Saúde em Debate publica ensaio sobre One Health e disputas em torno da saúde coletiva
Em One Health como disputa de hegemonia: uma resposta na perspectiva da saúde coletiva, autores analisam a abordagem como expressão de disputas políticas, epistêmicas e institucionais no campo da saúde.
A nova edição da revista Saúde em Debate, número 149, do volume 50, traz o ensaio “One Health como disputa de hegemonia: uma resposta na perspectiva da saúde coletiva”, assinado por Lia Giraldo da Silva Augusto, Carlos Fidelis Ponte, Anamaria Testa Tambellini, Heleno Rodrigues Corrêa Filho, Marcelo Firpo Porto, Karen Friedrich e Ana Maria Costa*.
O texto analisa criticamente a indução da abordagem One Health, ou Uma Só Saúde, no Brasil, situando o debate no contexto das crises sanitária, ecológica e climática contemporâneas. Para os autores, embora a articulação entre saúde humana, animal e ambiente seja apresentada como novidade, a proposta retoma modelos explicativos já conhecidos no campo da saúde pública, especialmente a tríade agente-hospedeiro-ambiente.
Na avaliação dos autores, essa formulação entra em tensão com a tradição da saúde coletiva latino-americana e brasileira, construída a partir da compreensão da determinação social do processo saúde-doença. Essa perspectiva foi central para a Reforma Sanitária Brasileira, para a criação do SUS e para a defesa do conceito ampliado de saúde inscrito na Constituição Federal de 1988.
O ensaio argumenta que a One Health deve ser compreendida não apenas como abordagem técnica, mas como parte de uma disputa mais ampla sobre os sentidos da saúde, da soberania sanitária e da formulação de políticas públicas. Como destacam os autores, o artigo analisa a OH “não como uma proposição nova, mas como um processo de disputa por hegemonia”.
A crítica apresentada no texto se concentra, entre outros pontos, no modo como a abordagem vem sendo incorporada no país. Os autores apontam a verticalidade do processo, a ausência de debate amplo com instâncias históricas de participação social e a adoção de uma narrativa considerada totalizante, que tende a simplificar conflitos e desigualdades presentes nas relações entre sociedade, natureza, trabalho, produção e território.
Ao longo do ensaio, os autores também discutem o papel de organismos multilaterais, fundações internacionais, interesses corporativos e setores econômicos, especialmente o agronegócio, na difusão de respostas globais para crises sanitárias. Para eles, a abordagem One Health oferece respostas limitadas quando não enfrenta os processos estruturais de expropriação da natureza, precarização do trabalho, desigualdades sociais e degradação ambiental.
A publicação chama atenção para o risco de retrocessos na compreensão da saúde, caso modelos biomédicos e funcionalistas se sobreponham à tradição crítica da saúde coletiva. Em vez de tratar zoonoses, epizootias, mudanças climáticas e colapso ecológico de forma linear, os autores defendem a necessidade de análises capazes de enfrentar a complexidade dos processos sociais, ambientais, econômicos e políticos que produzem adoecimento.
Leia o ensaio completo clicando aqui.
*Sobre os autores:
Lia Giraldo da Silva Augusto
Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), GT Saúde e Ambiente – Rio de Janeiro. (RJ), Brasil. 2 Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), Rede Interseccional de Saúde Reprodutiva e Agrotóxicos – Rio de Janeiro (RJ), Brasil.
Carlos Fidelis Ponte
Centro Brasileiro de Estudos de Saúde (Cebes) – Rio de Janeiro (RJ), Brasil. Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Casa de Oswaldo Cruz (COC) – Rio de Janeiro (RJ), Brasil.
Anamaria Testa Tambellini
Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), GT Saúde e Ambiente – Rio de Janeiro. (RJ), Brasil.
Heleno Rodrigues Corrêa Filho
Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), GT Saúde e Ambiente – Rio de Janeiro. (RJ), Brasil. Centro Brasileiro de Estudos de Saúde (Cebes) – Rio de Janeiro (RJ), Brasil.
Marcelo Firpo Porto
Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (Ensp), Núcleo Ecologias, Epistemologias e Promoção Emancipatória da Saúde (Neepes) – Rio de Janeiro (RJ), Brasil.
Karen Friedrich
Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), GT Saúde e Ambiente – Rio de Janeiro. (RJ), Brasil. Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (Ensp), Centro de Estudos em Saúde do Trabalhador e Ecologia Humana (Cesteh) – Rio de Janeiro (RJ), Brasil.
Ana Maria Costa
Centro Brasileiro de Estudos de Saúde (Cebes) – Rio de Janeiro (RJ), Brasil. Universidade do Distrito Federal (UnDF), Escola Superior de Ciências da Saúde (ESCS) – Brasília (DF), Brasil.

