Eleutério Rodriguez

Eric Jenner

David Capistrano

07/08/2026

David Capistrano da Costa Filho (1948 – 2000) foi Presidente do Cebes de 1982 a1983

David Capistrano da Costa Filho (Davizinho),como era chamado, trouxe para a história da Reforma Sanitária a sua capacidade combativa de militante comunista e suas ideias visionárias de estadista. Apesar de sua morte precoce, aos 52 anos, teve uma carreira respeitável que vai da clínica a cargos públicos e eletivos. Foi um dos principais idealizadores da revista ‘Saúde em Debate’ como um meio de intercâmbio científico e de discussão do pensamento crítico sanitário. O seu ideal humanista e sua habilidade de articulador foram fundamentais para a criação do Sistema Único de Saúde. Foi presidente do Cebes de 1982 a 1983.

A militância política corria em suas veias. Capistrano vinha de uma família tradicional de integrantes do Partido Comunista Brasileiro (PCB). Na sua adolescência, em Recife, sua cidade natal, participou do movimento secundarista e já nessa época teve decretada a sua primeira prisão, aos 16 anos.

Com o golpe militar, a família precisou mudar-se para o Rio de Janeiro, onde Davi formou-se em Medicina, em 1972, pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Continuava sempre presente na linha de frente do movimento estudantil contra a ditadura militar. Foi orador dos graduandos e em seu discurso ‘Sede de justiça e fome de liberdade’ já preconizava pontos que marcariam sua trajetória na saúde pública: a defesa da institucionalização da medicina e o combate à sua privatização e comercialização.

Já formado, em 1974, mudou-se para São Paulo, onde se especializou em pediatria e saúde pública. Foi aluno de Sergio Arouca, então professor de Medicina Social e Preventiva da Universidade de Campinas. Logo após, estudou com Kurt Kloetzel, na Faculdade de Medicina de Jundiaí, que na época era também chefe do Centro de Saúde e Manicômio Judiciário do município de Franco da Rocha.

Ao mesmo tempo, convertia-se no principal agente da reconstrução do PCB paulista, chegando a desempenhar a função de secretário político entre 1976 e 1983. Por conta de suas atividades, Davi Capistrano foi preso e torturado várias vezes. Em 1986, rompeu com o PCB por discordar de sua linha política contra a ditadura. Passou a integrar os quadros do Partido dos Trabalhadores, que emergia como o principal instrumento da classe operária e do povo brasileiro.

O jornalista e amigo Sérgio Gomes compartilhou a cela com ele e outros três presos, Ubiratan de Paula Santos, Valdir Quadros, Emílio Bonfante de Maria. Sérgio lembrou a passagem pelo cárcere em entrevista ao jornal eletrônico santista Novo Milênio (2012). Segundo o jornalista, mesmo na prisão, o grupo discutia e elaborava políticas, em especial, na área da Saúde. Nessa ocasião Davi Capistrano decidiu que quando saísse montaria o Centro Brasileiro de Estudos de Saúde (Cebes). “Escrevíamos tudo em papéis de maço de cigarros. O que veio a ser o Sistema Único de Saúde (SUS) nasceu ali”, contou Sérgio Gomes à reportagem. “As ideias todas estavam ali e David era referência”, comentou.

Sanitarista e gestor público ocupou o cargo de secretário de Saúde em Bauru (1983-1985) e em Santos (1989-1992). Como secretário de Saúde de Bauru, realizou a II Conferência Nacional do Movimento dos Trabalhadores de Saúde Mental (MTSM). Este encontro tornou-se um marco no Movimento da Luta Antimanicomial. Segundo Paulo Amarante, nessa conferência foi cunhado o slogan ‘Por uma sociedade sem manicômios’ (AMARANTE, 2001). Durante sua gestão em Bauru, Capistrano criou o Núcleo de Atenção Psicossocial (Naps), uma alternativa à internação psiquiátrica.

Quando David assumiu a Secretaria Municipal de Saúde de Santos, promoveu uma intervenção na Casa de Saúde Anchieta, hospital psiquiátrico com 200 leitos e uma superlotação de 500 internos. O fechamento da instituição resultou numa mudança
estrutural da rede assistencial daquele município. Da gestão anterior em outra cidade, Capistrano trouxe a experiência dos Naps para Santos, permitindo que os internos da extinta casa de saúde fossem reinseridos na sociedade. Mais tarde, como prefeito da cidade, seria criada a primeira pensão protegida do País e também uma cooperativa denominada ‘Paratodos’, com atividades de geração de renda para portadores de transtornos mentais.

Em 1990, David Capistrano, secretário da Saúde de Santos, comemora com várias mães o 1° ano de vida das crianças de risco do Programa de Redução da Mortalidade Infantil, que ele criou.

Ainda em sua gestão em Santos, o município apresentava o mais alto índice de casos de HIV do Brasil. Ao lado do coordenador do programa municipal de DST/Aids, Fábio Mesquita, propôs uma medida audaciosa de distribuição de seringas para a população. A atitude polêmica gerou uma ameaça de prisão pelo Ministério Público paulista. Tal iniciativa, anos mais tarde, seria encampada como política nacional do Ministério da Saúde e tornaria o município uma das principais referências mundiais da luta contra a Aids.

Capistrano também foi precursor das Unidades Básicas de Saúde, criadas em sua gestão como policlínicas. Entre outras ações pioneiras atribuídas à sua gestão como secretário de Saúde de Santos destacam-se zerar indicadores de cárie nas crianças de até cinco anos e criar registros de casos de câncer para traçar uma estratégia de prevenção e enfrentamento.

Como prefeito de Santos deu prioridade aos problemas habitacionais. Construiu conjuntos habitacionais em lugar de favelas com verbas municipais. Pensava na reurbanização do Porto e na criação de áreas de lazer e turismo na região portuária. Depois de deixar a prefeitura santista, retornou para São Paulo. Passou a desenvolver, junto com o médico Adib Jatene, o Programa Quali – Saúde da Família.

Capistrano recebeu, em 1998, uma menção honrosa por suas ações no campo da saúde mental, na cidade de Trieste, na Itália, localidade considerada mundialmente um marco no processo de transformação do modelo assistencial em Saúde Mental. Ao longo de sua carreira acumulou sete prêmios internacionais na área da Saúde.

David Capistrano colaborou para a elaboração do texto que deu origem ao capítulo sobre o SUS na Constituição de 1988. Além de mentor e articulador da criação do Centro Brasileiro de Estudos de Saúde (Cebes), da revista ‘Saúde em Debate’ e da ‘Coleção Saúde em Debate’, é o patrono da biblioteca da entidade.

Camaradas de jornada na vida pública o consideram controverso e polêmico, qualidades que angariaram admiração e também antipatia por suas políticas transformadoras. Em seu discurso no VI Congresso de Saúde Coletiva (Abrasco), 2000, Salvador, BA, Capistrano provoca:

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