Eleutério Rodriguez Neto (1946 – 2013) foi Presidente do Cebes de 1980 a1981 e de 1991 a 1993
Discurso proferido por Francisco Campos em homenagem a Eleutério Rodrigues no II Congresso Brasileiro de Política, Planejamento e Gestão em Saúde da Abrasco, Belo Horizonte, 01 e 03 de outubro de 2013.
Eleutério Rodrigues Neto foi um grande amigo, com quem tive a honra e o privilégio de trabalhar e conviver intensamente. Com sua mulher, Lucia Ypiranga de Sousa Dantas e seus filhos, Silvia e Pedro Paulo, tivemos momentos de intensa troca de ideias e momentos de laser e alegrias.
Eleutério morreu muito cedo, acometido de uma doença que nos privou de sua inteligência e visão de mundo. Era capaz de analisar acontecimentos, discutindo suas raízes e circunstâncias, se posicionando com perspicácia e uma percepção plena da situação. Eleutério ia de uma visão macro para uma visão micro desses acontecimentos com muita clareza das opções que se apresentavam, sempre com propostas comprometidas politicamente.
Certamente Eleutério sentir-se-ia muito à vontade no Congresso da Abrasco (Associação Brasileira de Saúde Coletiva) com suas propostas de universalidade, igualdade e integralidade das ações de saúde.
Ainda hoje, buscando entender situações e problemas conjunturais, me pergunto, consultando por vezes a Lucia, como o Eleutério analisaria o momento e como proporia possíveis soluções.
Eleutério veio estudar na Universidade de Brasília (UnB) atraído pelo arrojo das propostas de Anísio Teixeira e Darcy Ribeiro. Aqui encontrou um grupo de jovens, Luiz Carlos Lobo, José Roberto Ferreira, Henry Jouval, Agnelo Collet, propondo uma Faculdade de Medicina integrando disciplinas, das ciências básicas, clínicas e sociais, buscando desde cedo a participação dos alunos na discussão dos problemas de saúde e na determinação social desses problemas.
Com aprendizado ativo no ciclo básico (teoria emergindo da prática – aprendizagem e não apenas ensino) e engajados com responsabilidades crescentes nas atividades voltadas a atender os problemas e as necessidades de saúde da população vivendo na cidade satélite de Sobradinho (cobertura e não assistência era a ideia estruturante) a proposta foi aceita pelos alunos porque achavam-na ajustada aos princípios que haviam norteado a criação da UnB.
Gastão Campos, aqui presente, pode testemunhar o acerto dessa proposta.
Eleutério elegeu-se de pronto um representante dos alunos, discutindo tudo que se propunha, cada contratação docente, cada ação planejada. De uma feita procurou, o Lobo para discutir a necessidade de realização de exames com fiscalização de docentes,
já que a escola propunha formar indivíduos éticos e comprometidos com sua própria formação. A partir de então os alunos se auto-avaliavam, para indignação da Reitoria ainda presa a conceitos antigos, mas dominantes.
Eleutério, terminado seu curso na UnB, foi fazer residência com Guilherme da Silva na Universidade de São Paulo (USP). Não conseguindo ser nomeado pela instituição, apesar do interesse do Guilherme, veio ao Rio e foi admitido no plantel de profissionais sendo contratados pelo Lobo no projeto Nutes/UFRJ (Núcleo de Tecnologia Educacional para a Saúde/Universidade Federal do Rio de Janeiro). Posteriormente esses profissionais foram admitidos como auxiliares de ensino da instituição.
No Rio Eleutério estabeleceu relacionamento com Sergio Arouca, José Noronha, Cecília Donangelo, Reinaldo Guimarães buscando complementar sua formação acadêmica.

Com a ida do Lobo para a Secretaria do Inamps e do Jouval para sua Diretoria de Planejamento, veio o Eleutério para a instituição onde, sob a orientação do Jouval e colaboração do José Gomes Temporão, propôs o projeto de Ações Integradas de Saúde (AIS), juntando no município as ações de entes nos seus vários níveis federativos.
Dentre uma série de ações propostas para reformar o Inamps (Plano do Conasp), como mudança de seu plano de pagamentos, que passou a ser feito por valores definidos por procedimentos, controle de hospitalizações definidas por parâmetros de cobertura (AIH
– Autorização de Internação Hospitalar), controle de custos de hemodiálise (autorização de novos centros condicionados á conjunção com programas de transplantes), órteses e próteses, quimioterápicos, entre outras, ressaltava-se a importância dessa integração programática feita ao nível do município que era o AIS.
Transferindo-se para Brasília, criou o Núcleo de Saúde Coletiva da UnB e passou no concurso para assessor em saúde do Senado.
Secretário Geral do Ministério da Saúde, na gestão de Carlos Santana, Eleutério iniciou um conjunto de ações, com Sérgio Arouca na Fiocruz, Hésio Cordeiro (Inamps) e Saraiva Felipe na Previdência Social, visando a criação do projeto Suds (Sistema Unificado e Descentralizado de Saúde), embrião do atual SUS (Sistema Único de Saúde), o que foi aqui também citado pelo Temporão.
Eleutério, com Arouca e Hésio coordenaram a VIII Conferência Nacional de Saúde, ponto de inflexão na definição dos marcos conceituais de implantação do SUS. Com a Comissão Nacional da Reforma Sanitária, Eleutério teve papel da maior relevância,
dada a sua competência e visão política, na construção dos capítulos atinentes à saúde na Constituição de 88.
Convivi na casa de Eleutério com Lucia, Silvia, Pedro Paulo e em outra homenagem feita a ele, com suas netas Laura e Sofia. Isso foi para mim mais um privilégio.
Acredito que sem ter tido a contribuição sempre competente e comprometida do Eleutério, transitando nas suas várias fases, não teríamos hoje o SUS da forma que temos.
Por isso tudo, peço vênia ao presidente da Abrasco, para que essa homenagem, tão justa e oportuna, seja entregue à Lucia, seus filhos e netos.






