Diretoria do Cebes agradece Giovanna Cinacchi

Doutora em Política Social, Giovanna deixa a secretaria executiva do Centro Brasileiro de Estudos de Saúde

Querida Giovanna,

Como foi bom conhecer você. Melhor ainda foi conviver com você ao longo desses anos.

Agora você inicia uma nova etapa da sua trajetória. Ficaremos com saudade da convivência diária, mas também com a alegria de saber que esse novo caminho dialoga profundamente com aquilo que sempre orientou sua vida: construir pontes entre a universidade e os movimentos sociais, entre a produção do conhecimento e a transformação da realidade.

Quem conviveu com você sabe que o seu cargo jamais foi suficiente para definir o que você representou para o Cebes. Seu trabalho ultrapassou em muito as atribuições formais da função. Você ajudou a organizar processos, aproximou pessoas, acolheu quem chegava, enfrentou problemas, encontrou soluções e fez tudo isso com uma combinação rara de firmeza, pulso, confiabilidade, disponibilidade e uma alegria dinâmica que tornava mais leve o trabalho e mais agradável a convivência.

Nossa “camponesa”, militante arretada da causa da vida digna para todos — especialmente para a população em situação de rua —, você sempre trouxe para o Cebes algo que não se aprende apenas nos livros. Sua múltipla formação ampliou sua capacidade de compreender problemas complexos, mas foi seu compromisso com a vida concreta das pessoas que deu sentido a esse conhecimento.

Como mulher jovem, você também trouxe novas sensibilidades, novos olhares e novas formas de fazer política, enriquecendo uma entidade que carrega quase cinquenta anos de história. Sua presença reafirmou que tradição e renovação não são forças opostas. Ao contrário, é justamente do diálogo entre gerações que organizações como o Cebes preservam seus princípios, renovam suas ideias e encontram energia para seguir transformando a realidade. Aprendemos muito com você, assim como esperamos que você também tenha encontrado no Cebes um espaço de aprendizado, crescimento e construção coletiva.

Você chegou ao Cebes por indicação de Lenaura, nossa vice-presidente, que identificou em você o perfil que a entidade buscava e a incentivou a participar do processo seletivo. A partir dali, conquistou seu lugar por seus próprios méritos. Encontrou uma instituição impactada por anos de financiamento insuficiente, que haviam deixado marcas profundas em sua organização cotidiana. Com competência, dedicação e enorme capacidade de trabalho, você nos ajudou a reorganizar processos, dar maior estabilidade ao funcionamento da entidade e criar melhores condições para que o Cebes pudesse concentrar suas energias naquilo que constitui sua razão de existir: a formulação crítica, a produção de conhecimento e a incidência política em defesa do direito à saúde e da democracia. Entre tantas atribuições, aceitou ainda uma missão particularmente complexa: tentar impor alguma ordem ao caos organizacional — e, principalmente, ao caos pessoal do presidente da entidade, enfrentando com bom humor suas recorrentes dificuldades diante das novas tecnologias. Poucas pessoas teriam conseguido desempenhar essa tarefa com tanta competência, determinação e objetividade. Se o Cebes avançou em sua organização, parte desse mérito também está na sua capacidade de transformar o caos em organização, a ansiedade em energia produtiva e as dificuldades em soluções.

Sua casa também acabou virando um pouco a casa do Cebes. Você e Danilo sempre nos receberam de portas abertas. E ele, sem nem perceber, foi sendo adotado por todos nós. Deixou de ser apenas o marido da Giovanna para virar, simplesmente, “o nosso marido”. Sempre pronto para ajudar, acolher e participar, passou a fazer parte, ainda que informalmente, da nossa equipe. Com vocês, o Cebes também ganhou um carro para suas produções, que rapidamente deixou de ser apenas um veículo para se tornar mais um integrante da equipe — com nome próprio e muitas histórias para contar. Esse jeito de compartilhar a vida, abrir as portas de casa e colocar até os bens pessoais a serviço de um projeto coletivo também é uma forma de fazer política. Afinal, o Cebes não vive apenas de reuniões, documentos e projetos. Vive das amizades, da confiança, da solidariedade e do afeto que construímos ao longo do caminho. São esses laços que fazem de alguém uma companheira e uma camarada.

