-americana e regional. De outro, a persistência – e, em alguns casos, o aprofundamento – de estruturas de violência, racismo, patriarcado, neoliberalismo e imperialismo que corroem a própria ideia de saúde como direito humano.
Para o campo da saúde coletiva e para o Cebes, a tarefa que 2025 deixa é a necessidade de seguir denunciando a necropolítica, disputando o sentido da democracia, defendendo o direito à saúde e articulando lutas feministas, antirracistas, ambientais e anti-imperialistas.
Reportagem: Fernanda Regina da Cunha
