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Nelson Rodrigues dos Santos – Nelsão

24/08/2026

A utopia construída no chão do SUS

Médico sanitarista, professor e militante da Reforma Sanitária Brasileira, Nelsão fez da defesa do direito universal à saúde um compromisso permanente com a democracia e a transformação social

Para Nelson Rodrigues dos Santos, a construção do Sistema Único de Saúde nunca esteve restrita às leis, aos gabinetes ou às formulações acadêmicas. Antes de ser inscrito na Constituição Federal de 1988, o SUS já começava a nascer nos territórios, nas periferias urbanas, nas pequenas unidades de saúde e nas experiências municipais que buscavam atender uma população historicamente excluída. Conhecido por gerações de sanitaristas como Professor Nelsão, ele não apenas acompanhou esse processo: ajudou a construí-lo.

Graduado em Medicina pela Universidade de São Paulo (USP) em 1961, Nelsão concluiu o doutorado em Medicina Preventiva em 1967 e especializou-se em Saúde Pública. Sua trajetória acadêmica, no entanto, jamais permaneceu confinada aos muros universitários. Desde os primeiros anos de atuação, aproximou ensino, pesquisa, gestão pública e compromisso político com as necessidades concretas da população.

Na Universidade Estadual de Londrina (UEL), onde foi professor titular de Saúde Coletiva, participou, no início dos anos 1970, da implantação de unidades de atenção primária nas periferias urbanas e em áreas rurais. Em um país submetido à ditadura militar e marcado por um sistema de saúde excludente, essas experiências demonstravam, na prática, que era possível organizar serviços públicos próximos das comunidades e orientados pelas necessidades da população.

Como consultor da Organização Pan-Americana da Saúde e da Organização Mundial da Saúde, Nelsão também atuou no Programa de Interiorização das Ações de Saúde e Saneamento (Piass), desenvolvido no Nordeste a partir de 1977. Posteriormente, levou essa experiência para Campinas, onde assumiu a Secretaria Municipal de Saúde em 1983 e participou da consolidação de políticas de atenção primária, descentralização e participação social.

Foi nesse percurso que sua atuação se encontrou de maneira cada vez mais profunda com o Movimento da Reforma Sanitária Brasileira e com o Cebes. De um lado, o Centro Brasileiro de Estudos de Saúde contribuía para formular as bases políticas e teóricas de uma reforma que vinculava saúde, democracia e direitos sociais. De outro, secretários municipais, trabalhadores e comunidades construíam respostas concretas para o abandono vivido nas periferias. Nelsão ajudou a aproximar essas duas forças.

Ele próprio definiria esse encontro, ocorrido de maneira decisiva durante a 8ª Conferência Nacional de Saúde, em 1986, como um “casamento muito bonito”: o encontro entre a elaboração política da Reforma Sanitária e a experiência acumulada nos municípios. A Conferência estabeleceu as bases para a criação de um sistema público, universal, integral, descentralizado e com participação social. Nelsão também participou dos debates da Comissão Nacional da Reforma Sanitária, fundamentais para a elaboração do capítulo da saúde na Constituição de 1988.

Sua contribuição ao Cebes atravessou décadas. Como dirigente, integrante do Conselho Consultivo, autor e presença permanente nos debates da entidade, ajudou a sustentar uma compreensão essencial: a conquista do SUS na Constituição foi histórica, mas não encerrou a disputa pelo direito à saúde.

Nelsão sempre chamou atenção para a distância entre o projeto constitucional e o sistema efetivamente construído. Em suas reflexões, diferenciou o “SUS da Constituição” do “SUS real”, atravessado pelo subfinanciamento, pela expansão do setor privado e pelas desigualdades de acesso. Sua crítica nunca teve como objetivo diminuir o valor do sistema, mas defender sua realização plena.

Para ele, reconhecer as contradições do sistema é parte indispensável da luta para transformá-lo.

Essa defesa também marcou sua atuação como secretário-executivo do Conselho Nacional de Saúde, entre 1997 e 2002, e como presidente do Instituto de Direito Sanitário Aplicado (Idisa), de 2007 a 2019. Atualmente integrante do Conselho Superior e Fiscal do instituto, Nelsão permanece como referência para pesquisadores, gestores, trabalhadores e militantes comprometidos com a universalidade, a integralidade e a equidade.

Ao lado de Elza, sua companheira há décadas, e como pai de Acauã, Hidati, Juliana, Isabela e Fabiano, Nelsão construiu uma trajetória reconhecida não apenas pela consistência intelectual, mas também pela generosidade, pela solidariedade e pela capacidade de formar novas gerações.

Entre as passagens que gosta de recordar está a reflexão de Eduardo Galeano sobre a utopia que se afasta à medida que caminhamos. Sua finalidade, afinal, seria justamente essa; fazer com que não deixemos de caminhar.

A trajetória de Nelson Rodrigues dos Santos guarda o mesmo sentido. Seu legado não pertence apenas ao passado, porque o SUS continua em construção e as forças que procuram restringir a saúde a uma mercadoria permanecem atuantes. Celebrar Nelsão é reconhecer a história de quem ajudou a transformar necessidades populares em experiências concretas, essas experiências em projeto político e esse projeto em direito constitucional.

É também assumir a responsabilidade de continuar caminhando. Porque o SUS defendido por Nelsão – público, universal, integral, equitativo e democrático – ainda precisa ser plenamente realizado.

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