Anatomia do Caos e o dever de não esquecer

* Por Carlos Fidelis da Ponte

Acabo de assistir ao documentário Anatomia do Caos, dirigido por Dandara Ferreira. Trata-se de um registro fundamental sobre a pandemia de Covid-19 no Brasil. Um documentário necessário. Duro. Doloroso. Daqueles que nos obrigam a revisitar um dos períodos mais trágicos da história recente do país.

Como trabalhador e militante da área da saúde, acompanhei de muito perto o drama vivido pela população brasileira. Vi o sofrimento, a angústia das famílias, a dedicação incansável dos profissionais de saúde e a perda irreparável de mais de 700 mil vidas — muitas delas, ao que tudo indica, evitáveis.

O filme resgata um tempo em que a barbárie encontrou seguidores dispostos a transformar a mentira em método e a banalização da morte em instrumento do jogo de poder. Foi a expressão mais cruel daquilo que muitos identificaram como necropolítica. Instalaram-se o caos, a desorientação, o negacionismo científico, a disseminação deliberada de desinformação, a injúria e uma condução que negligenciou a vida, banalizando a morte, justamente quando o país mais precisava de união, solidariedade e confiança na ciência.

É impossível esquecer as cenas daquele período. Carreatas de carros de luxo exigindo a volta imediata ao trabalho enquanto milhares de trabalhadores se espremiam diariamente em transportes públicos superlotados, expostos ao contágio. Pessoas hostilizando quem usava máscaras. Teorias conspiratórias afirmando que hospitais estavam vazios e que caixões continham pedras para inflar artificialmente o número de mortes. A pandemia era apresentada como uma invenção destinada a manipular a sociedade. Foram tempos de terraplanismo político, de promoção da ignorância em escala industrial e de ataque sistemático ao conhecimento científico. Foi também um tempo de desumanização, em que a vida perdeu valor e a dignidade deixou de constituir um limite para a ação política.

Como esquecer Manaus, onde pacientes morreram asfixiados pela falta de oxigênio? Como esquecer profissionais obrigados a decidir quem ainda poderia receber os últimos recursos disponíveis? Como esquecer hospitais que passaram a enfrentar a falta de medicamentos para sedação de pacientes que precisavam ser intubados? Foram cenas dantescas, incompatíveis com um país que se pretendia solidário e cordial.

Lembro-me de acompanhar presencialmente os depoimentos de familiares das vítimas na CPI da Pandemia. Nunca esquecerei o relato de Márcio, pai de uma das vítimas, indignado ao ver as cruzes de um ato pacífico, na praia de Copacabana, em homenagem aos mortos, serem arrancadas por um senhor de classe média que se julgava no direito de apagar o sofrimento de quem pensava diferente. Também não esqueço quando afirmou, diante do país, que a sua dor não era “mimimi”.

Depois da CPI, conversei longamente com Márcio e com outros familiares que prestaram depoimento. Descobri que compartilhávamos muito mais do que opiniões. Compartilhávamos afetos: o gosto pelas festas, pelo Rio de Janeiro, pelos amigos, pelos filhos. As mesmas alegrias, os mesmos sonhos, as mesmas vulnerabilidades. Tudo aquilo que deveria aproximar qualquer ser humano. Mas não foi isso que vivemos. Nos dividimos. Absurdamente nos dividimos.

Não bastou conviver diariamente com a morte. Muitas famílias tiveram também de enfrentar o escárnio, o desprezo, a indiferença e a desumanização. Como se perder um filho, uma mãe, um pai, um irmão ou um amigo não fosse suficiente, ainda precisaram suportar a violência simbólica da boçalidade autoritária, insensível e inconsequente.

Hoje, ao rever aquelas imagens, não consegui conter as lágrimas. A dor permanece. Dor e raiva, somadas a um sentimento de injustiça e indignação. Não apenas pela dimensão da tragédia, mas pela consciência de que ela foi agravada por decisões políticas, pela sabotagem das medidas de proteção e pela recusa deliberada em ouvir a ciência.

O documentário é forte porque não permite que a memória seja apagada. Um país que perdeu mais de 700 mil vidas não pode tratar essa história como um capítulo encerrado. Não podemos relativizar o que aconteceu. Não podemos permitir que a mentira apague os fatos nem que a impunidade transforme uma tragédia dessa dimensão em mais um episódio descartável da vida política nacional.

Dói constatar que, passados tantos anos, não houve responsabilização proporcional à gravidade dos acontecimentos. Mais que isso: não houve sequer responsabilização. A CPI da Pandemia deixou um dos mais extensos conjuntos de documentos, depoimentos e evidências já produzidos pelo Congresso Nacional sobre uma tragédia sanitária. Ainda assim, permanece para muitos brasileiros a sensação de que o país preferiu seguir adiante sem enfrentar plenamente as responsabilidades políticas e institucionais reveladas naquele processo. Também isso faz parte da tragédia.

A pandemia expôs também as fragilidades éticas de parte das nossas elites políticas, econômicas e profissionais. Revelou como a formação técnica, a posição social ou a autoridade institucional não são, por si sós, garantia de compromisso com a vida, com a verdade ou com o interesse público.

A memória é uma forma de justiça. Lembrar é também proteger o futuro. Que Anatomia do Caos seja visto, debatido e preservado como um testemunho de um tempo em que a democracia, a ciência, o Sistema Único de Saúde e a própria ideia de humanidade foram colocados à prova.

Assistir a esse documentário é mais do que um exercício de memória. É um compromisso ético com aqueles que partiram, com os que permaneceram e com as futuras gerações. Esquecer não é apenas faltar com respeito aos que morreram. É abrir caminho para que a história encontre novamente as condições que tornaram possível aquela tragédia. A memória, portanto, não é um gesto voltado para o passado. É uma responsabilidade para com o futuro.

Não podemos esquecer. Não vamos largar a mão daqueles que não largaram as nossas em um dos momentos mais tristes da nossa história. Proteger o SUS, defender a ciência, fortalecer a democracia e honrar a memória daqueles que estiveram ao lado da população brasileira é também uma forma de fazer justiça.

Conheço algumas dessas pessoas. Elas estão na Fiocruz, no Instituto Butantan, nas universidades públicas, nos institutos de pesquisa, nos postos de saúde, nas unidades de pronto atendimento, nos hospitais, nos laboratórios e nos serviços de vigilância sanitária e epidemiológica. Estão também no Cebes, na Abrasco, na Frente pela Vida, na Vida e Justiça, nos conselhos de saúde, nos sindicatos, nos movimentos sociais e em tantas outras instituições e organizações que se recusaram a abandonar a população brasileira.

São profissionais de saúde, pesquisadores, cientistas, trabalhadores do SUS, gestores públicos, técnicos, voluntários, militantes, servidores públicos e parlamentares que escolheram estar ao lado da vida, da ciência e da democracia, mesmo diante da desinformação, do medo, do abandono e das pressões de toda ordem.

É a essas pessoas, aos familiares que transformaram a dor em luta e à memória daqueles que perdemos, que devemos nossa gratidão. É por todos eles que continuaremos defendendo o SUS, a ciência, a democracia e a vida. Porque a memória só cumpre seu papel quando se transforma em compromisso com o futuro.

* Carlos Fidelis da Ponte é presidente do Centro Brasileiro de Estudos (Cebes), pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e membro do Conselho Nacional de Saúde (CNS)