Silenciando a arte, adoecendo o mundo: a guerra que ultrapassa fronteiras
A morte de Dorgham Qreaiqea expõe o impacto global da guerra contra a arte e a vida.
Mais de 500 palestinos foram mortos desde que Israel rompeu o cessar-fogo em Gaza, na última terça-feira (18). A nova ofensiva militar atinge uma população civil já massacrada por meses de ataques, deslocamentos forçados e bloqueios. Entre as vítimas está Dorgham Qreaiqea, um jovem artista palestino de 28 anos, assassinado junto com sua família.
Dorgham não empunhava armas. Empunhava pincéis. Seu ateliê e sua casa já haviam sido destruídos por bombardeios anteriores. Ainda assim, ele insistia em reconstruir não apenas sua vida, mas também a esperança coletiva — especialmente das crianças. Dorgham promovia atividades culturais e de lazer em meio aos escombros, criando espaços simbólicos de afeto e resistência em um território devastado.
A arte que ele fazia não era neutra. Era um gesto radical de sobrevivência. Uma declaração de que a vida ainda pulsa, mesmo diante da barbárie. Por isso, talvez, tenha sido também um alvo.
É difícil não sermos atravessados por uma profunda sensação de impotência diante desse massacre, que se desdobra a céu aberto enquanto o mundo parece hesitar. Essa impotência não é apenas a de quem assiste de longe. É a de quem sente que as palavras já não bastam, que as denúncias se perdem em meio à indiferença internacional, que a dignidade humana é relativizada conforme a geopolítica.
E, no entanto, é justamente nesse momento que mais precisamos afirmar a vida — e a arte — como formas de resistência.
A extrema direita, em diferentes partes do mundo, tem demonstrado sistematicamente seu desprezo pela arte. Porque arte questiona. Desafia. Traz complexidade onde o autoritarismo exige obediência cega. Levar arte às crianças de Gaza, nesse contexto, era um ato político. Era ensinar a imaginar outros futuros possíveis. E isso, para regimes que se alimentam do medo, é inaceitável é dolorido.
A tragédia em Gaza, com a morte de Dorgham Qreaiqea como símbolo, não é um caso isolado. É um reflexo de um mundo em que as ameaças autoritárias se multiplicam, os direitos se retraem e a barbárie ganha novas roupagens. Diante disso, é urgente que reafirmemos, sem hesitação, o valor da empatia, da solidariedade e da criação coletiva.
Essa situação também é um alerta à saúde mundial. Não é possível assistir impunemente à destruição de vidas e territórios sem consequências psíquicas e emocionais. A exposição constante à violência, à injustiça e ao horror afeta o bem-estar individual e coletivo. O sofrimento dos que vivem sob bombas se expande, atravessa fronteiras e atinge também os que, de longe, sentem a dor da impotência, da indignação e do luto.
Dorgham nos deixa um legado que não pode ser enterrado com os corpos que hoje enchem as valas comuns de Gaza. Ele nos lembra que, diante do horror, o silêncio é cumplicidade. E que cada gesto de beleza, cada expressão de solidariedade, cada ato de denúncia, importa.
Não podemos aceitar a naturalização do massacre do povo palestino. Não podemos aceitar que vidas sejam apagadas sob o pretexto da guerra. Que a morte de Dorgham e de todos os demais inocentes, nos convoque a manter viva a arte, a memória e a luta por justiça.
Por Fernanda Regina – Jornalista Cebes

