Conferência Livre homenageia Cebes pelos 50 anos de defesa da saúde como direito
José Gomes Temporão, ex-ministro da Saúde e ex-presidente do Cebes, recordou a luta pela Reforma Sanitária e a necessidade de avançar
A trajetória do Centro Brasileiro de Estudos de Saúde (Cebes) foi celebrada durante a 2ª Conferência Nacional Livre, Democrática e Popular de Saúde, promovida pela Frente pela Vida, no Rio de Janeiro. A homenagem aos 50 anos da entidade, com integrantes de diferentes gerações da Reforma Sanitária, recuperou a contribuição do Cebes para a formulação de um projeto de saúde pública que antecede a criação do Sistema Único de Saúde (SUS). Ex-ministro da Saúde e ex-presidente do Cebes, José Gomes Temporão falou em nome de todos os dirigentes da entidade.
Ao relembrar a história do Cebes, Temporão destacou o papel desempenhado pela organização nos anos 1970 e 1980, durante a ditadura militar. Além de atuar na formulação política do movimento sanitário, o Cebes funcionou como espaço de educação política e formação de quadros. Temporão destacou o papel da revista Saúde em Debate, nascida junto com Cebes, na difusão de novas concepções sobre saúde, medicina e sociedade. “Se o Cebes foi vanguarda nos anos 70 e 80”, afirmou, “hoje o Cebes se alia à Frente pela Vida, junto com outras instituições, em uma luta que continua a mesma.”
O ex-ministro destacou que a história da entidade está diretamente ligada à construção do SUS e à luta pela redemocratização. Antes da Constituição de 1988, a defesa da saúde universal estava articulada às mobilizações contra a ditadura, pela anistia, pelas Diretas Já e por uma Assembleia Nacional Constituinte. Temporão ressaltou que a conquista constitucional da saúde como direito de todos e dever do Estado foi resultado desse processo político e social, e não uma concessão institucional.
Carlos Fidelis, presidente do Cebes, destacou a presença, no encontro, de pessoas que participaram da construção do movimento sanitário e do SUS. “Foram os sonhos dessa geração que demonstraram a possibilidade de manter projetos coletivos mesmo diante de contextos políticos adversos”, afirmou. “O SUS não nasceu da Constituição de 1988; ambos nasceram juntos”, destacou Fidelis, lembrando o papel da luta pelo direito universal à Saúde na redemocratização do Brasil.
Temporão ressaltou que a conquista do direito constitucional à saúde não encerrou a agenda da Reforma Sanitária. Para ele, o desafio atual é garantir que o direito previsto na Constituição seja efetivamente exercido por toda a população, sem restrições relacionadas ao território, à cor da pele, à orientação sexual ou à origem. “Enquanto esse direito não for efetivamente exercido, a luta daqueles que sonharam o SUS ainda está inacabada”, afirmou.
Confira a íntegra da fala do ex-ministro José Gomes Temporão
“Bom dia.
É uma honra estar aqui falando nesse ato de comemoração aos 50 anos do Centro Brasileiro de Estudos de Saúde (Cebes), em nome dos ex-presidentes. Então, eu começaria nominando os nossos queridos ex-presidentes. Muitos ainda estão conosco na luta, alguns já se foram: José Rubens de Alcântara Bonfim, Sérgio Arouca, Eleutério Rodrigues Neto, José Gomes Temporão, Erick Jenner Rosas, Francisco de Assis Machado, Márcio Almeida, Volnei Garrafa, Paulo Amarante, Sara Escorel, Sônia Fleury, Roberto Passos Nogueira, Ana Costa, Cornelis Van Straalen, Lúcia Souto e o atual presidente, Carlos Fidelis.
Se o Cebes foi vanguarda nos anos 70 e 80 -naquela época, eu, Sônia Fleury, Paulo Amarante e tantos outros, vivemos esse processo dentro da organização, exercendo a nossa militância- o Cebes foi também um campo de educação política e de formação de quadros, e isso foi fundamental no processo da reforma sanitária. A revista Saúde e Debate se transformou no veículo de disseminação das novas ideias, das novas visões sobre saúde, sobre a medicina, sobre o campo social. Hoje, o Cebes se alia à Frente pela Vida, junto com outras instituições, em uma luta que contém muitos dos desafios do passado e novos trazidos pela modernidade.
Se lá atrás, o nosso lema era saúde é democracia, e democracia é saúde, já que vivíamos numa ditadura militar e queríamos a reconquista da democracia; hoje lutamos contra a extrema direita, que ameaça e quer acabar com a democracia. As mesmas utopias que nos moveram lá atrás continuam presentes hoje. O direito à vida, o fortalecimento do sistema único de saúde, o desenvolvimento nacional com equidade, a soberania, a questão social, a luta contra o racismo, a luta pela defesa dos direitos humanos, a luta antimanicomial e tantas outras lutas que continuam presentes na nossa agenda política. Mas temos uma diferença fundamental. Lá atrás, nós não tínhamos o SUS. Hoje, nós temos uma base material e política onde, cotidianamente, milhões de trabalhadores, de lideranças e de ativistas constroem cotidianamente o nosso sonho e a nossa utopia. Vida longa ao Cebes!”










