‘Não sou um caso isolado’, diz aluna vítima de estupro em festa da USP

'Não sou um caso isolado', diz aluna vítima de estupro em festa da USP

A estudante de medicina da Universidade de São Paulo que denunciou ter sido vítima de crime de estupro durante uma festa de estudantes em abril de 2011 afirma que não é um caso isolado nem dentro da universidade nem dentro da Faculdade de Medicina da USP. Ela afirma ainda que não recebeu apoio nem acolhimento. “Eu sou mais um dos casos. Tenho colegas aqui dentro da faculdade que foram estupradas e nunca chegaram a denunciar. A gente não tem vias para denunciar, não existe apoio, não existe acolhimento. Aqui na Faculdade de Medicina acontece, acontece em outras partes do campus, com certeza não sou um caso isolado”, disse ao G1 a estudante, hoje com 23 anos.

 

Eu sou mais um dos casos, eu tenho colegas aqui dentro da faculdade que foram estupradas e nunca chegaram a denunciar”. Estudante vítima da estupro.

 

Apesar de o inquérito ainda não ter sido concluído mais de três anos após o crime, a delegada que cuida do caso, Celi Carlota, da 1ª Delegacia de Defesa da Mulher de São Paulo, afirmou já ter elementos suficientes para indiciar o suspeito pelo crime de estupro. O caso aconteceu em uma festa chamada “Carecas do Bosque” na noite do dia 2 de abril de 2011. De acordo com a delegada, o suspeito é um homem que trabalhava com manutenção de ar condicionado no prédio da faculdade. Ele foi ouvido durante o inquérito e negou o crime.

A vítima era caloura na época. Ela explicou que, depois de beber demais, foi deixada por um amigo dormindo em um recinto privado no espaço da festa chamado “cafofo”, para onde organizadores das festas levavam mulheres. Quando o amigo retornou, um homem foi flagrado de calças abaixadas mantendo relações com ela. O suspeito chegou a apanhar de um estudante de medicina e foi agarrado por um segurança da festa, mas acabou sendo liberado e nunca foi preso.

Segundo a jovem, depois do que aconteceu com ela, os organizadores dos eventos fizeram algumas mudanças para evitar novos casos de estupro, mas que elas já deixaram de ser implementadas. “Na época, quando aconteceu, acho que fizeram mudanças, tiraram os ‘cafofos’, pararam de levar prostitutas, mas depois retornou tudo a mesma coisa”, contou a jovem, que cursa o quarto ano do curso de graduação em medicina.

Procurada pelo G1, a atual diretoria da Associação Atlética Acadêmica Oswaldo Cruz afirmou na noite desta quinta-feira (21) que, no momento, não tem nada a declarar sobre o caso e que atualmente está discutindo o assunto com seus advogados.

Em nota, a Faculdade de Medicina da USP diz que “nenhuma comunicação foi feita pela vítima à Diretoria ou à Comissão de Graduação da Faculdade na época. A referida aluna procurou o Grapal (centro que fornece atendimento psicológico e psiquiátrico aos estudantes sempre que eles necessitam) que, por questões éticas, não pode relatar os casos tratados às instâncias superiores da Instituição.” A faculdade afirmou que vai dar apoio jurídico e psicossocial à estudante. Também está em implantação um Centro de Acolhimento, onde os alunos poderão registrar suas denúncias e receber o apoio da Instituição.

 

Busca por testemunhas

A estudante diz que registrou o boletim de ocorrência de estupro e passou seis meses tentando falar com as pessoas envolvidas para pedir que elas testemunhassem, mas a maioria dava respostas vagas e dizia para ela que seria difícil comprovar o crime.

Os próprios advogados a desencorajaram. Ela só decidiu retomar a pressão pela investigação em 2013, quando um caso de tentativa de estupro de uma outra aluna da medicina inspirou a mobilização das mulheres da faculdade e a fundação do Coletivo Feminista Geni, que hoje se reúne duas vezes ao mês e participa de reuniões com diversas comissões para abordar a questão da violência dentro da USP.

 

2011flyercarecas520xLeia a seguir o relato da estudante sobre o caso:

Inconsciente na barraca

“Eu estava ficando com um dos meninos, entrei na tenda com ele. Eu estava muito mal, e ele me deixou lá dormindo. E eu fiquei lá. Me lembro que estava ficando com ele, a gente entrou na barraca, ele me deixou lá dormindo e aí não tenho mais memória. Só fui tomar consciência quando já estava no Pronto-Socorro do HC [Hospital das Clínicas].

