Saúde ou mercadoria? Enamed alerta para riscos na formação médica no Brasil
Três a cada dez faculdades avaliadas tiveram resultado insatisfatório na avaliação do MEC. A professora da UFG e integrante do Cebes, Cristiane Lemos, afirma que o exame mostra uma realidade que já estava indicada.
O Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed) acendeu um alerta sobre a formação de profissionais da área no Brasil, especialmente em instituições privadas. O exame, em sua primeira edição, mostrou que três a cada dez cursos de medicina do país tiveram desempenho considerado insatisfatório.
O BdF Entrevista desta quarta-feira (4) debate o tema com a professora Cristiane Lemos, da Universidade Federal de Goiás (UFG) e integrante do Centro Brasileiro de Estudos de Saúde (Cebes), que afirma que o exame mostra uma realidade que já estava indicada.
“Por mais que uma avaliação tenha os seus limites e não seja perfeita, ela traz um pouco desse cenário que já nos preocupava, que é o contexto da educação médica no Brasil, da formação médica. Historicamente é uma preocupação”, afirmou.
A especialista aponta que há preocupação com a ampliação dos cursos de medicina em faculdades privadas. Entre os 99 cursos que passarão a ser supervisionados pelo MEC após desempenho ruim no Enamed, apenas quatro são públicas.
“Então a pergunta é: nós estamos aumentando o número de faculdades de medicina para atender quem? A população ou um nicho mercadológico que lucra com essas faculdades de medicina, que sabemos que são caríssimas?”, indagou.
Ao relatar um episódio pessoal, quando sentiu dores e supôs que poderia estar com apendicite, Cristiane disse que se preocupou ao ser atendida por uma médica jovem em um serviço de emergência, e depois foi checar o local de formação.
“Eu acho que todo mundo agora vai passar por isso: todo mundo agora vai ficar preocupado. ‘Eu estou sendo atendido por alguém que fez uma boa formação?’”, indagou.
A professora, que é médica e doutora em educação, aponta que os resultados do exame abrem espaço para discutir a questão da educação médica no país: se visa avanços na saúde ou se é apenas mercadoria.
“Elas [as faculdades privadas] têm um negócio muito atrativo, porque os estudantes veem no curso de medicina uma possibilidade de ascensão social. Abrir uma faculdade de medicina é certeza que vai dar certo, porque vai atrair muitas pessoas”, complementou.
Durante a entrevista, a especialista reconheceu que o Brasil teve, por muito tempo, grande defasagem de profissionais, mas avalia que o aumento no número de cursos foi exagerado. Nesse contexto, o programa Mais Médicos foi importante para ajudar a sanar parte do problema.
“O Mais Médicos foi importante, porque havia municípios que nunca tinham visto o rosto de um médico. A gente não pode deixar de mostrar a importância disso. A gente precisa de uma política de Estado, e não de governo, que olhe seriamente para essa questão da formação médica”, alertou.
“Ainda há problemas de regionalização. Para atrair médicos para essas regiões que têm menor densidade de profissionais, não basta formar. Precisa também ter atrativos, ter estrutura, salários”, concluiu.
Para ouvir e assistir
O BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 16h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo. No YouTube do Brasil de Fato, o programa é veiculado às 19h

Editado por: Nathallia Fonseca | Brasil de Fato
