Saída da OMS é retrocesso, afirmam sanitaristas da Argentina

Alames denuncia que o espelhamento da ações Trump não leva em consideração as consequências para a Argentina, colocando em risco o acesso a tecnologias e resposta a crises sanitárias

Trump e Milei
Política de espelhamento dos EUA ignora a realidade da Argentina (Foto: REUTERS/Jonathan Ernst)

Argentina oficializou a saída da Organização Mundial de Saúde (OMS), cumprindo a promessa — que muitos argentinos chamariam de “ameaça” — feita pelo presidente Javier Milei em 2025. O ato fúnebre, nesta terça-feira, 17/3, deixa o país mais vulnerável, na avaliação de profissionais de Saúde da Argentina.

A saída da OMS é “infeliz, inoportuna e perigosa” para a saúde de todos os argentinos, afirmou o Conselho Superior da Ordem dos Médicos da Província de Buenos Aires, em nota publicada na terça a saída.

“A forma sem precedentes desta decisão responde apenas a esse novo mecanismo de espelhar as ações do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sem considerar as consequências que tal medida gera”, avaliou o capítulo argentino da Associação Latino América de Medicina Social e Saúde Coletiva (Alames).

A Alames-Argentina destacou que o país depende da importação de tecnologia na área da saúde, e a ruptura com a OMS o deixa vulnerável. “Ao colocar em risco o acesso a essa tecnologia, dificultam-se diagnósticos e tratamentos, com respostas rápidas diante de estados críticos resultantes de emergências sanitárias, como a última pandemia e a atual ameaça de dengue”, afirmou em artigo, publicado após o anúncio da saída.

“Embora alguns neguem, a saúde não se resolve sozinha nem de forma individual. A decisão tomada pelo governo nacional desprotege todos os argentinos”, concluiu a Alames-Argentina.

Ao afirmar que deixaria a OMS, logo após o anúncio de Trump, Milei citou a gestão da pandemia de covid-19 pela organização internacional. Criticou a quarentena (“coisa do tempo das cavernas”), ignorando que estudos demonstram que o isolamento evitou milhões de mortes.

Em em rede social, o ministro das Relações Exteriores, Pablo Quirno, sinalizou que a cooperação internacional em Saúde continuará por meio de acordos bilaterais e fóruns regionais. Acordos bilaterais são a base do novo paradigma da Casa Branca, America First Global Health Strategy (“Estratégia de Saúde Global – América Primeiro”). 

Patentes e genéricos

A Argentina revogou, na quarta-feira, 18/3, o Regulamento 118 sobre patentes farmacêuticas. Em vigor desde 2012, a normativa protegia a produção local de genéricos. A revogação era uma demanda dos Estados Unidos, e pode encarecer preços dos remédios no país.

O efeito da saída da OMS sobre o acesso a vacinas e medicamentos preocupa a Fundação GEP, integrante da Rede Latino-Americana por Acesso a Medicamentos (RedLAM). Em em artigo, a GEP alertou que a ruptura com a OMS impossibilita a participação do país na “definição de políticas públicas” e enfraqueceria a abordagem de doenças raras e nos enfraqueceria em termos de preparação e organização diante de futuras pandemias”.

Reportagem: Cebes/Clara Fagundes