Estava em uma sala de atendimento junto com uma médica, uma diretora da Atlética e uma [estudante] externa, ela era interna na época. Foi quando eu tomei consciência e a diretora da Atlética falou que achava que eu tinha sido abusada. Eu falei ‘imagina, não aconteceu nada’.

A médica perguntou se eu não queria ser examinada e eu falei: ‘por que eu deveria ser examinada, se não aconteceu nada?’. Aí eu saí da sala, fiquei um pouco no hospital. Ainda estava um pouco embriagada. Me deram alguma coisa para comer, me levaram para a casa de um menino da Atlética, e aí ele começou a conversar comigo, falou que mesmo achando que não tinha acontecido nada era bom eu voltar para o hospital para tomar terapia antiretroviral só por precaução.”

Só fiquei sabendo na consulta com o infectologista, quando o menino contou o que tinha acontecido na frente do infectologista. Que eu estava desacordava e que encontraram o cara em cima de mim. Fiquei totalmente perturbada, comecei a chorar”. Estudante vítima de estupro.

Quando recebeu a informação

“Só fiquei sabendo na consulta com o infectologista, quando o menino contou o que tinha acontecido na frente do infectologista. Que eu estava desacordava e que encontraram o cara em cima de mim e ele tinha, tipo, transado comigo sem camisinha. Fiquei totalmente perturbada, comecei a chorar compulsivamente, queria entender o que tinha acontecido.

Perguntaram para o menino, mas ele disse que ele não estava lá, que não sabia, que eu teria que perguntar para a outra pessoa que estava lá, que era o menino que realmente tinha me achado. E aí eu fiz exame de sangue, fiz a sorologia, fiquei no hospital um tempão, fiz a terapia antiretroviral.”

Investigação lenta

“Durante seis meses fui muito atrás das testemunhas. Conversava com as pessoas que estavam envolvidas, perguntava para elas se poderiam depor, e sentia que elas eram muito recuadas, que sempre reforçavam que eu não ia conseguir provar, que eu tinha que desencanar, que eu precisava tocar a minha vida.

Fui desistindo, fui conversar com os advogados que estavam me acompanhando na época e eles mesmos falavam que os depoimentos que tinham até então estavam muito leves, inclusive cheguei a perguntar se a testemunha principal tinha ido depor e eles falaram que sim, o que não era verdade porque ele só foi fazer o depoimento neste ano. Eles falaram que mesmo com o depoimento dessa testemunha principal estava tudo muito incerto, que era melhor eu deixar pra lá. E aí eu deixei.”

Caso retomado e justiça

“Recentemente, depois que aconteceu essa retomada desse outro caso de assédio que veio a público [o de 2013, que motivou a fundação do Coletivo Feminista Geni], foi tudo meio acontecendo por acaso. Encontrei a testemunha principal na rua, ele veio falar comigo, veio falar que tinha sido chamado para depor recentemente, e eu fiquei super surpresa porque para mim ele já tinha ido depor. Depois de três anos, ele que é a testemunha principal não foi depor, então o caso não teve andamento nenhum.

Aí que comecei a entrar em contato com uma advogada que é muito de confiança, e ela começou a acompanhar mais o caso. Acho que [o indiciamento do suspeito] é o que tinha que acontecer mesmo, porque não dá pra ficar impune assim, entendeu? Para mim é muito importante que a justiça seja feita.”

Terapia para lidar com a violência

“Acho que eu tive uma condição em que tive muito apoio da minha família para denunciar, acho que eu já tinha uma certa consciência do que tinha acontecido comigo. Muitas vezes as mulheres sofrem assédio e nem acham que sofreram assédio, só vão se dar conta depois, e aí já não têm mais coragem de denunciar.

Comigo também não foi fácil, fui muito desencorajada no começo por uma série de circunstâncias e só consegui retomar isso três anos depois, depois de muita terapia, e muita elaboração em torno disso. Com certeza é muito difícil para as mulheres procurarem acolhimento e justiça. Existe um processo todo de negação que é bem complicado. E ainda sem acolhimento nenhum, sem mecanismo nenhum, fica muito difícil.”

Inspiração para outras mulheres

“Estou sentindo uma repercussão boa, principalmente das pessoas próximas, que convivem comigo. Estou recebendo muitas mensagens de apoio, dizendo ‘a gente está aqui para te apoiar’. Espero que as meninas comecem a denunciar para acabar esse tipo de violência.”

 

Fonte: G1



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