Saúde em Debate v. 44 n. Especial 2 – Desenvolvimento, desastres e emergências em saúde pública

Saúde em Debate v. 44 n. Especial 2 – Desenvolvimento, desastres e emergências em saúde pública

Desenvolvimento, desastres e emergências em saúde pública

Carlos Machado de Freitas1, Simone Santos Oliveira1, Christovam Barcellos2

EM ABRIL DE 2019, COMPLETANDO TRÊS MESES APÓS O DESASTRE provocado pela Vale, que atingiu Brumadinho com centenas de óbitos e afetou dezenas de outros municípios com a lama de rejeitos e seus contaminantes ao longo do Rio Paraopeba, começamos a preparar este número especial da revista ‘Saúde em Debate’, tendo como tema: Desenvolvimento, Desastres e Emergências em Saúde Pública. Nosso objetivo inicial foi combinar em um mesmo número a pesquisa acadêmica e o debate público sobre diferentes tipos de desastres e as emergências em saúde, incluindo a emergência climática. Embora interconectados, esses eventos e processos costumam ser abordados de modo distintos, por diferentes tradições científicas e organizações da sociedade. Ao mesmo tempo, ainda que constituam expressões dos processos de desenvolvimento social e econômico, nos níveis global, nacional, regional e local, são muitas vezes tratados como se fossem somente o resultado das falhas tecnológicas ou de eventos e processos da natureza.

Naquele mesmo ano, a partir do final de agosto, o Brasil foi surpreendido pelos primeiros locais atingidos com manchas de petróleo cru nas praias, afetando principalmente o litoral do Nordeste, chegando até aos litorais do Espírito Santo e do Rio de Janeiro, atingindo mais de 2,5 mil quilômetros de praias e constituindo um dos maiores desastres desse tipo em termos de extensão territorial.

Ainda em dezembro de 2019, tivemos a identificação de uma nova doença, a Covid-19, que viria a ser declarada uma pandemia global em 11 de março de 2020. De lá até hoje, o País se converteu em um dos epicentros da pandemia dessa doença, figurando entre os países com maior número de casos e óbitos.

No desastre da Região Serrana, em 2011, considerado um dos mais graves em termos de óbitos imediatos, foram registrados oficialmente 918 óbitos. No desastre provocado pela Vale em Brumadinho, em 2019, considerado um dos mais graves em barragens de mineração, foram registrados oficialmente 270 óbitos. No dia 19 de maio deste ano, ultrapassamos, pela primeira vez, a marca de mais de mil óbitos registrados em um único dia durante a pandemia de Covid-19. Do primeiro óbito por essa doença, em 17 de março, até o dia 18 de maio, foram 16.792 óbitos, com uma média de 263 óbitos por dia, ou seja, um desastre da Vale em Brumadinho por dia em cerca de dois meses. Do dia 19 de maio até o dia 20 de julho, foram registrados 62.149 óbitos, com uma média de 986 óbitos por dia, ou seja, um desastre da Região Serrana por dia.

O levantamento desses números é relevante para que não se naturalizem os impactos desses eventos, em que o número de vidas perdidas é apenas um dos indicadores. É importante também para nos ajudar a refletir por qual razão o mesmo país que hoje é um dos epicentros da pandemia por Covid-19 também registrou os mais críticos desastres em barragens de mineração, um dos mais graves envolvendo chuvas fortes e deslizamentos de terra, um dos maiores em extensão litorânea e territorial envolvendo derrame de petróleo cru. Desastres, epidemias e pandemias não existem em um vazio; suas causas, consequências e capacidades de respostas sociais, incluindo as relacionadas aos sistemas de saúde, constituem a concretização dos processos de desenvolvimento social e econômico que produzem também vulnerabilidades e riscos1,2.

Os artigos publicados neste número abordam diversos aspectos relacionados com compreensão e estratégias de redução de riscos de desastres e emergências em saúde pública. Esperamos que sua leitura contribua para fortalecer o projeto de país que está expresso nos objetivos de nossa Constituição Federal de 1988, que são o de construir uma sociedade livre, justa e solidária, em que o desenvolvimento nacional esteja acoplado à erradicação da pobreza e da marginalização, orientado para a redução das desigualdades sociais e regionais. É como parte desse projeto de nação que se insere a saúde coletiva e que nasce o Sistema Único de Saúde, com seus princípios de universalidade, equidade e integralidade.

Referências

  1. Blaikie P, Cannon T, Davis I, et al. At Risk: Natural Hazards, People’s Vulnerability and Disasters. London: Routledge; 1994.
  2. Garrett L. A próxima peste: as doenças de um mun-do em desequilíbrio. Rio de Janeiro: Nova Fronteira; 1995.

  1. Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (Ensp) – Rio de Janeiro (RJ) – Brasil.
  2. Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde (Icict) – Rio de Janeiro (RJ), Brasil.

