Krenak – Nós somos o obstáculo à metástase do capitalismo

Krenak – Nós somos o obstáculo à metástase do capitalismo

Esta disputa do marco temporal simplesmente aflora uma velha e manjada questão que está sempre oculta: o Brasil toma terra dos índios e não dá nada em troca”. A opinião é do líder indígena Ailton Krenak, que falou sobre terra, saúde, cidadania e a resiliência histórica dos povos indígenas, durante o programa CEBES Debate, do Centro Brasileiro de Estudos de Saúde. 

Numa conversa com médicos sanitaristas e diretores do CEBES, Krenak salienta que não tem como negar que os povos indígenas prestam um serviço inestimável ao clima global. Os programas sobre meio ambiente da FAO e da própria ONU, tem reconhecido que o modo de estar na terra que os povos originários praticam, produz vida e regenera o ecossistema. E Krenak fala dos povos indígenas de todo o planeta, estimados pela ONU em 400 milhões de pessoas. Quem trata estes povos originários de minoria desconhecem completamente esta realidade, pois são muito mais numerosos que vários países do Mundo.  

A política do neoliberalismo é que quer tratar os povos indígenas como invisíveis para tomar suas terras, tomar suas vidas e negar suas existências. É uma política de extermínio não só dos corpos destas pessoas mas também de eliminar o comum. Quando todos os povos nativos tiverem sido extirpados, o comum acabou! Só vai existir o individualismo doente do capitalismo. Nós somos um obstáculo à metástase do capitalismo. Quando nós indígenas pararmos de regenerar o organismo Terra, o capitalismo vai comer tudo – falou Krenak. 

Ailton Krenak disse ainda que eles (os capitalistas) acham que os povos indígenas são o vírus, “mas somos o anticorpo contra esta peste capitalista” afirmou. 

Para Krenak, não passa de uma conversa para enganar gente inocente esta história de que os indígenas vão entrar na economia, no agronegócio, vão fazer negócios com mineradoras e vão ser ricos. Segundo o líder indígena, tudo é uma grande picaretagem e afirma em tom de desafio que “em nenhum lugar da América Latina existe povo indígena que especulou com terra, com garimpo, com mineração e ficou rico”.  

SAÚDE É TERRA 

O líder indígena Ailton Krenak lembrou que antes mesmo da criação do SUS, o sistema de saúde dos povos indígenas era reverenciado pelos grandes sanitaristas brasileiros. Médicos sanitaristas como Roberto Baruzzi e Noel Nutels, entre outros já estavam se aproximando da medicina indígena com a intenção de crias vizinhança, colaboração.  

Os povos não indígenas pensam a saúde de forma incompatível com o que pensam os povos indígenas. Os não indígenas pensam na doença, em hospitais, em intervenção e o povo nativo pensa em cuidado com a vida e percebem a vida como uma potência capaz de dar resolução às piores crises, inclusive aquelas que são qualificadas como doença. 

Doença é uma crise e ela é confrontada com a potência de organismos colaborativos capazes de produzir saúde, regeneração, vida. São lógicas distintas. No contexto indígena, saúde é terra. Uma política pública para o setor tem que entender estas condições essenciais dos povos indígenas para a saúde de seus povos e para sua cidadania.  

Vivemos um dos piores momentos de ameaça aos direitos indígenas fundamentais e da constituição. No nível legislativo é truculenta desde a votação na comissão de cidadania e justiça de projetos contrários aos interesses dos povos indígenas como o projeto de lei que prevê a revisão do usufruto exclusivo das terras pelos indígenas e inclui a participação dos estados e municípios envolvidos na área disputada (PL 490), o PL da Grilagem, do licenciamento ambiental, culminando com esta tentativa de revisão do marco temporal, que ignora a presença indígena anterior ao Estado brasileiro. O conflito real está na disputa territorial agregado aos interesses econômicos e mantém o histórico e secular processo de violência e negação dos direitos territoriais indígenas, agora, por intermédio de uma interpretação constitucional restritiva e que legitima essas mesmas violências. 

O programa CEBES Debate é uma produção do Centro Brasileiro de Estudos da Saúde (CEBES) e é apresentado todas as segundas-feiras, às 17h, no canal do CEBES, no youtube. 

Assista a íntegra do programa com o líder indígena Ailton Krenak clicando aqui ou a seguir:



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