Mulheres, querência e empoderamento

Mulheres, querência e empoderamento

Luciane Udovic*

 

O caminho do empoderamento depende de várias questões. Acesso à informação, linguagem, vontade, casualidade. Muitas questões mesmo. Mas se não passar pela querência esse caminho não se completa, sequer tem início.

 

Nosso Aurélio define “querência” como o lugar onde as pessoas nascem ou vivem. Nas voltas que as palavras dão, os significados vão se somando, não perdendo sua essência. Por isso, nas subjetividades o lugar onde se nasce está sempre dentro da gente, passando pelo coração, sempre pulsante. A partir disso vamos definindo que lugar queremos e como queremos esse lugar.

 

Assim, colocamos nossa tríade mulheres-querência-empoderamento e temos como referência as mulheres que fazem parte do projeto Direitos Sociais e Saúde: Fortalecendo a Cidadania e a Incidência Política. Em 2015, o projeto, cofinanciado pela União Europeia, tinha início em comunidades vulnerabilizadas pelo Estado no quesito saúde, na Zona Norte de Natal, no Rio Grande do Norte; na comunidade Cantinho do Céu, zona marginalizada do Grajaú; em no Alvarenga, em São Bernardo do Campo, em São Paulo.

 

No decorrer do processo, vimos a presença feminina dominar majoritariamente nas formações e demais atividades do projeto. No começo uma presença tímida, ouvinte, olhares curiosos e sensíveis. Afinal, deveriam pensar, “o que querem essas pessoas aqui, nos lugares onde vivemos, nos nossos territórios, falando sobre o Sistema Único de Saúde? ”.

 

Ainda assim elas percebiam que ali se tratava de algo importante. A informação é libertadora e questionadora. E íamos seguindo juntas nas discussões, que já se concretizavam em atos, em presenças nos espaços importantes de participação popular, em reuniões que deliberam sobre os rumos da saúde nas localidades.

 

Hoje temos conselheiras em Unidades Básicas de Saúde locais, mulheres na Comissão de Saúde em Câmaras Municipais; delegadas em conferências, realizadoras de Audiências Públicas. Mulheres que lutam por uma saúde pública de qualidade, atuantes na coletividade – o que é bem importante. Vale salientar que num contexto machista e marginalizado onde nossas comunidades se encontram isto é uma conquista. E que conquista!

 

De forma alguma os créditos de todo esse histórico que, já segue em seu terceiro ano vão para o projeto. Plantamos uma semente, isso é verdade. Se essa semente germinou, brotou, deu frutos, se hoje está frondosa e crescendo, se há quem regue e cuide com carinho, isso vem de um processo de entrega e vontade. Jamais poderíamos avançar só nessa trajetória.

 

As mulheres do projeto Direitos Sociais e Saúde: Fortalecendo a Cidadania são estudos de caso de si mesmas. São elas que contam suas histórias, empoderadas no lugar onde vivem. Nós, do projeto, apenas observamos esse empoderamento, muitas vezes com lágrimas nos olhos e com um orgulho imenso.

 

Elas têm voz própria e são essas vozes que hoje gritam, sejam nas periferias, comunidades ou bairros: “O SUS é nosso, é do povo! Nós defendemos o SUS!”. Sabemos que é uma luta, mas sabemos que não estamos sós.

 

*Luciane Udovic é do Grito dos Excluídos Continental e da coordenação nacional do Projeto Direitos Sociais e Saúde – Fortalecendo a Cidadania e a Incidência Política



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