Memorial da Pandemia projeta um pacto de Responsabilidade Sanitária
Por Carlos Fidelis*

Dar voz à memória das vítimas da pandemia de Covid-19 constitui um imperativo ético, político e civilizatório. Não se trata apenas de recordar números ou registrar estatísticas, mas de reconhecer vidas interrompidas, histórias silenciadas e vínculos afetivos desfeitos em escala coletiva. A memória, nesse sentido, cumpre uma função pública essencial: restitui dignidade às vítimas e interpela a sociedade sobre as condições que tornaram possível tamanha tragédia.
Iniciativas dedicadas a preservar essa memória merecem reconhecimento e valorização. Ao criar espaços de escuta, registro e elaboração do luto coletivo, elas contribuem para a construção de uma consciência histórica capaz de resistir ao esquecimento e à banalização da morte. São ações que transformam a dor em aprendizado social, reafirmando o valor da vida como princípio orientador das políticas públicas e da ação do Estado.
Nesse horizonte, o Centro Brasileiro de Estudos de Saúde tem defendido a formulação de uma Lei de Responsabilidade Sanitária. Trata-se de uma proposta que vai além do caráter punitivo: busca instituir mecanismos permanentes de preparação, coordenação e resposta a emergências sanitárias, fortalecendo capacidades estatais, articulando ciência, sistema de saúde e base produtiva e reduzindo vulnerabilidades estruturais. Ao transformar a experiência trágica em aprendizado institucional, essa lei pode se constituir em um legado civilizatório fundamental — tanto para as novas gerações quanto para a construção cotidiana do presente.
Projetar essa memória no futuro é decisivo para que jamais se repitam práticas negacionistas e formas de gestão da morte associadas ao que Achille Mbembe denomina necropolítica. Ao manter viva a memória, reforça-se a exigência de responsabilidade, transparência e compromisso com a ciência e com a proteção da vida, impedindo que a morte evitável seja naturalizada ou instrumentalizada.
Esse debate ganha ainda mais relevância em um contexto de escolhas políticas decisivas. Diante de tentativas de reduzir o debate público a uma arena superficial, marcada por manipulações, espetacularização e pela centralidade de agendas de costumes tratadas de forma preconceituosa e circense, torna-se urgente recolocar no centro da agenda nacional um projeto de país — civilizatório e inclusivo, comprometido com a democracia, a sustentabilidade e a soberania.
Mais do que um gesto de homenagem, lembrar é um ato político no sentido mais profundo: afirmar valores, orientar escolhas e disputar o futuro. A memória das vítimas da pandemia deve, portanto, servir como fundamento para a construção de um Brasil que coloque a vida no centro — não como retórica, mas como princípio organizador das instituições, das políticas públicas e da própria ideia de nação.
*Carlos Fidelis é presidente do Centro Brasileiro de Estudos de Saúde (Cebes), historiador, pesquisador da Fiocruz e integra o Conselho Nacional de Saúde
