Santarém: povos do Baixo Tapajós ocupam acesso ao terminal da Cargill e contestam decreto das hidrovias
Protesto questiona inclusão de rios no PND sem consulta a povos tradicionais e reforça urgência do debate sobre racismo ambiental e justiça climática
Há duas semanas povos indígenas do Baixo Tapajós e movimentos socioambientais ocupam o acesso ao terminal da Cargill, em Santarém (PA). O movimento exige a revogação do Decreto 2.600/2025, que abre caminho para dragagem do rio e autoriza concessão de hidrovias à iniciativa privada.
O protesto, iniciado em 22 de janeiro, interrompe o fluxo de caminhões na entrada do terminal e recoloca no centro do debate uma questão fundamental sobre quem decide o destino dos rios e demais áreas de preservação. Para as comunidades do Tapajós, a discussão não é apenas sobre infraestrutura. É sobre território, água, alimentação, mobilidade e proteção.
Pelo menos 14 etnias participam do movimento de resistência. O decreto que inclui as hidrovias dos rios Tapajós, Madeira e Tocantins no Programa Nacional de Desestatização (PND), é questionado pela ausência de consulta aos povos tradicionais da região.
Em um contexto de crise climática, a disputa em torno das hidrovias evidencia como decisões sobre uso do território e “desenvolvimento” podem aprofundar desigualdades e ampliar riscos à saúde e à vida de populações já vulnerabilizadas. É nesse cruzamento entre ambiente, clima, direitos e proteção social que ganha força o debate sobre racismo ambiental e justiça climática, com impactos diretos no acesso à água, na segurança alimentar, na permanência no território e na própria capacidade de resposta das redes locais de cuidado.
Para ampliar essa reflexão e fortalecer a produção de conhecimento comprometida com reparação e equidade, a revista Saúde em Debate está com chamada aberta para a edição especial “Racismo Ambiental, Justiça Climática e Reparação”, editada pelo Cebes em parceria com a Ensp/Fiocruz. O prazo para submissão de artigos foi prorrogado para 1º de março de 2026.
Reportagem: Fernanda Regina da Cunha/Cebes
