Rejeição aos políticos e à política

Rejeição aos políticos e à política

Lenir Santos

 

Em tempos de nova conformação da sociedade global, mergulhada nas redes sociais e no acesso à informação online das mídias e organizações, ficou difícil ignorar o que se passa no mundo público. Trump, Putin, Temer, Maia, Moro, Carmem Lúcia, Merck estão no nosso cotidiano, para o bem e para o mal, queiramos ou não. Como a corrupção – de tempos imemoriáveis – ganhou visibilidade, como também cresceu pelo maior número de políticos nas casas legislativas e em cargos de confiança do Executivo e também de empresas que negociam com o Estado, foi dado ao público conhecer o que antes ficava só entre as elites e isso implodiu o pensamento político do cidadão.

 

A desonestidade sempre existiu e sempre existirá, bastando se aprofundar um pouco mais nas teorias freudianas (que a política não considera, mas deveria). Se antes as penas eram mais severas, os julgamentos e suas estruturas, eram mais primárias. Foi a evolução social, fundada na capacidade de adaptação e cooperação e no desejo que desacomoda, que levou a humanidade a superar epidemias, holocaustos, guerras, privações e desenvolver sistemas políticos democráticos com voz e voto e demais mecanismos institucionais.

 

Chatal Mouffe separa o político da política, com o político sendo a forma como a sociedade é fundada, a sua essência, e a política as diferentes práticas de organização social próprias de cada sociedade.

 

Estamos a viver grave crise na política e também na compreensão do conflito como constitutivo do político. O mundo social, no dizer da filósofa, tem natureza pluralista, com todas as suas consequências, como diferenças, conflitos, antagonismos – que nunca serão sanados dada a diversidade de pontos de vista e valores próprios das pessoas em sociedade. Esse caldo social pode e deve ser considerado como da natureza do político e visto como natural, que não pode ser suprimido por impossível, devendo sim ser harmonizado para não se perder a dimensão de que o antagônico[1] é parte da sociedade.

 

A crise está tanto no político como na política na medida em que não se reconhece que as práticas políticas devem se dar em acordo à dimensão do político que é conviver com os conflitos, sem criar inimigos, sem eliminação do divergente. As práticas políticas precisam dar conta desse convívio, sem pensar que se pode suprimir as diferenças. O mérito da política é saber viver nos conflitos, respeitando quem ganhou e quem perdeu e continuar a luta pela conquista de ideias, sem medo de ser eliminado como inimigo. As instituições devem ser criadas de modo a contribuir para isso. O nosso país se perdeu neste caminho, primeiro tentando governo de coalizão, como se fosse possível eliminar o conflito; depois criando inimigos públicos para preservar o sobrevivente.

 

O mundo moderno entendeu que a teoria neoliberal poderia pôr fim aos conflitos, sendo única, negando a natureza pluralista das sociedades e incitando o desenvolvimento dos interesses individuais, em especial os de consumo, em detrimento do coletivo. A falta de sentimento de pertencimento aos rumos do País é elemento crítico nas sociedades com profunda desigualdade social como o Brasil.

 

O liberalismo globalizado quer uma sociedade única, com o Estado afastado de suas nobres e essenciais funções que é não permitir desigualdades de direitos, garantindo-se oportunidades iguais para incluir os desiguais. Mouffe diz com muita sabedoria que não existe uma política liberal, mas sim uma crítica liberal da política, com a preocupação quase única de combater o Estado e defender a maximização dos interesses individuais.

 

A sociedade precisa ficar alerta para em tempos de crise política não deixar que as más práticas da política destruam o político e toda as construções da política (instituições, ordem estabelecida, espaço de coexistência humana harmoniosa no contexto conflituoso, justiça social) que elevaram a civilização nos últimos séculos. Nada existe fora da política como civilização.

 

É preciso reconstruir o espaço democrático no nosso país, onde o direito à voz signifique de fato ser ouvido, não bastando o direito ao voto; onde o conflito social seja considerado, respeitado e harmonizado e os partidos possam defender suas propostas sem ser considerados inimigos, mas sim pares numa arena pública conflituosa em sua natureza, que deve coexistir de modo sensato e maduro, sem desconsiderar aqueles que têm interesses divergentes, dentro de um patamar de valores e normas dispostos pelo Estado, paradigmas que não podem ser violados por próprios da evolução civilizatória.

 

É, pois, necessário projeto de país que promova a cidadania, diminuam as desigualdades sociais, eleve e aperfeiçoe a participação social e que o liberalismo globalizante seja contido em seus interesses de incentivar práticas individuais, em detrimento do bem comum.

 

Rejeitar os políticos irresponsáveis com o destino comum da Nação é imperativo, sem com isso rejeitar a política e o político. Este é um ano crucial para essa discussão com a sociedade e as redes sociais, que precisam ser adequadamente exploradas.

 

[1] Partidos políticos são canais desse antagonismo.



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