Visão do Correio : O câncer e o SUS

Correio Braziliense – 06/11/2011

A doença do ex-presidente Lula jogou luz sobre a qualidade dos serviços públicos de saúde oferecidos à população. Mais precisamente: sobre o atendimento aos portadores de câncer. Segundo as estatísticas oficiais, são 500 mil novos casos por ano. Especialistas consideram o número subestimado. A cifra beiraria 1 milhão. A mudança de mentalidade dos brasileiros contribuirá para ajustar os registros.

Há pouco mais de uma década, os enfermos escondiam o diagnóstico. Adultos e crianças evitavam pronunciar a palavra câncer, certos de que a simples referência ao vocábulo tinha o poder de atrair o mal. Quando Mário Covas, nos fins dos anos 1990, disse diante de microfones e câmeras que sofria de câncer, encorajou outros a fazê-lo. Mais recentemente, José Alencar, Dilma Rousseff e agora Lula seguiram o exemplo do então governador paulista.

A guinada no comportamento tem consequências. De um lado, levará mais cidadãos a procurar socorro. De outro, mostrará o tamanho real da população que padece da doença. Melhora no rastreamento significa diagnóstico precoce e aumento das possibilidades de cura. Nos Estados Unidos, por exemplo, 70% dos pacientes recuperam plenamente a saúde. No Brasil, a história tem outro enredo.

No SUS, as necessidades são ilimitadas e os recursos limitados. A medicina está cada vez mais sofisticada e cara. Apenas 45 milhões de pessoas têm planos de saúde privados. O restante da população — 155 milhões — recorre ao sistema público. Mais: muitos dos segurados batem à porta das instituições do Estado quando necessitam de tratamento de alta complexidade.

Unidades da Federação contam com órgãos públicos de excelência em oncologia. Entre eles, São Paulo, Rio de Janeiro e Distrito Federal. Não significa, porém, que paulistas, fluminenses e candangos sejam ilhas de privilegiados no arquipélago nacional. O problema: a quantidade de pessoas que demandam os serviços torna o atendimento demorado. As que têm acesso recebem cuidados segundo protocolos reconhecidos por associações científicas. As preteridas têm a doença agravada e, claro, a vida posta em risco.

Se o quadro é dramático com as estatísticas subestimadas, que se dirá quando todos exigirem socorro? Eis o desafio do SUS: oferecer o suficiente aos que necessitam. O salto qualitativo passa por aumento dos recursos e gestão profissional. Médicos, por mais qualificados que sejam, não são administradores capazes de responder às demandas da burocracia e da legislação. Impõe-se pôr o sistema nos trilhos.

O SUS, apesar das imperfeições, exibe histórico de bons serviços. Os programas de vacinação e de controle do HIV/Aids servem de modelo para a Organização Mundial da Saúde. A redução drástica da transmissão por insetos da doença de Chagas e da malária diminuiu o número de óbitos e de internações. A rede de hemocentros fez despencar os males transmitidos por sangue. Impõe-se avançar: regionalizar políticas, expandir a atenção primária à saúde, melhorar a infraestrutura de atendimento. Com medidas eficazes, o câncer será uma palavra. Não mais uma sentença de morte.