Aprendemos muito com você. Seu olhar atento e sua disposição para o diálogo nos ajudaram a reconhecer que nenhuma organização comprometida com a transformação da sociedade está imune aos preconceitos, às hierarquias e às formas de relação que ela própria combate. Sua crítica, sempre acompanhada de escuta, respeito e disposição para construir, nos tornou um Cebes melhor.

Na luta cotidiana, porém, nem sempre cuidamos das relações como deveríamos. As urgências, os prazos, as reuniões (algumas delas chatas e intermináveis) e as inúmeras responsabilidades acabam ocupando o tempo que deveria ser dedicado ao reconhecimento daqueles que caminham ao nosso lado. Você, por sua vez, nos ajudou a lembrar que a qualidade de uma organização também se mede pela forma como ela cuida das pessoas que a constroem. Por isso, queremos dizer agora, com simplicidade, aquilo que muitas vezes ficou apenas implícito: foi muito bom ter você conosco.

Ao iniciar essa nova etapa, temos certeza de que você continuará fazendo aquilo que sempre orientou sua trajetória: construir pontes entre a universidade e os movimentos sociais, entre a produção do conhecimento e a transformação da realidade. Como cidadã, militante petista e participante ativa dos movimentos sociais, você certamente seguirá colocando sua inteligência, sua sensibilidade e sua capacidade de articulação a serviço das lutas por justiça social, democracia e direito à saúde. Esse compromisso torna-se ainda mais necessário no grave momento que o Brasil e o mundo atravessam, marcado pelo avanço do neoliberalismo, pelo recrudescimento do arbítrio e da violência, pelo crescimento da extrema direita e pelos ataques aos direitos sociais, às instituições democráticas e ao próprio valor da solidariedade.

Temos outra certeza: você continuará sendo uma cebiana. Porque o Cebes nunca foi apenas um emprego, nem apenas uma instituição como tantas outras. Desde sua origem, constituiu-se como um espaço de militância, de formulação crítica, de produção de conhecimento comprometido com a transformação da realidade e de construção de amizades e afetos. Talvez por isso você também nunca tenha sido apenas uma “funcionária”. Foi companheira de caminhada, militante, formuladora, articuladora e parte viva desse projeto coletivo. Quem vive o Cebes dessa maneira não se desliga dele ao mudar de trabalho. O Cebes deixa marcas. E leva, também, um pouco de cada pessoa que ajudou a construí-lo. Quem passa por aqui leva consigo, queremos crer, seus valores, sua história, seus compromissos e uma forma de olhar o mundo que dificilmente se perde com o tempo. É por isso que temos tanta convicção de que, onde quer que você esteja, continuará sendo uma cebiana.

Por isso, queremos lhe oferecer um presente que, para nós, tem um significado muito especial. A condição de cebiana não decorre de um vínculo de trabalho. Ela nasce da identificação com um projeto coletivo, da disposição para a luta, da capacidade de produzir conhecimento comprometido com a mudança da realidade e da generosidade em compartilhar essa caminhada. Ao inscrever você como cebiana, a Diretoria do Cebes não está apenas fazendo uma homenagem. Está reconhecendo que você passou a fazer parte da história desta entidade. Um reconhecimento à mulher que você é: firme sem perder a delicadeza, crítica sem abrir mão da escuta, solidária e profundamente comprometida com a construção de um país mais justo. Queremos que este gesto simbolize algo muito simples: as portas do Cebes continuarão sempre abertas para você, porque esta também continuará sendo a sua casa.

Felizes pela convivência, pela dedicação, pela confiança, pela amizade e, sobretudo, por tudo o que aprendemos com você. Que essa nova caminhada seja fecunda e que nossos caminhos continuem se cruzando muitas vezes. Afinal, as causas que nos aproximaram permanecem as mesmas. Receba nosso abraço, nosso carinho e nossa profunda gratidão.

E seguimos juntos. Como gosta de lembrar nosso companheiro Noronha, inspirado nas lutas travadas por movimentos revolucionários: “Ousar lutar, ousar vencer!”. “A luta continua, mas a vitória é certa”.

Até breve, companheira. Porque, ontem como hoje, seguimos acreditando que saúde é democracia e democracia é saúde.

Diretoria do Centro Brasileiro de Estudos de Saúde – Cebes