Memorial da Pandemia: Recordar para não repetir
Espaço no Rio de Janeiro resgata história das mais de 700 mil vítimas e marca luta por Memória, Justiça e Reparação

O Centro Brasileiro de Estudos de Saúde (Cebes) participou da inauguração do Memorial da Pandemia, neste 7 de Abril, Dia Mundial da Saúde. Instalado no Centro Cultural do Ministério da Saúde (CCMS), no Rio de Janeiro, o espaço preserva a memória das vítimas da covid-19, e expressa um ideal: que jamais se repita.
“Não podemos esquecer que a pandemia causou 700.000 mortes e que boa parte poderia ter sido evitada se o governo Bolsonaro tivesse acatado as determinações da Organização Mundial de Saúde”, afirma a médica sanitarista Ana Tereza Camargo, diretora-administrativa do Cebes. Pesquisas indicam que 400 mil vidas poderiam ter sido poupadas.
“A criação de um espaço para representar o que nós vivemos no país com a pandemia da covid era uma reivindicação das associações de vítimas da covid desde o início da pandemia. Faltava um memorial que contasse o sofrimento das milhões de pessoas, e a morte de mais de 700 mil durante a maior tragédia sanitária do país”, afirma a médica sanitarista Claudia Travassos, integrante da diretoria-executiva do Cebes e da Associação Vida e Justiça.”
O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, destacou a necessidade de preparar o Brasil para enfrentar futuras pandemias, que certamente virão. Para Claudia Travassos, “lembrar, reviver, discutir, reexperimentar o que vivemos é realmente uma forma de nos preparar e elaborar como teremos e como viveremos uma próxima crise sanitária – que não apenas pandemias, mas também crises climáticas”.
Presente na inauguração, o presidente do Cebes, Carlos Fidelis, destacou a importância da escuta para a elaboração do luto coletivo e construção da consciência histórica. “Não se trata apenas de recordar números ou registrar estatísticas, mas de reconhecer vidas interrompidas, histórias silenciadas e vínculos afetivos desfeitos em escala coletiva. A memória, nesse sentido, cumpre uma função pública essencial: restitui dignidade às vítimas e interpela a sociedade sobre as condições que tornaram possível tamanha tragédia”
Luto, justiça e reparação
Localizado na Praça Quinze, em frente ao mar, o Memorial da Pandemia inclui diferentes instalações que buscam dar dimensão humana à tragédia sanitária. Esculturas externas expressam o sofrimento das pessoas, mas também a solidariedade. Da pandemia, nasceram iniciativas como a Frente pela Vida, que reúne entidades de Saúde.

Foi também inaugurada uma instalação que mostra os nomes das pessoas que faleceram durante a pandemia. Cada uma das 700 mil mortes tem seu nome, a idade, a localização. Elas também estão apresentadas pelas regiões do país, em pilares, com tamanhos diferenciados de acordo com o volume de óbitos.
Além do acervo permanente, o Memorial terá exposições temporárias, inauguradas com “Vida Reinventada”, idealizada pela ex-ministra Nísia Trindade. Claudia Travassos, que participou da construção de acervo integrante da exposição Vida Reinventada, lembra que para alguns, a pandemia foi muito mais dura e dramática. Seis anos após o início da pandemia, o impacto afeta milhões de brasileiros. São mais de 100 mil órfãos. A vida nunca será como antes.
Guia Nacional de Manejo das Condições Pós-Covid
Centenas de milhares convivem com sequelas da covid longa. Durante o evento, foi lançado também versão impressa do Guia Nacional de Manejo das Condições Pós-Covid no âmbito do SUS. Elaborado pelo Ministério da Saúde em parceria com a Fiocruz, o guia consolida orientações para identificação, diagnóstico e tratamento das sequelas persistentes da covid-19.
Memorial Digital da Covid
Foi lançando também, na cerimônia, Memorial Digital da Covid. Fruto de parceria entre o Ministério da Saúde, Organização Panamericana da Saúde (OPAS) e Unicamp, o portal é um repositório que preserva coleções digitais de histórias e memórias da pandemia de covid-19, além de reunir publicações e estudos técnico-científicos. Cada documento preservado é testemunho da experiência brasileira e consolida uma política pública de memória.
Reportagem: Cebes/Clara Fagundes