APRESENTAÇÃO

Desenvolvimento, desastres e emergências em saúde pública | por Carlos Machado de Freitas, Simone Santos Oliveira, Christovam Barcellos

ARTIGO DE OPINIÃO

Emergências de saúde pública: breve histórico, conceitos e aplicações | por Eduardo Hage Carmo

Entre sirenes, rotas de fuga e exercícios de simulação: vida cotidiana sob os riscos de desastres | por Norma Valencio

Pesquisa transdisciplinar como suporte ao planejamento de ações de gestão de risco de desastres | por Victor Marchezini

ENSAIO

Do global ao local: desafios para redução de riscos à saúde relacionados com mudanças climáticas, desastre e Emergências em Saúde Pública | por Mariano Andrade da Silva, Diego Ricardo Xavier, Vânia Rocha

Proposta de análise integrada de emergências em saúde pública por arboviroses: o caso do Zika vírus no Brasil | por Vera Lucia Edais Pepe, Mariana Vercesi de Albuquerque, Claudia Garcia Serpa Osorio de-Castro, Claudia Cristina de Aguiar Pereira, Catia Verônica dos Santos Oliveira, Lenice Gnocchi da Costa Reis, Carla de Barros Reis, Henrique Sant’Anna Dias, Elaine Silva Miranda

Hospitais seguros em desastres: demandas e tecnologias voltadas à redução de riscos | por Roberto Braz da Silva Cardoso, Alexandre Barbosa de Oliveira

Sistema de Comando de Incidentes e comunicação de risco: reflexões a partir das emergências nucleares | por Mario Theophilo da Rocha Santos, Marcos Vinicius de Castro Silva, Telma Abdalla de Oliveira Cardoso

ARTIGO ORIGINAL

A utilização de instrumentos globais para a avaliação da resiliência a desastres na saúde | por Larissa Ferentz, Murilo Noli da Fonseca, Eduardo Pinheiro, Carlos Garcias

Interlocução das políticas públicas ante a gestão de riscos de desastres: a necessidade da intersetorialidade | por Maluci Solange Vieira, Roberta Borghetti Alves

Desastre da Samarco e políticas de saúde no Espírito Santo: ações aquém do SUS? | por Frederico Viana Machado, Monika Weronika Dowbor, Igor Amaral

Ferramenta gerencial para integração dos serviços de saúde na gestão de riscos de desastres: o caso de Blumenau, SC | por Sherelee Ribeiro Spindola de Moura, João Marcos Bosi Mendonça de Moura, Rafaela Vieira

Emergência em saúde pública por inundações: a atuação do Ministério da Saúde em ocorrências no Brasil de 2004 a 2017 | por Eliane Lima e Silva, Rodrigo Matias de Sousa Resende, Rodrigo Lins Frutuoso, Amarílis Bahia Bezerra, Barbara Bresani Salvi, Daniela Buosi Rohlfs

Vulnerabilidade institucional do setor saúde a desastres: perspectiva dos profissionais e gestores de Nova Friburgo | por Isadora Vida de Mefano e Silva, Carlos Machado de Freitas, Leonardo Esteves de Freitas

Percepção e hierarquia de riscos de inundação recorrente em área urbana regularizada: uma análise discursiva | por Sandra Luzia Assis da Silva, Mário Henrique da Mata Martins, Mary Jane Paris Spink

Potencial de SIG participativos na Gestão de Riscos de Desastres e Emergências em Saúde | por Leonardo Esteves de Freitas, Flávio Souza Brasil Nunes

Saúde mental das pessoas em situação de desastre natural sob a ótica dos trabalhadores envolvidos | por Alessandra Rossoni Rafaloski, Maria Terezinha Zeferino, Bárbara Aparecida Oliveira Forgearini, Gisele Cristina Manfrini Fernandes, Fabrício Augusto Menegon

Segurança de barragens e os riscos potenciais à saúde pública | por Eliane Lima e Silva, Mariano Andrade da Silva

Território e desterritorialização: o sofrimento social por desastre ambiental decorrente do rompimento de barragens de mineração | por Marcela Alves de Lima Santos, Núncio Antônio Araújo Sol, Celina Maria Modena

O rejeito e suas diversas marcas: saúde dos trabalhadores da Defesa Civil no rompimento da barragem de Fundão | por  Eduardo de Andrade Rezende, Sergio Portella, Simone Santos Oliveira

Mudanças na exposição da população à fumaça gerada por incêndios florestais na Amazônia: o que dizem os dados sobre desastres e qualidade do ar? | por Liana Anderson, Victor Marchezini

Cartografia da luta e resistência de uma comunidade de pesca artesanal | por Antonio Vladimir Félix-Silva, Maylla Maria Souza de Oliveira, Laís Leal da Silva Bezerra

REVISÃO

Vigilância em saúde e desastres de origem natural: uma revisão da literatura | por Rhavena Santos, Júlia Alves Menezes, Carina Margonari de Souza, Ulisses Confalonieri, Carlos Machado de Freitas

Aspectos psicossociais em desastres socioambientais de origem geoclimática: uma revisão integrativa da literatura | por Milena Maciel de Carvalho, Simone Santos Oliveira

RELATO DE EXPERIÊNCIA

Desastre da Vale: o desafio do cuidado em Saúde Mental e Atenção Psicossocial no SUS | por Débora da Silva Noal, Vanuse Maria Resende Braga, Mariana Bertol Leal, Angela Ribeiro Vargas, Paula Eliazar

A vigilância em saúde ambiental como resposta ao desastre do rompimento da barragem de rejeitos em Brumadinho | por Ana Paula Mendes Carvalho, Gabriela Lopes Marques, Joice Rodrigues da Cunha, Rosiane Aparecida Pereira, Talita Silva de Oliveira

Rompimento da barragem em Brumadinho: um relato de experiência sobre os debates no processo de desastres | por Giulia Balbi Rodrigues da Costa, Geórgia Rolemberg Lau, Camilla Ferreira da Silva, Maria Clara Barroso Mantel, Maria Cristina Mitsuko Peres, Tatiane Nunes da Silva Santos Luna, Priscila Neves da Silva

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